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Equatoriano pedala por seis horas em busca de glória no sagrado Monte Fuji

Richard Carapaz, do Equador, disputa a prova de ciclismo de estrada nas Olimpíadas de Tóquio - Tim de Waele/Getty Images
Richard Carapaz, do Equador, disputa a prova de ciclismo de estrada nas Olimpíadas de Tóquio Imagem: Tim de Waele/Getty Images

Adriano Wilkson

Do UOL Esporte, em Oyama (Japão)

24/07/2021 12h00

As bicicletas balançavam entre as pernas dos ciclistas como as agulhas de uma bússola e pendiam em sentido contrário à tração que eles aplicavam sobre as rodas. Todos pareciam esgotados. Já tinham pedalado 199 quilômetros, mais de quatro horas de subidas e descidas pelos vales do interior japonês. Mas o pior ainda estava por vir.

Richard Carapaz ergueu a cabeça e viu seus adversários travarem uma luta solitária contra a gravidade, o sol inclemente e a umidade que os abraçava. A passagem Mikuni, os 6,75 quilômetros que tinham habitado o pensamento daqueles 130 homens nos últimos anos, estava agora sob seus pés. Era a subida mais íngreme da prova, 10,5 % de inclinação, depois da qual eles teriam ficado 710 metros mais altos em relação ao nível do mar. Era preciso resistir a Mikuni e ainda preservar energia para os últimos 30 quilômetros de prova.

Carapaz viu seus oponentes acelerarem na metade final da passagem. O esloveno Tadej Pogacar, campeão do tour de França, assumiu a liderança, e puxou com ele o belga Wout van Aert, apontado pela imprensa como o favorito para o ouro olímpico. Carapaz foi atrás, se esforçando para não permitir aos outros desgarrar.

Quando o pelotão chegou ao pico da passagem Mikuni, era o canadense Michael Woods, de certa forma um azarão, quem estava na ponta. No horizonte, camuflado entre um emaranhado de nuvens além da parede de árvores, era possível avistar o contorno do Monte Fuji.

Fuji - Toru Hanai/Getty Images - Toru Hanai/Getty Images
Monte Fuji, ponto mais alto do Japão, fotografado durante a prova de ciclismo da Tóquio-2020
Imagem: Toru Hanai/Getty Images

Para os japoneses, o Monte Fuji não é apenas um enorme bloco de pedra e neve a vigiá-los do alto de seus 3.776 metros. Nem é apenas um ponto turístico para onde afluem todo ano 200 mil aventureiros que o escalam em busca de selfies e de histórias para compartilhar na mesa do bar ou em livros de autoajuda. Para os japoneses, principalmente para aqueles que nasceram e cresceram na tradição milenar do xintoísmo, o Monte Fuji é uma divindade, um espírito capaz de proporcionar tanto prosperidade quanto destruição. E é também por isso que eles chamam a montanha de Fuji-san, com o sufixo usado para se referir não a coisas, mas a pessoas.

É claro que Richard Carapaz não pensava em nada disso quando subia e descia as encostas do Monte Fuji durante a prova do ciclismo de estrada das Olimpíadas de Tóquio ontem. Talvez ele estivesse preocupado com o desempenho do seu companheiro, o também equatoriano Jhonatan Narvaez, porque o ciclismo de estrada é um esporte coletivo, no qual cada ciclista tem uma estratégia a seguir junto com os colegas de equipe.

Estrada - Sebastian Gollnow/picture alliance via Getty Images - Sebastian Gollnow/picture alliance via Getty Images
Ciclistas disputam a prova de estrada nas Olimpíadas de Tóquio
Imagem: Sebastian Gollnow/picture alliance via Getty Images

Ou talvez ele pensasse na sua imagem transmitida nas telas de todas as casas e iluminando a madrugada no Equador, país de onde ele se mudou há anos em busca de melhores condições de treino e de vida -mas aonde ele nunca deixou de voltar, nem de representar. Talvez ele pensasse em sua primeira bicicleta, uma bicicleta sem pneus que seu pai agricultor lhe deu de presente quando ele tinha 12 anos e que, mesmo não tendo pneus e nem freios, lhe permitiu se apaixonar por esse esporte.

Talvez ele pensasse nas vacas que precisou ordenhar quando sua mãe ficou doente e não conseguiu fazer o serviço. Ele gostava de trabalhar com as vacas, mas preferia ter mais tempo para pedalar por aí. Talvez ele estivesse pensando em como os títulos que ele já tinha conseguido aos 28 anos ajudaram a popularizar o ciclismo no Equador, que nunca tinha tido tanta tradição nesse esporte antes de ele ganhar aquela bicicleta sem pneus do pai.

Mas o mais provável é que, quando deixou o Monte Fuji para trás na descida após a passagem Mikuni, Richard Carapaz não estivesse pensando em nada disso, porque foi nessa hora que ele sentiu o vento que descia da montanha cortar seu corpo primeiro que todos os outros, foi nessa hora que ele sentiu suas pernas se revigorarem e sentiu que era possível, sim, ganhar a medalha de ouro.

Era sua primeira Olimpíada, e esse pensamento deve ter causado um assombro interior. Na entrevista coletiva algumas horas depois, ele diria aos jornalistas que essa última parte da corrida tinha sido a mais desafiadora porque, enquanto seus adversários tinham uma equipe grande para ajudar-lhes, sua estratégia de corrida estava limitada ao seu desempenho e ao de Narvaez.

Quando os ciclistas apontaram para a primeira volta no circuito internacional de Fuji, a derradeira etapa da prova, eles foram recepcionados por aplausos contidos de milhares de japoneses, que os esperavam nas arquibancadas havia mais de cinco horas. Embora os ciclistas locais não estivessem disputando a ponta, os torcedores pareciam animados com a resistência apresentada na jornada desde Tóquio.

A presença de torcedores só foi possível porque o governo de Shizuoka, onde está a cidade de Oyama, argumentou que a taxa de contaminação por covid estava baixa e autorizou que o evento acontecesse com público, diferentemente da capital, que permanece com as arenas vazias.

Público - Sebastian Gollnow/picture alliance via Getty Images - Sebastian Gollnow/picture alliance via Getty Images
Arquibancadas do autódromo de Fuji receberam público para a prova de ciclismo de estrada
Imagem: Sebastian Gollnow/picture alliance via Getty Images

Ao ver o público do autódromo pela primeira vez, Carapaz já não estava na liderança, mas sabia que retornar a ela era apenas uma questão de tempo. Nos dois quilômetros finais, o equatoriano conseguiu se desgarrar e chegou a abrir uma impressionante vantagem de 40 segundos sobre o segundo colocado.

Na última volta do circuito, ninguém imaginava que o resultado da corrida fosse diferente do que foi. Não houve nenhuma surpresa quando ele cruzou a linha de chegada sozinho, sem ninguém para abraçá-lo nem pra carregá-lo nos ombros, sem seus pais, sua mulher e seus filhos, sem sua bicicleta quebrada que ele ainda guarda como um troféu em casa. Mas também sem nenhum esloveno ou belga ou canadense para ameaçar sua vitória, sem ninguém a sua frente nem às suas costas na reta final das Olimpíadas, a solidão que ele buscou durante sua vida inteira.

E agora ele tinha conseguido, tinha se tornado apenas o segundo equatoriano a ganhar uma medalha olímpica. Ele soltou as mãos da bicicleta, bateu no peito e socou o ar duas vezes. E tudo isso aconteceu ao pé do sagrado Monte Fuji, escondido entre as nuvens. "Foi um dia muito louco", disse Richard Carapaz com um sorriso e um brilho dourado no peito.

Richard - Tim de Waele/Getty Images - Tim de Waele/Getty Images
Richard Carapaz, do Equador, ganha medalha de ouro no ciclismo da Tóquio-2020
Imagem: Tim de Waele/Getty Images