Técnico encontra trabalho e amor na Tailândia, e agora busca fama no Brasil

O nome é Desportivo Brasil, mas poderia ser mais amplo. Afinal, o clube pertence a chineses e tem um treinador brasileiro que morou na Tailândia e fez cursos nas Filipinas. O encontro entre Mavi Lopes e o clube de Porto Feliz, a 100 quilômetros de São Paulo, se concretizou há menos de um mês visando à série A-3 do Campeonato Paulista, mas o início da história vem de longe.

Mavison Lopes, o Mavi, era, em 2010, meia do Ivinhema, no Mato Grosso do Sul. Fundado em 2006, com um peixe como mascote, o clube se localiza na cidade do mesmo nome, de 24 mil habitantes, a 290 quilômetros de Campo Grande, a capital.

Um empresário — eles estão em todos os lugares — o viu enfrentando o Corumbaense e apareceu com uma proposta. Para a Tailândia. Mavi olhou, gostou, não pensou duas vezes e foi. "Fiquei lá sete anos como jogador e mais três como treinador. Foi muito bom para mim". Detalhe: o empresário, antes de ver Mavi jogar, já havia visto comentários a seu respeito. No Orkut.

Mavi se surpreendeu com o futebol jogado na Tailândia. "O nível dos jogadores locais é fraco, a seleção e fraca, mas tem muitos estrangeiros, principalmente brasileiros. E quem não se esforça, não se cria. O ritmo é muito forte, intensidade alta, é preciso muita dedicação".

A adaptação ao novo país foi facilitada porque Mavi fala inglês. E aprendeu um pouco de thai, a língua local. O suficiente para entender que a moça bonita que havia aberto a janelinha do carro havia dito "que homem bonito", antes de soltar um sorriso e acelerar, com a certeza de que não haveria um novo encontro.

Engano. Mavi foi rápido, conseguiu uma foto da placa e continuou a caminhar até o café, sua primeira direção. A segunda, cheia de segundas intenções, foi procurar a moça. E a encontrou quatro dias depois em um restaurante. Ela pediu desculpas pela brincadeira, ele fez outra e quatro meses depois estavam assumindo uma relação que dura 12 anos. Mavi e Khan.

Depois de sete anos, Mavi passou a pensar em aposentadoria, já encaminhando uma nova carreira. Queria ser treinador e foi integrado à comissão técnica do Lampang e depois do Policetero. Fazia análise de elenco. Nas férias, um voo de 3 horas e meia o levou às Filipinas, onde fez um curso de 20 dias. Depois, um outro. "São cursos da federação asiática, reconhecidos pela Fifa. Ministrados em inglês, foram muito bons para mim".

Retorno para casa

Dez anos é muito tempo e veio a vontade de voltar. Embalada por uma grande oportunidade de trabalho. "Um amigo do Kwait conhecia o Jesualdo Ferreira, que estava indo para o Santos e me indicou. Houve um contato, vim para o Brasil, mas deu tudo errado. Teve a pandemia, que limitava os treinamentos e nem consegui falar com o Jesualdo. Um dia, o encontrei na padaria, mas nem teve conversa. E depois, ele foi demitido".

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A grande oportunidade se foi, não se concretizou, mas outras apareceram. "Fui para o Auto Esporte na Paraíba. Fiz a montagem de elenco, com vídeos e testes, comandei a pré-temporada e saí depois de três jogos, não aceitei ordem no meu trabalho. Ainda é reflexo do meu tempo na Tailândia, lá as coisas são mais disciplinadas, não há intromissão. Meu auxiliar assumiu o time e subiu para a primeira divisão".

Depois, foi auxiliar de Sérgio Baresi no Guarani, comandou Amparo e Mogi Mirim. E fez dois cursos na CBF. O primeiro, a licença B, permite trabalhar em categorias de base. Marcelo Lima, um professor, gostou de seu trabalho. "Ótimo aluno, muito organizado, valoriza liderança compartilhada e o aspecto mental. Seu plano de treinamento me impressionou", disse.

Marcelo é gerente de futebol do Desportivo Brasil e o convite ao bom aluno foi algo natural. "Além de tudo, ele tem um trabalho feito na Tailândia, uma visão asiática que combina muito com o estilo de nosso clube, que pertence aos chineses desde 2014."

O Desportivo Brasil, que pertencia à Traffic, de Jota Hawilla, agora é do Shandong Taishan. "Nosso trabalho é direcionado para ser referência na formação de jogadores e colocar os atletas formados em grandes times", diz Marcelo. Ele cita Rodrigo Muniz, ex-Flamengo, atualmente no Fullhan, Maurício no Inter, Bremer, na seleção, Kevin no Palmeiras. E Guilherme Madruga, vendido ao Botafogo de Ribeirão Preto, que viralizou nas redes ao fazer dois gols que podem concorrer tranquilamente ao Prêmio Puskas de mais belo gol do ano.

O Desportivo Brasil recebia jogadores chineses para intercâmbio. Chegou a ter 30 pessoas, mas a prática foi descontinuada com a pandemia. Aí, o clube mudou de nome por determinação da federação chinesa e, em janeiro, podem vir novos atletas para a disputa da Copa São Paulo.

Porto Feliz será uma das sedes, com o campo com 6 mil lugares e mais o Centro de Treinamento do Desportivo Brasil, com alojamento e cinco campos oficiais, além de dois menores, para treinos.

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Mavi, que está matriculado para o curso A da CBF, que permite dirigir equipes profissionais, estará atento para ver se algum jogador poderá ser agregado ao time principal.

"Eu acho que é um grande passo na vida do Mavi ele abraçar nosso projeto. Nossa folha é de R$ 150 mil por mês, aqui é tudo muito bem estruturado, pagamento sai em dia. Ele pode crescer conosco", diz Lima.

Receber em dia é algo que Mavi preza muito, desde os tempos de Tailândia. "Lá, nunca atrasou", diz. A parceria entre um pernambucano que morou dez anos na Tailândia, fez curso nas Filipinas e o clube que pertence a chineses foi firmada em Porto Feliz. As cartas estão lançadas.

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