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Palmeiras: Para além das conquista, Raphael Veiga quer deixar um legado

Raphael Veiga, do Palmeiras, comemora seu gol contra a Universidad Católica, pela Libertadores - Staff Images / CONMEBOL
Raphael Veiga, do Palmeiras, comemora seu gol contra a Universidad Católica, pela Libertadores Imagem: Staff Images / CONMEBOL

Diego Iwata Lima

De São Paulo

04/08/2021 04h00

Classificação e Jogos

É desnecessário dizer que Raphael Veiga quer conquistas e reconhecimento. Trata-se, afinal, de um jogador de futebol profissional, titular de um clube como o Palmeiras. Mas para além das conquistas, Raphael quer deixar um legado —também fora dos gramados. "Quero influenciar o máximo de pessoas pelo que é certo, pelo correto", disse, em entrevista ao UOL, o camisa 23 do Palmeiras.

Raphael não fica só nas palavras. Desde 2019, ele e sua família se juntaram a Willian e à esposa dele, Loisy, além de outros missionários, como parceiros da ONG Baluarte, que atua em Angola com educação e acolhimento de crianças. O sonho de Veiga era ter sua própria ONG, mas a burocracia o desmotivava, e a rotina como jogador impedia a fundação de um projeto a partir do zero. Ao revelar esse desejo ao amigo Willian, no entanto, recebeu dele um convite para se juntar à ONG que já estava em ação.

"Deus falou com meu coração para que eu fosse ajudar essas pessoas na África", disse ele. "Às vezes, me questionam por que na África, se há crianças precisando de ajuda no Brasil. Por educação, nem respondo. Esse foi o chamado que eu recebi. E quem ouvir o chamado para atuar em outros lugares, que atue. Quanto mais melhor", diz.

"Conheci algumas situações na África que me fizeram sentir uma presença muito forte de Deus. Porque só um milagre para explicar como algumas pessoas conseguem sobreviver em um nível de pobreza tão extremo", conta ele.

Uma luta contra o determinismo

O que Raphael mais deseja que a ONG Baluarte consiga dizer às centenas de crianças atendidas pelo projeto é que as coisas podem melhorar. "Quero que as crianças entendam que há saída. Que não é porque os pais foram pobres e não tiveram oportunidades que elas também vão seguir o mesmo caminho", diz. "As circunstâncias não podem limitar aonde podemos chegar", diz.

Num ciclo que se fecha, a lição que Raphael Veiga quer passar é também uma lição para ele mesmo. Demorou para o jogador contratado pelo Palmeiras no fim de 2016 encontrar um espaço para jogar no clube para o qual toda sua família torce. Em 2017, por exemplo, ele chegou a ser inscrito no Campeonato Paulista, mas acabou cortado pelo então técnico Eduardo Baptista.

Veiga - Divulgação/Cesar Greco/Sociedade Esportiva Palmeiras - Divulgação/Cesar Greco/Sociedade Esportiva Palmeiras
Raphael Veiga encerrou jejum de oito jogos sem gols
Imagem: Divulgação/Cesar Greco/Sociedade Esportiva Palmeiras

"Naquela hora, o que senti é que eu não servia para ajudar. É ruim demais essa sensação de que você não serve. Eu poderia ter causado problema, me revoltado. Mas preferi treinar, me aperfeiçoar. O que mais eu poderia fazer?", indaga.

Foi só em 2020 que Veiga conseguiu de fato mostrar à torcida quem ele era. "O que mudou foi confiança e sequência. Começou com o Cebola (interino após a saída de Vanderlei Luxemburgo) e cresceu com o Abel", diz ele, apontado melhor jogador da Copa do Brasil de 2020, conquistada pelo clube em março deste ano. "Quem é que não desempenha sua função melhor, quando está confiante e feliz?

"Eu sempre soube do que era capaz, sabia que uma hora ia ter a chance de conseguir demonstrar. Por isso, trabalhei muito", diz. Mas foi jogando pelo Athletico Paranaense, em 2018, que Raphael convenceu o Palmeiras. Campeão da Copa do Brasil de 2018 com o Furacão, ele foi chamado de volta ao Palmeiras para, enfim, encontrar um lugar.

A inspiração de Veiga quando criança foi o meia Alex, ex-Palmeiras e titular do Coritiba, onde encerrou a carreira, quando Raphael era das categorias de base. "Eu via aquele jogador que já havia conquistado tudo correndo, se esforçando, fazendo gols, e pensava que era daquele jeito que eu deveria ser", conta.

Lendo o jogo, atuando pelos lados e acertando todos os pênaltis

Nos títulos conquistados na temporada 2020, Veiga atuou quase como o único meia de criação do técnico Abel Ferreira. Em 2021, no entanto, com o crescimento de produção de Gustavo Scarpa, o técnico deu um jeito de acomodar os dois, deslocando Raphael para o lado direito do ataque.

"O Abel fala para eu começar por ali, mas depois vir para dentro, como um meia mesmo. Porque eu não sou um velocista como o Veron, que é um raio, o Wesley ou o Breno Lopes. No meio, é mais fácil encontrar espaços. Mas hoje, estou bem confortável com a posição em que atuo", diz.

Veiga Scarpa  - Marcello Zambrana/AGIF - Marcello Zambrana/AGIF
Gustavo Scarpa e Raphael Veiga comemoram gol do Palmeiras contra o Fluminense pelo Brasileirão
Imagem: Marcello Zambrana/AGIF

Abel Ferreira e o auxiliar João Martins, mais de uma vez, elogiaram Veiga pela sua boa leitura do jogo. Isso não é acaso. Veiga, que chegou a iniciar uma faculdade de educação física, aprendeu, ainda na base, que entender como o jogo funcionava iria favorecê-lo. "Gosto muito de tática e de estatística, para comparar o desempenho do Raphael Veiga de ontem com o Raphael Veiga de amanhã", explica.

Num time em que os pênaltis são um calcanhar de aquiles, Raphael Veiga se sobressai. O jogador jamais perdeu um penal com a camisa do Palmeiras. O segredo também está em fazer uma boa leitura do jogo.

"Não tem segredo. Meu método é tomar distância e partir para a bola", garante, entre risos. "Eu não consigo ser como o Henrique Dourado, por exemplo, que espera até o último segundo. Eu vejo o momento do jogo e decido ali, na hora, qual vai ser a melhor forma de cobrar. É muito mais na intuição", diz.

Ter uma vida fora do futebol

A tranquilidade com que Raphael cobra os pênaltis reflete a tranquilidade que o jogador transmite em uma conversa. Veiga aprendeu a ser assim com o tempo. Nos momentos de maior frustração, ele descobriu que o segredo era encarar o futebol como sua profissão, como uma parte importante de sua vida, mas não sua vida propriamente.

"De que adianta eu chegar em casa, brigar com meu irmão, brigar com minha mãe, quando estou nervoso por causa de algo que aconteceu num jogo? Eu demorei para aprender isso, a separar e lembrar que tenho uma vida fora do futebol, com família, amigos, namorada, outras situações", diz.

"Eu aprendi a ser mais leve", resumiu.

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