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Melhor brasileira da história, Rebeca tem chance de ser a melhor do mundo

Rebeca Andrade durante apresentação nas Olimpíadas - Lindsey Wasson/Reuters
Rebeca Andrade durante apresentação nas Olimpíadas
Imagem: Lindsey Wasson/Reuters

Demétrio Vecchioli

Do UOL, em Tóquio

28/07/2021 15h01

"Se você fizer um checklist de tudo que uma ginasta tem que ter para ser a melhor do mundo, a Rebeca vai dar check em 99%, se não for 100%", diz Georgette Vidor, técnica histórica da ginástica brasileira sobre a atleta que nesta quinta (29) pode se consagrar como a mais completa do mundo na Olimpíada de Tóquio. A prova começa às 7h50 pelo horário brasileiro.

A dona desse trono, Simone Biles, está fora da final do individual geral para cuidar, segundo os americanos, de sua saúde mental, depois de abandonar a final por equipes. Sem a favoritíssima, a medalha de ouro está em jogo e a favorita é Rebeca, que foi a segunda melhor na fase de classificação, atrás somente da norte-americana.

Para Georgette, será decisivo para definição de ouro, prata e bronze a preparação mental, um dos itens do checklist de melhor do mundo, no qual Rebeca vive a melhor fase da carreira. Para várias pessoas que atuam próximo da ginasta, o nível de concentração dela é impressionante, dentro do mantra de "um dia depois do outro". É como se nada tirasse ela do foco.

"Vai ser quem tem mais sangue frio, porque qualidade técnica todas têm o suficiente. Quem tiver mais sangue frio, poder de concentração, vai poder conseguir esse resultado", diz a treinadora, citando a norte-americana Sunisa Lee e as russas Melnikova e Urazova.

A final tem 24 participantes, mas só outras cinco, incluindo essas três, se apresentam na mesma rotação que Rebeca. Elas começam pelo salto (Rebeca é a segunda), depois vão para as paralelas (a brasileira é a primeira), a trave (a última) e enfim o solo (a penúltima). É desse grupo, que também tem a belga Derwael e a americana Carey, que deverão sair as três medalhas.

Mais técnica que Biles

Rebeca é uma intrusa nesse grupo, nascida em um país que não tem tradição de brigar nessa prova. Na história, o Brasil só tem um pódio importante no individual geral, no Mundial de 2007, com a então estreante Jade Barbosa, que foi bronze. Georgette, que levou ambas à seleção, diz que não há comparação entre elas. Rebeca é muito mais completa do que Jade um dia foi. "Mas é disparado, nem se compara", afirma a coordenadora de ginástica do Flamengo, clube de ambas.

Georgette também rechaça qualquer comparação com Daiane dos Santos, ginasta mais vencedora da nossa história. "A Daiane era boa de solo, não era uma ginasta completa. A Rebeca é boa nos quatro aparelhos, incluindo o salto. Ela faz dois saltos de altíssimo nível. Em nível de postura é outra ginasta. A Rebeca é muito mais técnica", avalia.

No entender da treinadora, Rebeca é inclusive mais técnica do que Simone Biles, a melhor de todas. A fala pode ser contraditória, mas se justifica: "A Biles tem uma explosão que nenhuma outra ginasta tem". A americana pode até não conseguir cravar um salto no solo, ou apresentar falhas de execução, mas o salto é tão alto e permite a ela fazer tantos elementos que outras não fazem, que a nota acaba sendo maior.

Já Rebeca, depois de passar por quatro cirurgias, sendo três de ligamento cruzado anterior do joelho, das mais complexas do esporte, enfim chega uma competição em condições de apresentar seu melhor. E o sarrafo dela é altíssimo.

"Ela tem uma força de explosão absurda, flexibilidade, não tem problema de angulação, quadril desencaixado, nada que não permita a ela fazer algo com alta perfeição. Ela é boa em todos os aparelhos e, como as outras que brigam com ela, tem todas as qualidades necessárias: altura, peso, controle corporal, de coordenação, junta uma rotação transversal com longitudinal, coragem...", explica Georgette.

Se repetir o que fez na classificação, quando tirou nota 57,399, Rebeca tem tudo para ficar com o ouro, avalia Georgette. A dificuldade será, para ela e para as rivais, fazer uma apresentação perfeita, sem falhas ou quedas, absolutamente normais na ginástica, ainda mais em situações assim de pressão.

De qualquer forma, há margem para melhora. Rebeca não saiu satisfeita de sua apresentação nas barras assimétricas porque não conseguiu fazer a ligação entre dois elementos. Se acertar na final, ganha 0,2 ou 0,3 pontos a mais. Além disso, no entender de Georgette, é possível ganhar mais 0,2 pontos no solo. Isso se, claro, tudo der certo e a brasileira repetir as apresentações no teto de sua capacidade técnica na trave e no salto.

Para Georgette, o que acontecer hoje na final do individual geral pode também impactar nas decisões por aparelhos, na semana que vem. Se Rebeca for ao pódio hoje, ela tem tudo para repetir o feito no solo e, principalmente, no salto. Se não, pode sentir psicologicamente e terminar sem medalha também nos aparelhos.