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Brasileiro que joga na Bolívia há 15 anos: "O que estou fazendo aqui?"

Marcelo Gomes em ação pelo San José - Arquivo pessoal
Marcelo Gomes em ação pelo San José Imagem: Arquivo pessoal

Lucas Faraldo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

17/11/2019 04h00

"Hoje teve um protesto do sindicato dos professores pedindo paz. Por isso eu estava trancado na rua. Há uns dois, três dias, o pessoal veio aqui até a casa do governador de Oruro, queimaram a casa. Queimaram também casa de parentes de Evo Morales aqui. Não vou chegar a tempo de falar com você. Consegue me ligar mais tarde?"

Foi assim que Marcelo Gomes, camisa 10 do San José, um dos mais tradicionais times de futebol da Bolívia, atendeu ao primeiro telefonema do UOL Esporte. Hoje naturalizado boliviano e por vezes cotado a defender a seleção conhecida como La Verde, Marcelo, 37, está há 15 anos no país vizinho do Brasil.

Ontem mesmo passou [pela minha cabeça]: 'O que estou fazendo aqui?'. Você vê a família assustada... Ontem mesmo deu vontade de voltar ao Brasil", admite. "Mas esperamos que as coisas fiquem mais tranquilas".

Natural de Miguel Pereira, no Rio de Janeiro, ele, até 2004, jogava no pequeno Bonsucesso, na época alternando entre a terceira e a segunda divisão do futebol carioca. Foi quando o clube recebeu contato de um empresário de Santa Cruz de la Sierra, cidade mais populosa da Bolívia: um time do país buscava jovens brasileiros.

"No Bonsucesso a situação salarial não era muito boa. Aí pensei: 'Bom? Pior que aqui não deve ser, né?'", argumenta, num dos raros momentos em que riu na conversa de pouco mais de uma hora com a reportagem. Suspirou e seguiu: "Como era solteiro na época, não tinha família própria, meti a cara e vim. Não pensei duas vezes. Mas também não sabia como era aqui, povo, cultura, idioma, sabia nada e vim."

E se adaptou relativamente rápido ao Universitario Sucre, primeiro dos cinco clubes que defendeu na Bolívia. Logo em sua chegada ao novo país, não demorou para de destacar em meio a colegas e rivais que, mesmo defendendo clubes de elite, estudavam e/ou trabalhavam concomitantemente à carreira futebolística. "A principal diferença que senti é que não parecia muito profissional o futebol aqui", conta.

Enquanto dava os primeiros passos nos gramados bolivianos tentando entender onde pisava, Marcelo acompanhava, ainda que por cima, a situação de instabilidade pela qual o país passava num outro campo, o da política. Ganhava força no cenário nacional a figura de um líder sindical defensor da reforma agrária e da nacionalização dos principais setores da economia. Dois anos após a chegada do meia brasileiro, a Bolívia, país da América Latina com maior proporção aborígene na população (62,2%), proclamava seu primeiro presidente de origem indígena em quase 200 anos de independência: Juan Evo Morales Ayma. Passados 13 anos, nove meses e 18 dias, ele renunciaria ao poder no último domingo (10).

Marcelo viu tudo de perto. E segue por lá.

"Estão falando mais de política. Futebol ficou em segundo, terceiro plano"

Como projetado por Marcelo, sua trajetória ao longo dessa década e meia na Bolívia superou aquela que ele projetava no Brasil. Senão, ele já teria voltado. Nos últimos dias, porém, ele cogitou seriamente retornar ao Brasil. A ideia passou por sua cabeça pela primeira vez desde que se firmou no país onde hoje tem casa, esposa, três filhos e é cidadão com direito a voto.

Desde que se levantaram suspeitas sobre a possível fraude que marcou a vitória de Evo Morales nas eleições presidenciais do último 20 de outubro, protestos violentos envolvendo opositores, apoiadores e forças policiais tomaram conta das principais cidades do país. Semana passada, antes mesmo de a OEA (Organização dos Estados Americanos) acusar "graves irregularidades" no pleito boliviano, até os povoados menores e mais distantes já tinham registros de manifestações — como a pequena Oruro, onde Marcelo Gomes mora e joga.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

O pedido de renúncia de Evo Morales pouco amenizou o cenário de caos pelas ruas do país. Por menos numerosos e espalhados que sejam os protestos atualmente em relação às últimas semanas, seguem intensos agora em decorrência do que muitos classificam como golpe militar pelo qual teria passado a Bolívia, já que houve interferência das Forças Armadas na saída do ex-presidente do poder.

Desde as eleições, foram confirmadas 23 mortes por conta da violência. Jogar ou até falar em futebol se mostrou e ainda se mostra inviável em qualquer canto do país.

"Ainda no mês passado, Evo pediu calma ao povo alegando que o futebol boliviano já estava paralisado havia duas semanas", recorda Marcelo. "Ali os próprios jogadores se posicionaram gravando vídeos e fazendo posts nas redes sociais dizendo que não era hora de pensar em futebol. Alguns jogadores até foram às ruas bloquear, protestar, confrontar. Não era momento de falar sobre futebol. As pessoas querem solucionar suas situações no país", acrescenta.

Neste próximo fim de semana, completa um mês a paralisação do Campeonato Boliviano. Já são seis rodadas adiadas e ainda não há previsão de retorno. "Como os conflitos social e político estão se agravando em nosso país, a reunião está adiada até que as condições e garantias sejam restabelecidas", diz carta enviada esta semana pela Federação Boliviana de futebol aos clubes da primeira divisão, em referência a mais um dos vários encontros que se tem tentado organizar em vão nas principais cidades da Bolívia a fim de buscar uma solução para o calendário.

Todo mundo pensou que solucionaria em uma semana. Aí faziam uma reunião e cancelavam por mais uma semana. E vem sendo assim".
Marcelo Gomes

"Hoje aconteceria uma reunião em Cochabamba, mas por conta dos protestos não conseguiram", contextualiza Marcelo, que chegou a ser liberado até dos treinos pelo San José por cerca de uma semana nos dias em que Oruro registrou protestos mais violentos. Atualmente segue sem treinar, mas por motivo que será relatado logo abaixo.

Já de olho na participação dos clubes bolivianos nas próximas edições da Libertadores e da Sul-Americana, a Conmebol tem pressionado a Federação Boliviana dando o Natal como prazo para o término do campeonato nacional. O problema é haver apenas duas semanas entre o fim programado do torneio (dia 11 de dezembro) e o feriado do dia 25. Será necessário encaixar ao menos um mês de calendário interrompido.

O UOL Esporte apurou ao menos cinco problemas quase iminentes relacionados à paralisação do campeonato:

  • jogadores dos clubes de Santa Cruz de la Sierra (Oriente Petrolero e Blooming), onde se iniciaram os protestos, pedem ao menos dez dias para readquirir condição física já que a grande maioria não tem treinado e alguns inclusive têm saído às ruas para protestar;
  • não haverá tempo para respeitar os prazos de Conmebol e Federação Boliviana sem desrespeitar a regra do intervalo mínimo de 48 horas entre jogos adotada no país;
  • jogadores, nos bastidores, já se negam a abrir mão do período de folga que teriam em dezembro, alegando que visitarão familiares e viajarão para cidades e países de origem;
  • com a possível redução do tempo de férias dos jogadores, já se discute nos bastidores os impactos negativos na participação da seleção boliviana sub-23 no Pré-Olímpico, agendado para o próximo mês de janeiro, na Colômbia;
  • como estão há quase um mês sem jogar, praticamente todos os clubes já acumulam dívidas para com seus próprios jogadores e funcionários, na medida em que não acumulam renda enquanto não jogam -- a maioria, cabe destacar, já vinha devendo salários antes de, agora, a situação se agravar.

Em relação aos atrasos salariais, o caso mais emblemático é o do Sport Boys, que inclusive já perdeu pontos na atual edição do campeonato por dívidas de até cinco meses. A agremiação segue em crise, e seu presidente, Carlos Romero, pediu asilo político na Argentina por ser ex-ministro do governo de Evo Morales.

O San José de Marcelo Gomes também deve salários — já são três meses de dívida. Quando atendeu ao primeiro telefonema da reportagem e estava preso no trânsito por causa de um protesto, ele tentava chegar ao clube para receber um acerto parcial de contas. Como não houve pagamento, nem ele nem os colegas treinaram.

Há também problemas futebolísticos que vão além do campeonato nacional. Amistosos da seleção boliviana foram cancelados, contra Chile e Panamá; a seleção sub-23 também abortou amistosos que tinha marcado com o Peru; o Sul-Americano Sub-15 foi transferido às pressas pela Conmebol da Bolívia ao Paraguai.

Aqui estão falando mais de política. Futebol ficou em segundo, terceiro plano para todo mundo. Aqui em Oruro até, onde os torcedores são muito fanáticos? Neste momento ficou em segundo plano mesmo. Você vai conversar e todo mundo fala que tem uma situação pior para resolver"

Futebol? Marcelo fez vias até de socorrista nas últimas semanas

Num dos dias mais tensos de violência em Oruro e região, um ônibus que transportava estudantes para um protesto em La Paz foi alvo de emboscada na estrada nas proximidades da cidade que abriga o San José. Uma pessoa morreu.

Ônibus que transportava estudantes para protesto em La Paz sofre emboscada EditarDownload

UOL Esporte

Não demorou para a notícia se espalhar em Oruro e chegar ao San José, que vivia semana de portões fechados em decorrência justamente do aumento da violência. Ao tomar conhecimento do episódio, Deymar Arce Soria, médico do clube, se deslocou para prestar primeiros socorros no local onde manifestantes brigaram.

Graças a um vídeo publicado por Soria nas redes sociais, Marcelo soube da missão de resgate daquele a quem se refere como "doutor". De imediato, ligou para o médico e amigo perguntando no que poderia ser útil. O camisa 10 ficou de sobreaviso: se houvesse necessidade, receberia o chamado de emergência.

"Nem esperei me retornar. Se é para ajudar, vou ajudar. Peguei água, roupa e saí correndo. Peguei meu carro e fui com um outro companheiro do clube. No meio do caminho o doutor ligou pedindo ajuda", relata, em tom orgulhoso pela antecipação.

No caminho, Marcelo e o amigo passaram por dois bloqueios aparentemente realizados por estudantes. Em ambos foram reconhecidos como jogadores do San José. Nem por isso escaparam das revistas de cima abaixo no automóvel.

"Enfim chegamos lá. E tinha gente que tinha levado pedrada na testa, muito sangue? O doutor nos mostrou fotos. Mas as ambulâncias já tinham recolhido a maioria dos feridos. Aí acabei resgatando mais mesmo o doutor e duas enfermeiras, trazendo eles de volta à cidade", lembra.

Ajudar quem passa por Oruro não foi exclusividade do dia em que fez vias de socorrista. Principalmente na semana em que o San José paralisou treinos, era comum grupos de jovens que se deslocavam pelo país atrás de protestos serem surpreendidos com barricadas e até emboscadas e precisarem de suporte na cidade.

"Muitos acabavam vindo até nós. Vinham, ficavam dormindo numa faculdade aqui. E nós, jogadores, ajudamos com comida, roupas, remédios. É uma situação complicada, ver essas coisas de perto dói. Até para nós jogadores ficou em segundo plano o tema de futebol diante de tanta preocupação", reflete.

"Protegia meus filhos do que acontecia"

Clima de instabilidade política e até social na Bolívia não é bem novidade para Marcelo. Em seus primeiros anos no país, presenciou certa tensão entre diferentes grupos nas ruas na época que antecedeu o início da era Evo Morales.

Menos violentos e difundidos, os protestos de 15 anos também chamavam menos atenção de Marcelo por se tratar de um fluminense recém-chegado que não sabia sequer falar espanhol. Hoje tão boliviano quanto brasileiro, ele naturalmente tem maior preocupação pela crise sócio-política que abate o país. Um "detalhe" também pesa nesse cenário: o jovem solteiro que meteu a cara aos ventos rumo a uma aventura na Bolívia agora é quase quarentão, casado há 11 anos com a Daniela e pai dos pequenos Raphaella, Sophia e Joaquim, de 11, sete e cinco anos de idade.

"Fico preocupado sobretudo com a família, porque não sabia se entrariam na cidade para destruir tudo, saquear tudo. Essa era a preocupação geral aqui na cidade", diz.

"A cada foguete que soltavam, o pessoal olhava um para o outro assustado, sem saber direito o que aconteceria. O período de mais tensão durou uns dois dias em Oruro. Em La Paz e Cochabamba tem durado por semanas. Destroçaram ônibus, botaram fogo nos comandos policiais, as cidades estão um terror", descreve.

Pedradas, tiros, sequestros, incêndios criminosos, torturas e até mortes na Bolívia. Se tudo isso tem viralizado nas redes sociais e nos noticiários brasileiros nas últimas semanas, não é difícil imaginar o tanto de informação relacionada à violência a que tem sido exposta a própria população boliviana ao longo desse último mês.

"Deixei as crianças aqui em casa um pouco à margem de tudo o que estava passando no país", explica Marcelo. "Principalmente a maior, que já entende um pouco mais e tem interesse pelo que está passando no país. Mas não quero que ela saiba de tudo para não ficar assustada. São cenas de muita violência, até casos de morte."

Em contato com a reportagem, o jornalista boliviano José Miguel Arévalo, que trabalha como correspondente dos canais Fox Sports em La Paz, descreveu o cenário de caos do qual Marcelo ainda tenta proteger as filhas: "O vazio de autoridade que deixou Evo Morales tem sido aproveitado por manifestantes e também por vândalos que estão saqueando várias cidades, queimando casa de quem consideram inimigos, estações policiais, edifícios públicos. A polícia não dá mais conta e agora o exército também está ajudando na segurança pública."

Assim não apenas o dia a dia de Marcelo como jogador de futebol tem se alterado, mas também (e principalmente) como pai de família. Um dia antes de conversar com o UOL Esporte, ele havia saído de bicicleta para fazer compras, o mais rápido que pôde, e se deparou com os portões do mercado a meia altura devido aos riscos de saques. As aulas na escola estão suspensas há duas semanas sem prazo de retorno. Sair para jogar tênis, ir ao cinema ou simplesmente passear? Sua esposa e seus filhos raramente têm pisado fora de casa.

"Melhor não arriscar", argumenta Marcelo.

O inédito dilema: ficar na Bolívia ou voltar ao Brasil?

"Outro dia ligou um amigo brasileiro dos tempos de colégio. Estava preocupado, queria saber como eu e minha família estávamos. Tentei acalmar, mas no fundo não sei como serão os próximos dias", recorda Marcelo.

O cenário na Bolívia é mesmo de incerteza. Dois dias após a renúncia de Evo Morales, que conseguiu asilo político no México, a senadora Jeanine Áñez se autoproclamou presidente numa sessão legislativa extraordinária. A expectativa política é pela convocação de novas eleições; social, pela pacificação de estradas e cidades.

Com incógnitas relacionadas aos rumos do futebol, da segurança pública e até da democracia na Bolívia, Marcelo viveu um inédito ponto de interrogação em sua cabeça: seria hora de voltar ao Brasil e iniciar com sua família uma nova vida? "Acabei me estabilizando por aqui, formando família... Tirando ontem, nunca tinha me passado pela cabeça largar tudo e voltar para o Brasil", explica.

De fato seria um recomeço. Aos 37 anos de idade, Marcelo, na Bolívia, já estuda para se tornar técnico de futebol e também faz planos para abrir escolinhas da modalidade em Oruro e em Sucre — a primeira cidade onde morou no país. Sua esposa e seus filhos sempre viveram em solo boliviano e, apesar do encanto pelo Brasil, conhecem basicamente apenas praias e pontos turísticos para onde vão nas viagens anuais de férias que a família faz para visitar os parentes do jogador.

Ao menos por ora, a intenção de Marcelo Gomes é seguir em Oruro. O que move o meia (ou, melhor, dá forças para fazê-lo seguir por lá) é a esperança de voltar a jogar futebol pelo San José, seu "segundo time", e, claro, poder ir e vir com Daniela, Raphaella, Sophia e Joaquim, o time de coração deste brasileiro meio boliviano.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

"Vamos seguir em contato. Se acontecer algo aqui te alerto, mas tomara que não. Tomara que eu possa mandar mensagem falando sobre a volta dos jogos aqui do campeonato", finalizou a entrevista, aclamado por seus filhos mais novos cujas vozes agudas se faziam ouvir do lado de cá da ligação; a mais velha e a esposa já esperavam, em outro cômodo, por Marcelo e o restante da criançada. Estava na hora da janta. Elas haviam passado a tarde cozinhando os alimentos que o brasileiro comprara de bicicleta na véspera. No jogo da vida, a bola não para de rolar.

Que a paz e a democracia sejam restauradas e transformem a hoje caótica Bolívia tão rápido como se transformaram as conversas de Marcelo Gomes com a reportagem: da interrupção por protestos de rua à esperança por dias melhores para o futebol boliviano e, principalmente, seu povo — inclusive ele, esposa e suas crianças.

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