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Delisiée disse não para diretor na Globo e foi perseguida por quatro anos

Delisiée Marinho durante cobertura das Olimpíadas de 2004, em Atenas - Arquivo Pessoal
Delisiée Marinho durante cobertura das Olimpíadas de 2004, em Atenas Imagem: Arquivo Pessoal

Marcelo Tieppo

Colaboração para o UOL, de São Paulo

19/09/2019 04h00

Delisiée Marinho ainda era creditada nas reportagens e apresentações como Delisiée Teixeira quando deixou a Globo em 2008, depois de ter se tornado a repórter mais nova a cobrir uma Olimpíada pela emissora em Atenas, quatro anos antes. Diretora e roteirista de eventos, além de ser atriz nas poucas horas vagas, a curitibana de 43 anos explicava o motivo de sua saída, quando resolveu desabafar. Em meio a propostas de trabalho como atriz, escolheu viver novas experiências. "E também por outros motivos pessoais."

Perguntada sobre quais seriam esses motivos pessoais, Delisiée ficou em silêncio. A resposta veio depois de um tempo, com a jornalista visivelmente emocionada. "Não foi por um bom motivo. Ai meu Deus do céu... Será que eu vou falar isso?!". E completou: "Eu saí da Globo porque houve um pedido do Schroeder para saber se eu queria ficar ou sair. Mas eu saí por causa de outro diretor. Ele estava me perseguindo há quatro anos. Eu liguei um dia chorando pro Emanuel Castro dizendo que não conseguia mais pisar na Globo, e ele acabou me dispensando naquele mesmo dia." Carlos Shroeder era o diretor de jornalismo na época e Emanuel Castro, o diretor do SporTV. O nome do terceiro diretor, Delisiée não quis revelar à reportagem. Mas esta é a história que ela conta sobre o que aconteceu ao longo de sua trajetória na TV.

Onze anos após deixar de ser global e ter aberto novos caminhos profissionais, Delisiée resolveu falar publicamente pela primeira vez sobre os assédios que sofreu e o impacto que tiveram, silenciosamente, à sua saúde. Ela espera que o relato ajude mulheres que passam por situações similares a encontrar voz e força para denunciar abusos. Nesta entrevista para o UOL Esporte, ela também revelou detalhes sobre o início de sucesso na TV, dos bastidores que envolviam a disputa por espaço na maior emissora do país, falou da carreira de atriz e dos planos para o futuro.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

"Pra quem você deu para estar aqui?"

Antes de sofrer assédio de um diretor global durante a Olimpíada de Atenas, Delisiée Marinho passou por situação desagradável ao encontrar três colegas da emissora no banheiro. "Entrei no banheiro e tinham umas meninas que trabalhavam na Globo que ficaram quietas [quando entrei]. Eu já estava sentindo aquele clima estranho na redação, porque elas não falavam comigo. Aí perguntei se tinha feito alguma coisa para que me evitassem e não falassem comigo. Uma das produtoras respondeu de forma direta e bem chula: 'Já que você está perguntando, então vou falar. Pra quem você deu para estar aqui? Você roubou o lugar do Tadeu Schmidt'.

Apesar do clima pesado, Delisiée continuou a trabalhar. "Aquilo foi um baque para mim. Eu dei uma balançada na minha estrutura emocional, porque não tinha amigos para me defender, mas segui até o fim. Tanto é que fui a repórter mulher em Atenas que mais emplacou matérias no Jornal Nacional. A gente tinha um ranking, e eu fiquei em primeiro lugar", lembra.

Delisiée rebateu na hora o ataque da colega, e depois contou para o outro jornalista que teve seu nome envolvido na reclamação. "Eu acabei contando para o Tadeu, e ele ficou super chateado. Nós somos amigos. Foi a grande oportunidade dele, porque assumiu o Fantástico naquela época e está lá até hoje. Era o destino dele. Estava no lugar certo, na hora certa."

Interesse não correspondido

O assédio por parte de um diretor da Globo, ela conta, começou no jantar de encerramento da emissora em Atenas e incluiu uma série de promessas. "Veio com aquela história: 'o que você quer, para onde você quer ir, que programa que você quer apresentar? Porque eu posso te dar tudo'. Um papo bem pesado, e eu fingindo que não estava entendendo. Resolvi ir embora da festa", diz.

Ele era uma pessoa muito poderosa na Globo, e todo mundo tinha medo de mexer com ele

Pouco depois, ela viu uma série de mudanças em curso em seu dia a dia como repórter. "Quando voltei para Curitiba, fiquei sabendo que não iria mais fazer Jornal Nacional e nem programas de rede. Liguei para saber o que tinha acontecido e o editor do JN disse que era uma ordem que eles tinham recebido. O Emanuel me contou que tentou interceder nas reuniões do esporte, e o diretor sempre respondia que não queria ouvir falar no meu nome. Cheguei a ir ao Rio de Janeiro para conversar, entrei na sala dele e nem olhou na minha cara. Perguntou o que eu queria, e mandou eu fazer o meu trabalho."

Emanuel Castro, que tinha aberto as portas para a repórter na Globo, já estava comandando o SporTV e a convidou para trabalhar no canal fechado. "Vim pra São Paulo, mas não adiantou muito, não. Era para eu fazer muito automobilismo, mas não viajei nenhuma vez. O tal diretor me cortava de tudo. Fiquei quatro anos assim", lamenta.

A Globo, no entanto, não ficou sabendo do drama vivido por Delisiée lá dentro. Ela se arrepende de não ter levado o caso a nenhuma instância na TV, e acredita que, se fosse hoje, agiria de outra maneira. "Eu era muito novinha. Tinha 27 anos, era repórter em Curitiba. Não levei isso para o RH, não levei isso para o Schroeder. Não levei isso para ninguém. Hoje em dia, jamais deixaria uma pessoa fazer isso comigo."

A situação de estresse levou a jornalista a ter problemas de saúde.

Tive síndrome do pânico, depressão profunda. Tive doença autoimune, com que convivo até hoje. Fiquei intolerante a glúten e não posso comer nada que tenha leite. Também tive problema na tireóide.

A saída da emissora acabou sendo a única opção. "Eu ia dormir chorando, acordava chorando. Pensei e falei 'o que adianta eu ficar aqui?. Se continuar na Globo, não vou ter nenhuma outra oportunidade. O diretor nunca vai me deixar em paz'. Foi um sonho interrompido."

Para Delisiée, revelar o assédio sofrido 15 anos atrás é uma maneira de se libertar, seguindo o exemplo de outras mulheres que criaram coragem para denunciar abusos. "Acho muito saudável que as pessoas estejam falando sobre isso. Até por esse motivo eu estou abrindo isso pela primeira vez, publicamente, claro, porque muitas pessoas próximas já sabiam e muitas já me viram chorando por causa disso."

Uma dessas pessoas foi o ex-namorado, o ator Juan Alba. Quando o então diretor deixou a Globo, ele ligou para Delisiée para dar a notícia. "Logo que eu vim pra São Paulo eu comecei a namorar o Juan. Ele participou de vários momentos tristes meus. Quando o diretor saiu da Globo, o Juan foi o primeiro a me ligar. Não que eu desejasse mal a ele, mas as pessoas mais cedo ou mais tarde pagam pelo que fazem."

O UOL Esporte procurou a Globo para comentar o caso, porém a emissora não se manifestou até a publicação desta reportagem.

Getty Images
Imagem: Getty Images

O caso Lothar Matthaus

Em 2006, o Atlhetico Paranaense contratou o técnico Lothar Matthaus, campeão do mundo como jogador, em 90, pela Alemanha. Para ajudar na adaptação do treinador, Delisiée entrou na história por acaso, quando um ex-namorado pediu que ela ajudasse um amigo que era assessor do treinador. "O Lothar queria conhecer os melhores lugares para frequentar em Curitiba, e esse meu ex-namorado pediu para ajudá-los. Como sou sócia do Country Club, disse que podia indicá-lo, porque meu pai faz parte da diretoria do clube e você só consegue entrar através de indicação."

Delisiée levou os dois ao clube e, quando estava passeando, um professor de tênis pediu para fazer uma foto. "Eu era uma pessoa que tava na TV, e o Lottar era uma pessoa famosa. Eu não sei se ele vendeu a foto, só sei que ela foi parar nas mãos de um fotógrafo e acabou na 'Placar'. Só que quando saiu na revista não saiu Lothar Matthaus e a repórter Delisiée Teixeira, poderia ter saído assim sem problema nenhum. O problema é que na legenda saiu o nome da mulher do Lothar. Eu fui legendada com o nome da mulher dele."

A então repórter pensou em processar a "Placar", mas acabou ficando satisfeita com a retificação que a revista se prontificou a fazer. "Não achei que aquilo fosse se transformar em algo grande. Só que o torcedor é fanático. O Lothar teve problemas e resolveu ir embora, e creditaram isso como eu se tivesse tido um caso com ele e a mulher tivesse reclamado. Se fosse hoje em dia, talvez eu tivesse processado. A retificação deles não retificou todo o mal que me causou depois", diz Delisiée.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

O teatro como libertação

Durante os dois anos em que permaneceu na Globo de São Paulo, Delisiée fez um curso de teatro, que acabou funcionando como válvula de escape e virou profissão, após deixar a emissora. "Aí mergulhei cem por cento no teatro e nos eventos. Meu namorado na época era um grande diretor de teatro e de eventos. Comecei a trabalhar com ele e estou até hoje em entretenimento, arte e eventos."

A estreia nos palcos não poderia ter sido melhor. Ela foi convidada para participar do elenco de "Ligações Perigosas", que tinha Maria Fernanda Cândido como atriz principal. "Era um elenco incrível, maravilhoso. Foi um presente do universo, depois de tudo o que eu tinha sofrido. Foram seis meses incríveis, entrei no lugar da Cris Couto na época, que tinha feito os seis primeiros meses da peça. Substituir uma atriz super premiada foi uma honra também", lembra Delisiée.

Com o tempo, no entanto, a produção de eventos corporativos virou a nova profissão de Delisiée, que esteve em cartaz até abril com a comédia "Laboratório Sexual". "Quando aparece alguma coisa eu faço. Fiz seis peças no total e algumas participações pequenas em novelas, séries e filmes. Mas nunca me dediquei totalmente às atuações, porque comecei a fazer eventos."

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

O início na Globo

Delisiée foi convidada a entrar na então TV Paranaense, afiliada da Globo que hoje se chama RPC, porque tinha sido considerada a melhor aluna da faculdade. Deixou a emissora para fazer um curso de pós-graduação em Los Angeles com a promessa de que teria emprego garantido na volta, dois anos e meio depois. Foi aí que já como repórter ela chamou a atenção dos executivos da Globo. "Ginástica foi a primeira grande porta para mim, mas não foi a primeira. Durante uma transmissão da Stock Car, em Curitiba, para o Esporte Espetacular, o Emanuel Castro, que era diretor de eventos na época, estava lá. Ele disse que tinha adorado o meu trabalho e me deixou um cartão."

Como Delisiée cobria ginástica artística, e as meninas começaram a se destacar na modalidade, ela passou a acompanhar todas as etapas mundiais, além dos Jogos Pan-Americanos de 2003, em Santo Domingo. "Fiquei junto com elas o tempo todo no Pan-Americano. Em seguida a gente foi para Anaheim, na Califórnia, cobrir o Mundial de Ginástica. Foi lá que a Daiane ganhou a primeira medalha de ouro no solo, e me deu a minha primeira grande oportunidade."

Foi após se destacar nessa cobertura que Delisiée ficou sabendo que sua vaga para a Olimpíada de Atenas, um ano depois, já estava garantida. "Eles pediram para que eu não contasse para ninguém até para evitar ciumeira antes da hora. Mas fiquei sabendo um ano antes que iria pra Grécia. Até lá, continuei em Curitiba."

Se a Olimpíada acabou sendo um marco negativo por um lado, por outro foi lá que Delisiée viveu o seu melhor momento como jornalista. "Em Atenas, dividi apartamento com a Glória Maria e a Graziela Azevedo. Elas foram incríveis, receptivas. Foi a melhor experiência profissional e, ao mesmo tempo, a pior emocionalmente falando."

Sem planos para o futuro

Delisiée voltou ao jornalismo esportivo durante a Copa de 2014, quando foi apresentadora na Fox. Apesar de não descartar trabalhar novamente na profissão, ela prefere não fazer planos. "Todas as vezes que eu parei para fazer planos, a minha vida mudou radicalmente. Depois da Copa do Mundo, disseram que eu seria contratada, mas acabou não rolando. Quando crio expectativa para alguma coisa, a vida me apresenta outra alternativa. Então, eu não faço mais planos. Já mudei tantas vezes."

Em paz com o passado, Delisiée diz já ter perdoado o diretor que a assediou e que a perseguiu durante quatro anos. "Durante muito tempo, quando tocava nesse assunto, era muito difícil para mim. Era difícil, uma história de vida, né? Entrei na Globo com 20 anos. Claro que foi uma coisa que me machucou. É uma coisa que já passou. Eu gosto de perdoar as pessoas, não gosto de guardar rancor", finaliza.

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