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Seleção Brasileira

Roupeiro ex-seleção precisou vender chuteiras de Ronaldo antes de morrer

Daniel Servidio

Colaboração para o UOL, em São Paulo

19/07/2020 04h00

Ex-roupeiro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Rogelson Barreto morreu ontem (18), em Marica (RJ), aos 62 anos de idade. Barreto, como era conhecido, trabalhou na seleção brasileira por mais de 25 anos e foi vítima de um câncer de reto diagnosticado em 2019 - ele também tinha desenvolvido síndrome de Fournier, uma infecção rara e grave, em decorrência da doença. Em meio às dificuldades financeiras que passou nos últimos meses, precisou vender um par de chuteiras que ganhou de Ronaldo Fenômeno.

Os últimos anos da vida de Barreto foram marcados por dificuldades financeiras. Demitido da CBF após a Copa do Mundo de 2014, ele não conseguiu mais nenhum emprego fixo, mesmo com o vasto currículo, que continha seis participações em Mundiais, incluindo os títulos de 1994 e 2002 com a seleção. Sonhava em trabalhar no Flamengo, seu time de coração, mas não teve oportunidade. Fez apenas alguns serviços no Boavista, time de Saquarema (RJ), de onde sempre era dispensado ao fim dos campeonatos.

O tratamento para as doenças custava, de acordo com as contas da família, em torno de R$ 150 mil. Um dos filhos do roupeiro, Bernard, fez uma vaquinha online em novembro de 2019 para tentar custear as despesas. Na época, foram arrecadados R$ 4 mil, que não eram
suficientes para os remédios, fraldas geriátricas e a necessidade de cirurgias que o SUS não cobria.

No entanto, graças à ajuda de ex-jogadores da seleção brasileira, como Cafu, Edmílson, Bebeto e Branco, o roupeiro foi transferido de hospital e teve alta no fim de dezembro, depois de 50 dias de internação e três cirurgias.

Barreto e Dunga - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

"Desde quando fiquei sabendo da doença, tentei de todas as formas dar um consolo, ajudar financeiramente, com palavras, mas lamentavelmente perdemos o Barreto. Nos últimos meses eu estava bem próximo da família. Fica a lembrança daquele cara para frente, alegre, sorridente, sempre prestativo, entusiasmado em servir a seleção e, acima de tudo, um cara do bem", disse Edmílson, ao UOL Esporte.

Barreto aguardava, para 2020, o início do tratamento por quimioterapia, que foi adiado por conta da pandemia do novo coronavírus.

Trajetória na seleção brasileira

Barreto pisou pela primeira vez na sede da CBF em 1989. À época, já tinha 31 anos e era um ex-funcionário de uma construtora no Rio de Janeiro que buscava um emprego que pudesse pagar mais. A ideia veio do pai. "Seu padrinho está na CBF. Por que não vai ao quartel falar com ele?".

O "padrinho", no caso, era o coronel Calomino, com quem tinha servido no exército em 1978 e quem Barreto considerava um segundo pai. "Você é o filho preto que eu não tive. Está empregado".

Barreto no penta - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Apresentado a Ricardo Teixeira e a Paulo Dutra, então supervisor da seleção sub-20, começou a trabalhar como roupeiro nas categorias de base. Também passou pelo futebol feminino, mas foi no masculino que construiu a maior parte da carreira. Integrou a delegação
nas Copas do Mundo de 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014.

Quando não havia jogos, trabalhava na sede da entidade, no Departamento de Seleções, separando fichas de jogadores, verificando passaportes, separando pastas e conferindo documentos, de segunda a sexta, das 13h às 19h. Só que a praia dele era mesmo o vestiário.

Queridinho dos boleiros

Barreto e Jorginho - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

O que não faltava para Barreto era história de vestiário. Em 25 anos de seleção, colecionou com os craques que vestiam a amarelinha. Chamado por eles de Barretinho, o roupeiro sempre conquistou a todos com carisma e bom humor.

Com Romário, em 1994, a brincadeira era sobre o bicho, que na gíria boleira é a premiação recebida a cada vitória. Antes dos jogos da conquista do tetracampeonato, o Baixinho previa: "Barretinho, pode gastar que hoje o bicho é certo". E a previsão se confirmava. "Não te falei que o bicho era certo, peixe?", brincava o camisa 11.

Em 2002, no pentacampeonato, Barreto era o responsável por amaciar as chuteiras de Ronaldo. Usando os calçados do Fenômeno, o roupeiro dava voltas no campo antes dos treinos e dos jogos, para que os pés do artilheiro não se machucassem.

"Barretinho, amacia essa chuteira que amanhã vou fazer gol com ela", disse Ronaldo, um dia antes da final contra a Alemanha. Após a partida, com a taça conquistada e os dois gols, o camisa 9 deu o par de chuteiras a Barreto.

Em contato com o UOL Esporte, o ex-supervisor da CBF Américo Faria contou outra história do tipo. "Na Copa de 1998, o Zico brincou com ele, inventou que um dos patrocinadores do evento daria brindes a quem ficasse perto de uma determinada placa de publicidade. O
Barreto ficou lá parado por um bom tempo. O Luizão, massagista, passava perto e falava: 'Já ganhou? Me mandaram um brinde'. E Barreto respondia: 'Não, ainda nada'. Era muita brincadeira", recordou.

"Pai" Américo Faria alertou para as dificuldades

Barreto esteve bem de vida enquanto trabalhou na CBF. Tinha carteira assinada e, além dos salários, recebia dinheiro de premiações, com valores altos, que sempre eram divididos igualmente entre jogadores e comissão técnica.

O roupeiro teve um apartamento na Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio de Janeiro. Foi dono de restaurante em Maricá, onde também comprou à vista uma casa de 2.800 m², com piscina e quadra society. Oferecia almoços e viagens a toda a família.

Quando Barreto foi demitido da CBF após a Copa do Mundo de 2014, sua ficha caiu. Ele planejava usar a premiação pelo título que considerava certo para comprar o terreno do seu restaurante e parar de pagar aluguel. Mas, de repente, se viu desempregado e sem dinheiro guardado, algo que sempre era alertado pelo supervisor Américo Faria, mais um que o fisioterapeuta tratava como um pai.

"Está guardando? A CBF não é para sempre. Guarde", dizia. Barreto só entendeu o sentido da frase quando as contas não paravam de
chegar e o desespero para conseguir um outro emprego só aumentava. Ao falar de Faria, a voz embargava. Acreditava que, se tivesse seguido os conselhos do supervisor e amigo, estaria bem de vida.

Barreto e Américo Faria - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Vivendo apenas com uma pequena aposentadoria, foi obrigado a fechar o restaurante. O único imóvel que sobrou foi a casa em Maricá - e dava graças a Deus por isso, pois dizia que, se não fosse esse teto, não teria nem onde morar. Depois, passou a vender medalhas conquistadas na época da CBF e até a chuteira dada por Ronaldo após a Copa do Mundo de 2002.

"Não posso passar fome e nem deixar minha família passar. Como ficaria sem luz, sem gás e sem comida?", questionava. Dos objetos, porém, fez questão de guardar uma camisa de Zagallo. O Velho Lobo lhe deu o uniforme de quando foi homenageado por 250 jogos com a amarelinha.

"Alguns jogadores têm dificuldade para guardar dinheiro, mesmo ganhando muito. Com os roupeiros, que ganham bem menos, a situação é ainda mais complicada. Eu procurava orientar, dizer para fazer um pé-de-meia, mas é algo difícil de acontecer", disse Américo Faria ao
UOL Esporte.

"Ele era uma figura simpática, alegre, sorridente, muito benéfica ao grupo. Era um amigo, e vai deixar saudades", completou.

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