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Advogado de vítima de incêndio no CT do Flamengo aponta 'descaso e mentira'

Incêndio no Ninho do Urubu: alojamento onde atletas da base estavam ficou destruído pelo fogo - Folhapress
Incêndio no Ninho do Urubu: alojamento onde atletas da base estavam ficou destruído pelo fogo Imagem: Folhapress

08/02/2020 05h10

Hoje, dia 8 de fevereiro, marcará um ano do incêndio no alojamento no Ninho do Urubu, que vitimou dez adolescentes das divisões de base do futebol do Flamengo. Um dos mortos no CT, o goleiro Christian Esmério, já tinha, inclusive, sido convocado pela Seleção Brasileira Sub-15. O seu advogado, Arley Carvalho, falou ao "Lance!" e disparou contra a direção do clube.

"A maior reivindicação, não só da família que represento como todas as demais, é que o clube tivesse tido um cuidado maior para com as famílias, e não da forma que foi feito até aqui, um descaso na verdade. Onde se fala que há contato é mentira, assim como é mentira quando dizem que há apoio psicológico ou social", afirmou.

Arley também faz a defesa da família de Jean Sales, jovem atleta responsável por salvar três pessoas, em meio ao fogo, e se tornou um herói. Ele, aliás, já fez atividades com os profissionais.

O advogado foi contundente ao comentar a respeito do que, em sua visão, o Flamengo mais erra neste entrevero. Questionado se há algum ponto positivo no tratamento do clube, respondeu negativamente.

"A falha maior é o fato de ninguém no clube amparar os familiares, pois não há qualquer tipo de contato do clube para com eles. Se passaram o Dia das Mães, dos Pais, não houve o mínimo de contato, e isso que causou a maior revolta. Sobre um possível acerto do Flamengo: neste caso, não vejo nenhum lado positivo, pois vejo o clube, dentro de campo, alcançar resultados expressivos, junto à pior página do clube, e os seus dirigentes simplesmente não têm um cuidado de, primeiro, confortar esses familiares. Em segundo, resolver as questões da melhor forma possível. Não posso considerar que haja algum ponto positivo", disse, antes de responder se há o suporte psicológico prometido às famílias.

"Não, nenhum, maior absurdo os dirigentes falarem isso, descaso total", declarou.

A Polícia Civil ainda não finalizou o inquérito, tampouco o Ministério Público apresentou as denúncias, e, por parte do clube, ainda não foram fechados todos acordos por indenizações com as famílias da dez vítimas.

Confira a entrevista completa com Arley Carvalho:

Como você recebeu as palavras do Jurídico do Flamengo, que não poderia procurar os familiares em prol de suporte pois teria que falar com os advogados antes?

Essa é uma questão tão ridícula que não mereceria nem responder, pois é óbvio que o clube, através dos seus dirigentes, quer apenas jogar para a torcida e para mídia que a culpa é dos advogados de estarem blindando os familiares. Isso nunca existiu e jamais vai existir. Primeiro por não termos como fazer e/ou impedir que o clube ligue e fale com qualquer familiar, ainda mais pelo simples fato de clube jamais ter entrado em contato com qualquer familiar para, ao menos, dar uma palavra de consolo que fosse. Repita-se: jamais!

Até mesmo porque o que pretendemos é o desfecho do caso. Se fosse da forma que eles colocaram, já teríamos, inclusive, distribuído o processo, e como é sabido, não é o caso.

Qual é a sua opinião sobre o pronunciamento do Flamengo via Fla TV? E o que pensa sobre a citação de "jurisprudência" neste caso?

O pronunciamento em questão não me surpreendeu, pois em face das atitudes tomadas pelos dirigentes até a presente data, reproduz a forma como eles tentam justificar o injustificável, haja vista a forma que eles fizeram a entrevista, com um repórter do clube e com perguntas feitas por eles, sem a possibilidade de haver uma contestação ou colocação. Foi patética a reportagem e mais ainda ver a fisionomia de cada dirigente.

No que se trata de jurisprudência, é eles quererem, mais uma vez, em uma coisa que não existe, se eximirem de culpa, pois querer dizer que não há jurisprudência em um caso desse é chover no molhado, já que foi a primeira vez que um centro de treinamento pega fogo com jogadores alojados. Isso é um fato. Mas eles querem se eximir de culpa. Deve ser por medo ou despreparo mesmo, dado que o local pertence ao clube, que possui um presidente e, com isso, responde pelos seus atos. E para eles, então, não possui um culpado ou responsável?! Lamentável.

Os familiares têm o receio de, caso o processo se arraste por um tempo considerável, o valor resignado seja até menor do que o oferecido anteriormente pelo Flamengo? Você já conversou com a família do Christian sobre isto?

Sempre conversamos com os nossos clientes, porém, acreditamos na Justiça e mais ainda que a mesma dará uma solução para o caso como deva ser, e ainda mais uma resposta a toda sociedade, pois é uma oportunidade ímpar para que a nossa Justiça possa dar um exemplo a todos, com uma pena exemplar a ser aplicada, visto que trata-se de um clube de futebol que vai atrás de jogadores, menores de idade, e oferecem casa, comida, escola, segurança... ou seja, passa a ter o poder de guarda desses menores, e com isso passam a ter uma responsabilidade enorme por cada um que esteja lá.

Além do fator indenização: qual é a principal reivindicação das famílias que você representa?

A maior reivindicação, não só da família que represento como todas as demais, é que o clube tivesse tido um cuidado maior para com as famílias, e não da forma que foi feito até aqui, um descaso na verdade. Onde se fala que há contato é mentira, assim como é mentira quando dizem que há apoio psicológico ou social.

Como especialista: por que considera tão importante chegar aos responsáveis e, consequentemente, puni-los?

Como disse, houve uma negligência cometida e gravíssima, ela precisa ser identificada e punida, não podemos aceitar que um caso desse fique sem os seus responsáveis serem punidos.

Incomoda os familiares o fato de o inquérito ser pouco citado na mídia?

Incomodar não é a palavra, mas, sim, estranheza, principalmente por se tratar de uma peça fundamental para esclarecer de quem foi a culpa e a punição dos culpados.

Qual critério para chegar ao valor pedido como indenização?

No caso do Christian (Esmério), é só verificarmos a sua projeção como atleta, onde o mesmo vinha alcançando resultados satisfatórios dentro de campo com convocações para a Seleção Brasileira. Com isso, veio a valorização até mesmo dentro do clube, onde ele, na segunda posterior ao fato (incêndio), assinaria o seu primeiro contrato profissional. Assim, fazendo uma comparação com os salários que jogadores da mesma posição a dele e também goleiros revelados pelo clube, como os casos de Paulo Victor, Marcelo Lomba e Julio Cesar, que se aposentou recentemente, chegamos a um denominador.

O Jean, ao seu ver, já consegue ter uma rotina esportiva normal? Ele ainda comenta sobre o caso? E quanto ao processo dele, o que é reivindicado?

O ano de 2019 foi muito difícil para ele, como não poderia ser diferente, mas ele, dentro do possível, está muito bem, preparado para fazer um bom ano. Esquecer jamais... Ele e os demais nunca esquecerão, isso é fato, terão que conviver com isso para o resto da vida deles.

O caso dele foi feito um acordo.

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