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"Minha vida foi roubada", diz mulher agredida por diretor da Gaviões

Mayara Duarte foi agredida pelo ex-marido, diretor de bateria da Gaviões da Fiel - Arquivo Pessoal
Mayara Duarte foi agredida pelo ex-marido, diretor de bateria da Gaviões da Fiel Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo

16/09/2021 04h00

A microempreendedora Mayara Duarte, 36, terminou em 2017 um relacionamento que considerava abusivo com Claudimir Antônio Teixeira, diretor de bateria da escola de samba Gaviões da Fiel, ligada à principal torcida organizada do Corinthians. Ela diz ter sido, por 13 anos, vítima de abusos psicológicos. O que parecia ser o fim de uma angústia se tornou o começo de uma vida com medo.

Após a separação, Mayara relata ameaças e agressões físicas que foram denunciadas à polícia. O UOL teve acesso a três boletins de ocorrência, um termo de declaração do Ministério Público e uma medida protetiva que descrevem uma série de agressões denunciadas por ela. A medida protetiva foi expedida em 2018 para que Claudimir ficasse longe da ex-mulher. De lá para cá, ele descumpriu a ordem policial ao menos duas vezes —em que Mayara fez boletins de ocorrência para denunciar.

A última delas aconteceu há duas semanas, quando Claudimir encontrou a ex-mulher após passar o fim de semana com os dois filhos do casal. "Ele encontrou um motivo qualquer para discutir. Começou a me xingar, e a atual esposa dele também. Então, ele me agrediu. Me deu socos no rosto, esfregou meu rosto no asfalto na frente dos meus filhos", conta Mayara em entrevista ao UOL.

O vídeo abaixo, filmado por um vizinho, mostra a agressão. Nele, é possível ver um homem, que seria Claudimir, dando socos e chutes em uma pessoa perto de um caminhão, que seria Mayara:

As crianças, de oito e dez anos, presenciaram a agressão à mãe. A uma tia, o menino mandou uma mensagem de voz aos prantos: "Eu vi o papai esfregando a cara da mamãe no asfalto. Estou em choque, por favor, faça alguma coisa", dizia a mensagem, a que a reportagem teve acesso. "Desde então, sinto que minha vida foi roubada", conta Mayara. "Precisei sair da minha casa, do meu trabalho, tirar meus filhos de casa e da escola para fugir dele. Ninguém sabe onde ele está, e isso me deixa ainda mais insegura", diz.

Mayara e Claudimir se conheceram em 2003, na arquibancada de um jogo do Corinthians. Os dois estavam na área da torcida Gaviões da Fiel, que deu origem à escola de samba. Em 2005, começaram a namorar. "Logo no começo, o relacionamento se tornou abusivo. Vivi várias agressões psicológicas e, por causa delas, decidi me separar. Minha filha, dia desses, se lembrou de algumas atitudes do pai enquanto ele morava com a gente: pegar a faca, ameaçar se matar na frente dos filhos. Eu nunca expus a violência a que era submetida diariamente para eles. Infelizmente, descobriram da pior forma."

Meus filhos se culpam, e isso me machuca muito. Um dia, eles presenciaram o pai ajoelhado, chorando, pedindo que eu não chamasse a polícia. Os dois subiram nas costas dele e reforçaram o pedido. Eles lembram disso e se culpam. Eles não têm culpa de nada."

Assim que pediu a separação, Mayara continuou na mesma casa que Claudimir por dois meses. Nesse período, ela conta que começaram as agressões físicas. "Quando ele viu que, de fato, eu não recuaria da decisão de me separar, começou a me ameaçar na frente dos meus filhos. Ele dizia que se eu não mantivesse relações sexuais com ele até que ele se 'desacostumasse', mandaria fotos íntimas minhas para a minha família".

Segundo a microempreendedora, o ex-marido espalhou cartazes com fotos e o número de telefone dela, anunciando-a como garota de programa. "Tentou me atropelar na frente da escola dos meus filhos no primeiro dia de aula deles. Às vezes, ele pegava as crianças na escola e sumia com elas por dias, sequer me dizia onde estavam", relembra.

Essas acusações estão nos boletins de ocorrência a que a reportagem teve acesso.

Denúncias e medida protetiva

Em 2018, foi expedida uma medida protetiva que impedia o ex-marido de chegar perto dela. "Logo de cara, ele descumpriu a medida. Invadiu a portaria do meu prédio, cuspiu na minha cara e jogou uma caixa no meu pé. Precisei fazer exame de corpo de delito. E nada aconteceu com ele." Após esse episódio, Mayara fez um novo B.O.

Segundo ela, houve dificuldade para fazer a denúncia na delegacia da mulher, mesmo com provas (na última tentativa, ela apresentou o vídeo acima). "Fui atendida por um homem, o que é proibido [Nota da edição: o atendimento de mulheres por mulheres é recomendado, mas não obrigatório]. E ele desdenhou de mim o tempo todo: foi extremamente grosseiro; disse que se eu não tivesse o endereço do agressor, não poderiam fazer nada. Quando tentei contar os antecedentes, ele não quis ouvir. Disse que só registraria o último caso."

Era um momento em que eu precisava de acolhimento. E, como vítima, me senti culpada pela situação. Não esperava viver tudo isso de novo —ser exposta, correr risco de morte junto aos meus filhos."

Ela diz que não tem o endereço atual do ex-marido e o considera "sumido" —ele não vê os filhos desde a agressão mostrada no vídeo. No boletim de ocorrência feito há duas semanas, ela diz que a comunicação com Claudimir era feita apenas por e-mail, como manda a medida protetiva de 2018.

Conselho suspende Claudimir da Gaviões

O conselho da Gaviões da Fiel se reuniu na segunda-feira (13) para definir quais providências seriam tomadas. Por 25 votos a oito, Claudimir foi apenas suspenso da torcida —existia a possibilidade de expulsão, que não aconteceu.

Procurada pela reportagem, a Gaviões, apesar de não ter expulsado o agressor, diz que "jamais irá aceitar e/ou compactuar com violência contra a mulher. Foi decidido, pelo Conselho Deliberativo, punição ao agressor com a suspensão e afastamento por três anos e não ocupará nenhum cargo, posição ou qualquer vínculo com a entidade".

"A violência contra a mulher não pode ser tolerada e vamos seguir juntos nessa luta, que não é só da mulher, mas sim de toda a sociedade. Esperamos que judicialmente se resolva", conclui a nota.

O UOL tentou contato com Claudimir Antônio Teixeira nos últimos dois dias e não recebeu respostas às ligações feitas ou às mensagens enviadas.

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