'Vou entrar pelado?': Menino é barrado em jogo do Brasil por camisa de time

Fã de futebol e corintiano fanático, Léo completará 4 anos neste fim de semana. A ida à Neo Química Arena para presenciar Brasil 4x3 Japão ao lado das mães poderia ser um presente de aniversário antecipado, mas tornou-se uma grande frustração para ele e sua família.

O que aconteceu

A fisioterapeuta Beatriz Mancini e sua noiva, Bruna Almeida, levaram o pequeno para o amistoso feminino que ocorreu ontem em Itaquera. Assíduas em estádios, elas chegaram ao local por volta das 14h (de Brasília), mais de uma hora antes de a bola rolar.

Os trajes eram os rotineiros: uniformes do Corinthians, mesmo em jogo da seleção brasileira. Ainda em casa, Léo até recebeu a sugestão, desta vez, de ir uniformizado de Brasil "como a roupa da Lelê", goleira do time de Arthur Elias. A criança, no entanto, refutou com um bom argumento: "Eu quero ir no Timão de Timão". Pedido aceito. O escudo alvinegro, portanto, estampou tanto a camiseta quanto o shorts da criança.

A dor de cabeça começou na hora de os três entrarem no portão D, localizado no setor Oeste do estádio. Após uma passagem "normal" pela revista, eles (e outros) acabaram barrados pela segurança. O motivo? Proibido entrar no jogo do Brasil com camisa de time.

Quando chegamos na catraca, veio um segurança e disse que não era para autorizar nosso QR Code porque estávamos com camisa de time e que não poderia entrar. Era um segurança de camiseta preta e crachá. Entre a revista e a catraca, havia esse moço e três policiais ao lado. Ele deu a notícia para que outros funcionários não deixassem a gente passar e falou com os policiais, mas os policiais fizeram cara de paisagem. Aí, ele passou um rádio para alguém e a gente ouviu esse alguém falando que não pode entrar com camisa de time. Eu falei: 'gente, mas eu estou no estádio do Corinthians vestida de Corinthians'. Já fui em outros jogos do Brasil e nunca houve qualquer problema Beatriz Mancini, ao UOL

Neo Química Arena recebeu Brasil x Japão, jogo que contou com problemas na entrada de torcedores
Neo Química Arena recebeu Brasil x Japão, jogo que contou com problemas na entrada de torcedores Imagem: Ricardo Moreira/Getty Images

O nervosismo tomou conta de Beatriz, já que, apesar de ter uma camisa do Brasil na mochila que seria autografada por jogadoras pós-amistoso, não havia dinheiro tampouco tempo hábil para retornar para casa e trocar o uniforme da criança. Qualquer auxílio dos funcionários, segundo ela, simplesmente não existiu.

Foi aí que Léo, que só queria ver Lelê e companhia no estádio de seu time, questionou as mães sem entender ao certo o que estava acontecendo: "Eu vou entrar pelado?", perguntou ele.

Não podia camisa de time mesmo sendo criança, então tive que fazer ele entrar de cueca para depois ver como faria. Eu estava brava, tirei a camiseta, fiquei de sutiã e coloquei a do Brasil. Ela [Bruna] colocou outra camiseta por cima da do Corinthians e eles autorizaram. Tirei a roupa dele e ele falou: 'Eu vou entrar pelado?' Beatriz Mancini

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Já frustradas e dentro do estádio, Beatriz e Bruna encontraram o comentarista Ricardinho, da Globo, saindo de um dos banheiros do estádio. Ela tirou foto com o ídolo e revelou o problema ao ex-jogador, que expôs o caso ao vivo na transmissão da emissora.

Enquanto isso, Léo transformou o episódio em parte do amistoso — e até tentou, de maneira envergonhada, se esconder dos outros torcedores sem seu uniforme.

Ele falava: 'Eu não quero entrar no campo'. Eu não estava entendendo, porque toda vez ele fala que quer jogar. Depois entendi: na cabeça dele, o 'campo' não é o campo de jogo, é o estádio em si. Ele entrou todo envergonhado e chegou a colocar, de cuequinha, a mão na frente para tampar as partes. No decorrer da partida, coloquei a roupa do Corinthians nele e pensei: 'se acontecer alguma coisa, quero ver me tirarem daqui' Beatriz Mancini

O problema foi "resolvido" já com a bola rolando. Ainda no 1° tempo, a reportagem presenciou torcedores com diferentes camisas, inclusive de equipes internacionais, entrando no estádio sem qualquer tipo de bloqueio.

De quem é a responsabilidade?

O UOL coletou as versões de Polícia Militar, Corinthians e CBF em relação ao ocorrido na Neo Química Arena.

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Os posicionamentos, no entanto, contrastam. Policiais militares que estavam no portão onde a criança foi barrada afirmaram que a ordem partiu do Corinthians. O clube, por sua vez, disse que "o jogo é promovido e de responsabilidade da CBF". A entidade também foi procurada e cravou que a decisão "não partiu da confederação" — e que, inclusive, o órgão "defende a manifestação do torcedor com o uso da camisa de seu time".

Não estava em nenhum lugar um comunicado do tipo. É muito fácil transferir responsabilidades. Alguém tem que se responsabilizar por isso, é transferência de culpa. Eles precisam assumir e pensar bem nisso, são crianças, são famílias. É péssimo isso acontecer — ainda mais na modalidade feminina, onde a gente luta tanto por visibilidade. Comprei o ingresso para domingo, no Morumbi [próximo jogo da seleção], e você já pensa: 'será que eu vou?'. O recado é: alguém tem que se responsabilizar por isso. Se fosse só comigo, me magoaria, mas quando envolve criança, é um absurdo Beatriz Mancini

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