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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Kinjo Yamato: o centenário 'primo pobre' do Mercadão tem seu valor

Kinjo Yamato: o "primo pobre" do Mercadão tem seu valor - Miguel Icassatti/UOL
Kinjo Yamato: o 'primo pobre' do Mercadão tem seu valor Imagem: Miguel Icassatti/UOL
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Miguel Icassati

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas ?Playboy? (1998-2000) e ?Veja São Paulo? (2000), editor-assistente e um dos fundadores do ?Paladar/jornal O Estado de S. Paulo? (2004 a 2007), editor dos guias ?Veja Comer & Beber? em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista ?Men?s Health Brasil? (2011 a 2014). É colunista de ?Cultura de Boteco? da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da ?Revista de Vinhos? (Portugal).

Colunista do UOL

02/03/2022 04h00

A pretexto de comprar frutas, legumes e comer pastel, uma ida a feira pode ser um eficiente exercício de networking, no qual feirante e freguesia podem sair ganhando. Ao tornar-me cliente fiel da banca de temperos do São-Paulino na feira da Vila Madalena aos sábados, via de regra meu bouquet garni vem turbinado.

Da mesma forma, o bananeiro corinthiano transforma a dúzia de banana prata em um cacho de quinze unidades e a moça da banca de verduras me presenteia as folhas de beterraba que os demais fregueses, por ignorância ou preconceito, pedem para que sejam descartadas — mesmo nos dias em que não levo a alface romana. No fim das contas, a feira livre tem sido um programa de que gosto, em que pese a inflação dos alimentos no meu bolso.

Uma pena que só descobri na meia-idade essa pequena e prazerosa obrigação de pai que se alegra em alimentar o ninho. Quando era criança, detestava ir à feira e o único motivo que me fizesse acompanhar minha mãe à feira era o suborno em dose dupla: pastel de carne com caldo de cana.

Se no texto anterior recorri brevemente às minhas lembranças de criança ao lamentar pelo estado atual do Mercado Municipal de São Paulo, tenho de ser justo e mencionar que talvez a razão pela qual eu não gostasse de ir à feira é que a feira, naqueles meus 3, 4 anos de idade, era na verdade o Mercado Municipal Kinjo Yamato, que nem barraca de pastel tinha.

Kinjo Yamato  - Miguel Icassati/UOL - Miguel Icassati/UOL
Imagem: Miguel Icassati/UOL

Espécie de primo pobre do Mercadão, o Kinjo Yamato completa 100 anos em 2022. Conhecido antigamente como "Mercado Caipira", esse entreposto funcionou inicialmente a céu aberto e vingou graças à perseverança dos produtores de frutas, verduras e legumes do Cinturão Verde paulista, a maioria de origem oriental, que comercializavam ali na região do Parque Dom Pedro as sobras de suas colheitas.

Um século atrás, passou a ocupar o prédio onde está até hoje e a cada dia se apresenta como uma antítese do vizinho Mercadão: seu charme está na simplicidade das suas 101 bancas e boxes; sua beleza, no conjunto arquitetônico que beneficia a entrada de luz natural.

E há ainda duas vantagens incomparáveis: 1. ali conseguimos circular entre as bancas sem o assédio folgado que virou default do outro lado da rua, ainda que haja concessionários que mantenham comércio também no Mercadão, como a Banca do Ramon e os Irmãos Gomes; 2. há poucas mas interessantes opções para uma refeição rápida.

Kinjo Yamato  - Miguel Icassati/UOL - Miguel Icassati/UOL
Imagem: Miguel Icassati/UOL
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Imagem: Miguel Icassati/UOL

A começar pelo Yanai, restaurante japonês que cobra R$ 45 por um combinado de sushi e sashimi com 15 peças. Próximo a uma das saídas para a Rua Barão de Duprat, a lanchonete Barão do Prato (que não poderia ter um nome melhor), costuma ter as mesas cheias na hora do almoço, graças a receitas triviais, como a feijoada e os PFs.

Numa esquininha do mercado está a Cafeteria Central e, em maior quantidade, os boxes de cozinha árabe e libanesa, como o Al-Nafora, no qual o chef Sami cozinha segundo os preceitos religiosos muçulmanos (Halal), o Susaj, o Manouchi — no qual vê-se a todo momento a reposição de esfihas (R$ 2) — e o Sabor da Pérsia, que também segue os preceitos Halal, e onde pode-se comer shawarma (R$ 16), assim como uma versão tropicalizada do kebab de carne ou de frango, ambos assados na brasa e montados no prato com arroz, feijão e salada (R$ 22).

Kinjo Yamato  - Miguel Icassati/UOL - Miguel Icassati/UOL
Imagem: Miguel Icassati/UOL

Optei pela versão tradicional do kebab, ou seja, servida como um sanduíche enrolado no papel alumínio (também R$ 16) e, confesso, me arrependi de seguir o exemplo do casal na mesinha ao lado, que fez um upgrade para essa boa mistura do Brasil com o Egito.

E, ao passar na Peixaria Cibeli para comprar o robalinho que será preparado no jantar, pude comprovar a minha tese segundo a qual feira é networking: em vez de cobrar os R$ 38 pelo peixe indicados na balança, o vendedor saiu-se com esta: "hoje eu deixo por 35 pra você virar freguês".

Kinjo Yamato  - Miguel Icassati/UOL - Miguel Icassati/UOL
Imagem: Miguel Icassati/UOL

Vai lá:
Mercado Municipal Kinjo Yamato. Rua da Cantareira, 377, centro, São Paulo.