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Homofobia: clube veta atração drag queen e evento é cancelado em Jundiaí

Divulgação/Paulista FC
Imagem: Divulgação/Paulista FC

José Edgar de Matos e Pedro Lopes

Do UOL, em São Paulo (SP)

14/11/2019 04h00

O festival "Rúcula" estava programado para os dias 23 e 24 de novembro no estádio Jayme Cintra, em Jundiaí. Foi cancelado. Segundo os organizadores, o Paulista, dono do estádio, pediu a retirada de uma das atrações do evento, uma intervenção com temática de drag queens, e decidiu revogar a cessão do local quando teve resposta negativa. O clube alega que os responsáveis pela atração não respeitaram o estatuto da entidade, que veta manifestações e qualquer "levantamento de bandeira" no campo. A ONG Aliados, que acolhe o público LGBT+ e organiza a parada do orgulho LGBT na cidade paulista, estuda providências legais.

A organização do "Rúcula" detalhou em nota o cancelamento, fazendo referência a uma manifestação preconceituosa do clube do interior paulista: "Após a divulgação da programação do evento, o Paulista Futebol Clube manifestou desconforto com relação a uma de nossas atrações, de orientação LGBT, condicionando a cessão do estádio, firmada em contrato, à retirada dos artistas em questão do festival".

O UOL Esporte ouviu o presidente do Paulista, Rogério Levada, sobre o cancelamento do evento. O dirigente falou em "levantamento de bandeiras políticas" para justificar retirada do Jayme Cintra como palco do festival.

"Foi comunicado que, entre as tantas atrações, por levantar bandeira, essa feriria o estatuto, e a organização do evento decidiu cancelar o evento como um todo. Se houve alguém que desrespeitou o acordo, não foi o Paulista", afirmou o dirigente à reportagem.

A atração vetada pelo clube não constava na programação oficial de shows. Um grupo disponibilizaria uma mesa com adereços utilizados por drag queens para o público. As pessoas se montariam e poderiam tirar fotos com os itens disponibilizados. O Paulista queria a retirada dessa atração por "levantar bandeira" - para Levada, a decisão não tem relação com homofobia.

"Gosto de eventos culturais, não sou homofóbico. Tenho amizades com seres humanos, independentemente de raça, credo, cor política ou opção sexual. No último mês, inclusive, fui padrinho de um casamento homoafetivo. Esta nota me chateou muito", acrescentou o mandatário.

Diretora da ONG Aliados, responsável pelo acolhimento do público LGBT+ e organização da parada do orgulho LGBT em Jundiaí, Samy Fortes acompanhou o processo e diz que medidas legais devem ser tomadas. Fortes representa a cidade na esfera federal como delegada da saúde da mulher e milita contra o machismo, o racismo, a transfobia e a homofobia.

"O 'Rúcula' é um festival de arte mesmo, muito enriquecedor, bonito. Para fazer um evento maior, decidiram pelo Jayme Cintra. Foram feitos todos os trâmites, organizadores fazendo um megatrabalho, com arte, cultura e a inclusão da diversidade. Poucos dias antes do evento a diretoria do Paulista chama a organização e fala que se tiver a temática LGBT+ não seria legal, porque a cidade é conservadora", explica. "Quando isso chegou a mim, à ONG Aliados, a equipe da organização do evento decidiu não aceitar esse tipo de situação. Foram feitas tentativas de acordo, mas não foi possível. Para mim, está muito claro que foi um ato de homofobia, de preconceito. Hoje, graças a Deus, é crime, e se aconteceu, agora vamos correr atrás", disse.

Fortes afirmou que o caso deve ser levado à comissão de diversidade sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da qual é conselheira. A partir disso, com análise do departamento jurídico da ONG, providências serão estudadas.

"A ONG Aliados tem um diretor jurídico, a gente vai fazer uma reunião amanhã (14). A OAB tem comissões, entre elas a da diversidade sexual, nós temos uma aqui. Vamos atrás para saber qual ação podemos tomar, porque vamos levar até o fim essa situação. A ONG Aliados não vai deixar dessa forma", disse.

A ativista rebate a alegação do Paulista de motivação política para o cancelamento do evento, que devolverá os valores gastos pelo público com ingressos. Além disso, garante que ele irá acontecer em outra data e não deixará de abordar temáticas relacionadas ao público LGBT+.

"Foi tudo muito rápido. Cancelaram o evento. Os ingressos vão ser devolvidos. Todos os coletivos de Jundiaí fizeram notas de repúdio, e agora vão se reunir e achar um novo espaço, e vai acontecer o evento. E vai ter LGBT+, sim", afirmou.

"Eu não estou entendendo, quem está fazendo política são eles. Vejo um quadro triste em todas as esferas, tem essa visão de que tem a direita conservadora e a esquerda anarquista. Não é bem assim. Não sou de direita ou de esquerda, sou uma pessoa que está buscando direitos. As pessoas querem retroceder todo um processo, uma conquista. Corpos esquecidos, corpos que morrem. É o país que mais mata, que mais agride homossexuais no mundo. Nós queremos mostrar quem somos, e temos o direito de ocupar todos os espaços", finalizou.

Organizada nega participação

Segundo apurou a reportagem, a decisão da diretoria de retirar o apoio ao evento que acabou cancelado começou a ser discutida nos últimos dias. A diretoria sofreu até pressão de torcedores, preocupados com futuras provocações homofóbicas.

Divulgação
Imagem: Divulgação

A decisão do "Rúcula" contou com apoio, inclusive, de artistas que iriam se apresentar durante o fim de semana cultural no Jayme Cintra. "O nome da atração [mantido em sigilo a pedido do evento] foi o motivo que deram para querer tirar a atração, mas minha banda também tem representantes LGBTs e outras também. A ação deles foi ridícula, claramente homofóbica. Achei justo cancelarem por estes motivos. Também sou parte de uma parte da comunidade LGBT e me senti totalmente ofendida", declarou Fernanda Gamarano, guitarrista da Der Baum.

A organização do "Rúcula" omitiu o nome da atração rejeitada pelo Paulista por questões de segurança, temendo possíveis ataques de torcedores do clube (especialmente nas redes sociais), e manifestou que vai promover um novo festival. Quem comprou ingresso para o evento no Jayme Cintra será ressarcido com o valor integral pago antes do cancelamento.

" Esse festival preza de forma absoluta e inquestionável pela pluralidade e multiplicidade, discordando dessa postura. Assim, em respeito aos artistas, público e demais envolvidos, o 'Rúcula' se nega a acatar esta interferência em nossa curadoria, ainda que isso custe-nos a cessão do uso do estádio", acrescentou, em nota, a organização do festival.

O Paulista, na noite de anteontem (12), emitiu uma nota para justificar a alteração na posição anterior de sediar o evento.

"Na primeira reunião realizada com os representantes e idealizadores do evento ora em pauta, fora solicitado que não houvesse nenhum tipo de exibição que levantasse bandeiras, quer elas fossem nos âmbitos religiosos, políticos, raças e gêneros, isso tudo em função de uma limitação existente no estatuto social na qual não é permitido tal manifestação", disse o clube.

"E essa solicitação foi acatada em reunião. Porém, para a nossa surpresa, a organização do evento decidiu quebrar o acordo - que foi feito em reunião, com várias pessoas presentes, violando assim, a única solicitação feita pelo clube. É importante ressaltar que o Paulista Futebol Clube cederia sem ônus o estádio Dr. Jayme Cintra para a organização do evento, ou seja, sem custo para os organizadores", acrescentou.

"Temos conhecimento das manifestações contrárias a essa decisão, que respeitamos, assim como manifestamos nosso irrestrito apoio a todas as opções culturais e comportamentais, sem exceção. O que é importante ressaltar é que o clube se limita a cumprir com o que está devidamente registrado em seu estatuto. Portanto tudo que aquilo que o contraria não pode ser realizado", encerrou o Paulista.

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