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Palmeiras no divã: como a psicologia pode brecar os fracassos nos pênaltis

Jogadores do CRB explodem de emoção após eliminarem o Palmeiras - ALEX SILVA/ESTADÃO CONTEÚDO
Jogadores do CRB explodem de emoção após eliminarem o Palmeiras Imagem: ALEX SILVA/ESTADÃO CONTEÚDO

Diego Iwata Lima

De São Paulo

11/06/2021 04h00

Classificação e Jogos

Poucos torcedores não temeram mais uma derrota nos pênaltis quando o árbitro Antonio Dib Moraes de Souza apitou o fim de Palmeiras x CRB pela Copa do Brasil na noite de quarta-feira (9). E nada faz pensar que esse receio também não passou pelas cabeças dos jogadores.

E é aí que pode morar o problema. Segundo psicólogos do esporte ouvidos pelo UOL, uma equipe que perde reiteradas disputas de pênaltis, ou mesmo que tem baixo aproveitamento no fundamento no tempo normal, pode estar sendo vítima de suas próprias crenças negativas. Em outras palavras, os jogadores podem já estar indo para as cobranças com a certeza do erro.

Mas é possível reverter essa espiral de negativismo, com trabalhos que vão dos mais simples aos mais sofisticados, afirmam os profissionais. Afinal, conforme o próprio técnico Abel Ferreira declarou após a eliminação frente o CRB, as muitas derrotas nos pênaltis "têm muito a ver com a capacidade mental de estar calmo e fresco nesses momentos".

Atualmente, o Palmeiras tem uma psicóloga como parte da comissão técnica do time profissional. No fim de 2020, Gisele Silva, que estava no Palmeiras desde 2009 trabalhando com as categorias de base, foi promovida.

A reportagem procurou o Palmeiras para tentar falar com Gisele sobre quais os trabalhos que ela realiza com os jogadores e se há algo sendo feito especificamente quanto aos erros em cobranças de pênaltis. A assessoria de imprensa do Palmeiras informou, porém, que a profissional entende que falar sobre a questão fere a ética de sua profissão.

Treinar é fundamental para o corpo e para a cabeça

"Muitas vezes falta treino mesmo", afirma Bruno Vieira, psicólogo do esporte de alta performance, especializado pelo Barcelona Innovation Hub, a universidade do clube catalão.

"Mas quando digo isso, não estou me referindo somente à parte técnica, mas também ao comportamento dos jogadores", explica Vieira, que atualmente trabalha no Esporte Clube Barueri.

"É muito importante que os clubes entendam a importância de haver um profissional de psicologia no campo de treinamento. O psicólogo vai observar o treino sem se importar com a parte técnica, mas sim com o comportamento dos atletas", explica.

"Com pouco treino, o jogador analisa: 'um perdeu, dois perderam, três perderam? vou perder também'. Porque ele sabe que treinou pouco e não consegue ter a confiança para se desmembrar individualmente do coletivo", diz.

Derrotas cimentam tabus internamente no grupo

Segundo João Cozac, presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e Pós-doutor em treinamento de habilidades psicológicas no esporte, derrotas sistemáticas cimentam em um grupo uma certeza inconsciente da derrota, reforçada por atos quase imperceptíveis.

Essa certeza acaba gerando uma intencionalidade, como se os jogadores já agissem, antes da disputa, de modo a corroborar a ideia da derrota inevitável, uma espécie de profecia autorrealizável.

"Esse processo começa a criar no elenco, numa forma velada, uma espécie de tabu, reforçado a cada disputa perdida, a cada pênalti errado. Vai gerando uma crença central de que aquele é um momento de tensão", explica Cozac.

Realidade Virtual e tecnologia de ponta

Mas treino e proximidade com os psicólogos não são os únicos modos de se ajudar um clube como o Palmeiras em um momento como o atual

A Associação Paulista de Psicologia do Esporte tem hoje diversas ferramentas e recursos tecnológicos que podem ajudar, fora do campo, a melhorar a performance no gramado.

"Há tecnologias amplamente utilizadas por grandes clubes europeus disponíveis atualmente no Brasil", diz ele.

O neurofeedback e o biofeedback, por exemplo, utilizam programas de computador conectados ao paciente por meio eletrodos sobre o couro cabeludo e outras partes do corpo. Esses eletrodos conseguem ler como os pacientes reagem diante de cada estímulo.

Em uma sessão, o psicólogo oferece desafios ao cérebro do paciente que simulam situações de jogo e observa o que pode estar gerando tensão. No caso de um time, ele observa quais são os estímulos que causam ansiedade nos jogadores e que os levam aos erros, por exemplo, para poder corrigí-los em sessões.

Já os óculos de realidade virtual permitem que os jogadores treinem não as pernas, mas os cérebros, para as disputas de pênaltis. Os instrumentos simulam o sentimento do atleta na hora da cobrança para entender onde está o problema que o leva a perder o pênalti.

No Brasil, ainda há muito preconceito quanto ao trabalho do psicólogo nos times de futebol. Menos da metade dos clubes da Série A possui um profissional da especialidade em suas comissões. A seleção brasileira, por exemplo, não tem um psicólogo. Já na Europa, há normalmente um time de psicólogos trabalhando com cada clube.

"Em 2019, por exemplo, tive a oportunidade de dar uma palestra com a psicóloga exclusiva para os goleiros do Manchester United", contou João Cozac.

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