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Ex-São Paulo conta que, no Irã, futebol ainda é esporte dos homens

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Imagem: Divulgação

José Edgar de Matos

Do UOL, em São Paulo (SP)

28/12/2019 04h00

Engana-se quem celebra a liberação das mulheres nos jogos da seleção do Irã como uma regra. A medida é apenas paliativa e contrasta com a realidade do país persa, localizado na Ásia e conhecido por ser um dos mais restritivos ao comportamento feminino. Este machismo estrutural, enraizado na cultura local, é encarado pela brasileira Vanessa Silva, mulher de Mazola, ex-atacante do São Paulo e atualmente no Tractor.

O casal vive em Tabriz, cidade localizada no noroeste do Irã e com aspectos interioranos. O local apenas reflete a realidade de todo um país, no qual as mulheres ainda não possuem direito de assistirem a partidas de futebol. Vanessa, companheira assídua nos jogos no Japão, China e Coreia do Sul, agora só assiste aos jogos do marido pela televisão.

"É só no jogo da seleção, mas estão brigando para liberar para a liga. Acredito que seja difícil liberar, muito mais difícil, infelizmente. Aqui no estádio dá jogo de 90 mil e 100 mil pessoas, só homens", relatou Mazola, em conversa com a reportagem do UOL Esporte na qual torce para a permissão do público feminino se estenda para o futebol de clubes.

A revolução de 1979 mudou as leis sobre o comportamento feminino no Irã. Sob a justificativa de afastar a influência ocidental, as mulheres foram privadas de, entre outras situações, comparecerem a jogos de futebol. Qualquer evento masculino passou a ser restrito aos homens. O vestuário, trabalho e até passeios de bicicleta acabaram proibidos para as cidadãs do país.

"Tomara que isso mude logo, mas acho que será difícil. Minha mulher era acostumada a ir ver os jogos no estádio. Aqui, só pela televisão e no hotel", contou o jogador que passou por São Paulo, Paulista, Guarani, Figueirense, Ceará, CRB e São Bento no Brasil.

As diferenças culturais estão evidentes a todo tempo. Hoje, Mazola se diz adaptado ao futebol do Irã, mas vê a mulher sofrer. O casal vive em um hotel e criou laços com os funcionários. As amizades são restritas, e as mudanças comportamentais dos dois necessárias para respeitar a cultura iraniana.

"Para ela [Vanessa Silva] é muito mais difícil. É muita roupa, por exemplo, que tem que colocar quando você desce para almoçar ou jantar. É calça, é véu, tudo. Ela acabou se enturmando com o pessoal do hotel e com a esposa do peruano que joga com a gente [William Mimbela], isso ajuda. E a gente só fica no hotel porque somos casados também, tudo muito fechado", disse.

Mazola Irã - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Mazola e a mulher Vanessa construíram amizade com os funcionários do hotel onde moram
Imagem: Arquivo Pessoal

"É diferente para mim não poder andar de bermuda, mostrar a tatuagem...é bem diferente de todos os países que passei. Na academia, por exemplo, as mulheres têm o horário das 9h às 16h; e a gente das 17h até as 23h. Fora que elas têm que cobrir todo o corpo, andar com véu. A cultura é muito diferente, as coisas são muito rígidas", acrescenta Mazola, citando mais um choque cultural.

Cumprimentar outras mulheres? Nem pensar

Mazola relata que até os diálogos são restritos entre pessoas de sexo diferente. Há uma rotina e um dogma a serem respeitados. A tradição secular não se altera, mesmo com a globalização e o mundo de hoje. Ele não pode, por exemplo, cumprimentar outra mulher.

"O islã é muito respeitado. Acabou o treino e dá a hora da oração, religiosamente colocam o tapetinho e ajoelham. Você, como homem, não pode cumprimentar a mulher na mão, não pode tocar na mão dela. Se está com sua esposa ao lado, ela não deve olhar para o seu amigo. O diálogo é entre eu e ele, só", relata.

"Nível do campeonato me surpreendeu"

Mazola comemora - Divulgação - Divulgação
Mazola se diz feliz no Irã e elogiou o nível do campeonato local
Imagem: Divulgação

O ex-jogador do São Paulo, apesar das restrições relatadas, especialmente sobre o comportamento das mulheres, aprova a ida para o Irã. A maior atração encontrada por Mazola está inclusive nas arquibancadas lotadas, mesmo sem a presença feminina e da esposa.

"Campeonato é bom; vim para cá e achei que era mediano, mas é bem bom sim. O time é como se fosse um Flamengo e tem uma torcida que nunca vi. Joguei contra eles e deu 100 mil pessoas. É como se jogar no Maracanã, sabe?", relata.

"Você vê o estádio e pira! São jogos com 90 mil e 100 mil pessoas, o povo é fanático. Jogo em um clube meio de interior, mas a cidade é boa e o clube tem muito a crescer. A estrutura que encontro aqui é boa. Valeu a pena vir, é uma experiência estar em um país novo e conhecer a cultura iraniana", diz o jogador.

Mazola é famoso nas ruas de Tabriz e agora possui uma visão completamente a da imaginada quando desembarcou. Embora a cultura restritiva à mulher seja de difícil adaptação, a visão sobre o islamismo mudou ao se conviver com pessoas com uma formação tão diferente.

"É só sair de casa. Se você solta um peido, todo mundo sabe [risos]. Todo mundo aqui é apaixonado pelo clube. Se sair, não vai ter paz. Sempre vem gente pedir foto, é muito bacana. Você derruba preconceito e vê que a cultura do islã não é tudo aquilo que pintam. É uma sociedade como a nossas e basta respeitarmos", conclui.

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