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Cruyff, o crítico de Neymar, é apenas mais um súdito do futebol brasileiro

José Ricardo Leite

Do UOL, em São Paulo

28/03/2014 06h00

A cada Copa do Mundo ele dá declarações detonando a seleção brasileira. É só encontrá-lo em algum canto, lhe pedir uma entrevista e perguntar sobre o time canarinho para receber palavras ácidas em troca. E agora ele disse que o problema do “seu” Barcelona é Neymar, maior jogador brasileiro na atualidade. E tudo que sua voz diz na capital catalã costuma ecoar em cada canto do mundo. Seria o holandês Johan Cruyff um desafeto do futebol brasileiro? Não. Ao contrário. Ele é, na realidade, apenas um “canarinho” romântico e fã da essência do futebol pentacampeão.  

O nível de exigência do por vezes rabugento Cruyff é fruto de uma visão perfeccionista de futebol e da sua ideia de que é possível jogar ofensivamente e vencer com criatividade. Foi um dos revolucionários do futebol ao ser o líder em campo do Carrossel Holandês da Copa de 74, além de ser um dos mentores do estilo de jogo praticado hoje pelo Barcelona. Jamais abre mão da ideia que é possível jogar bonito sempre. E essa inspiração vem do Brasil.

Sempre citado pelo holandês como uma das referências do futebol brasileiro do jeito que ele gosta, o ex-craque Tostão sai em defesa do fã e apoia a tese de que Cruyff é realmente um fã da essência verde e amarela.

“A mídia brasileira tem mania de brigar com ele. Foi um grande jogador e o técnico que começou com essa filosofia e conceito no Barcelona. Tem fama de encrenqueiro, de palpiteiro. Mas ele é um mito no Barcelona, e isso não impede de falar tudo o que pensa. Não é um cara que fica fazendo gentileza pra agradar, só com discurso de bonzinho. É um cara independente. Agora virou uma polêmica, agora mesmo com o caso do Neymar. Ele nunca subestimou o futebol do Neymar. Ele afirmou que o Neymar é um grande jogador”, explicou.

O ex-zagueiro Marinho Peres conhece Cruyff como poucos brasileiros. Foi companheiro dele no Barcelona na década de 70 e costumava ter longos diálogos sobre futebol com o holandês. Diz que ele via o Brasil com potencial para ser imbatível. “Ele falava que o futebol brasileiro tinha uma qualidade impressionante e fazia coisas que o europeu não fazia. Os caras daquela época eram referência dele. A Copa de 70 é algo que o motiva, falava em Gérson, Rivelino, Tostão. E ele falava que nós brasileiros poderíamos evoluir ainda mais nos aspectos táticos.”

O holandês é uma das personalidades mais respeitadas na Catalunha. Já chegou até a vestir a camisa e ser treinador da seleção local, que apesar de disputar amistosos não é reconhecida pela Fifa e tem como objetivo apenas de ser um símbolo da região.

Essa relação começou quando ele foi contratado pelo Barça em 1973, depois de fazer o Ajax brilhar com um tricampeonato europeu. Jogou cinco anos no time azul-grená e ainda foi treinador por mais oito (1988 a 1996). Neste período, ganhou com o clube o título que era mais sonhado e único que faltava na época, a Liga dos Campeões (1992).

É visto como o grande mentor da escola de futebol do clube que se perpetua até os dias de hoje, com toque de bola e manutenção. Passou a ter status de ser intocável na cidade e que assombra os técnicos e jogadores do clube pela relevância de seus comentários, alguns deles muitas vezes críticos, como os sobre Neymar, que chegaram a repercutir fortemente no país.

Cruyff, no entanto, em momento algum questionou o futebol do brasileiro. Já fez diversos elogios ao seu futebol, porém indica que um jovem de 21 anos não pode chegar com status de estrela e se preocupa que isso possa atrapalhar o elenco.

“O Neymar tem que saber lidar com as críticas, elas fazem parte. Daqui a pouco ele supera essa fase”, recomendou Romário em entrevista ao UOL Esporte. E a dica para o ex-santista vem de alguém que tem bagagem sobre o assunto e mostra um pouco do que Cruyff sente pelo Brasil.

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O hoje deputado federal foi comandado pelo holandês no Barcelona. O resultado? Cruyff simplesmente batizou Romário de "gênio da grande área". Se quer tirar um sorriso do crítico ex-técnico e jogador, é só perguntar de Romário. Adjetivos não vão faltar.

“O melhor jogador que eu cheguei a treinar? Tem que ser o Romário. Você poderia esperar qualquer coisa dele em campo. A técnica dele era algo extraordinário”, já disse Cruyff quando perguntado sobre o brasileiro.

O encanto do exigente holandês era tanto que ele já contou ao jornal francês L´equipe com bom humor um pedido do Baixinho para que fosse liberado para ficar fora do clube dois dias para curtir o Carnaval. Cruyff quis testar a genialidade do pupilo. “Falei pra ele: se você fizer dois gols no jogo, te dou dois dias a mais de descanso que o restante da equipe'. No dia seguinte, ele marcou seu segundo gol com 20 min de jogo e imediatamente fez um gesto para mim pedindo para sair.”

Romário, com sua tradicional marra, diz que o chefe era um cara exigente. Mas era só fazer o que ele gostava, com genialidade e gols, para ele mostrar a sua faceta menos ácida. “Ele sempre me cobrou muito, mas não tinha problema porque eu sempre correspondia e ainda fazia mais do que ele me pedia”, lembrou.

Mas Romário está longe de ser o único brasileiro que Cruyff enche a boca para falar. Suas críticas às seleções do país que jogaram as últimas Copas do Mundo são sempre por querer ver nelas o futebol de outros time que os encantaram, como as seleções brasileiras de 70 e 82.

Ele citou os grandes craques brasileiros do qual gosta ao demonstrar seu lado “rabugento” ao comentar a seleção de Dunga na Copa de 2010. “Eu nunca pagaria uma entrada para assistir a um jogo dessa seleção brasileira. Para onde desapareceu o futebol brasileiro?”, questionou, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo. “Olho para esse time e lembro-me de pessoas como Gerson, Tostão, Falcão, Zico ou Sócrates. Agora, só vejo Gilberto, (Felipe) Melo, (Michel) Bastos, Julio Baptista", afirmou. "Onde está a mágica brasileira?”, resmungou.

Tostão, um dos citados, viu a declaração com absoluta naturalidade. “Lembro que na Copa antes que antes da desclassificação ele falava que não pagava pra ver o Brasil jogar, mas ele quis dizer que a lembrança do futebol brasileiro dele é tão rica e que aquele era um time que não encantava e ele não admitia aquilo. Era apenas opinião dele pelo conceito que tem de futebol.”

Uma das demonstrações de respeito de Cruyff com o futebol brasileiro foi quando o Barcelona perdeu a final do Mundial Interclubes de 1992 para o São Paulo, no Japão. "Se for pra ser atropelado, que seja por uma Ferrari. O São Paulo jogou como campeão do mundo."

Liderança e tática

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Marinho Peres diz que Cruyff era um jogador com uma inteligência acima da média. Ressalta que ele era um profissional que tinha liderança sobre o grupo do Barcelona e muito respeito. Fazia isso de uma maneira simples.

“O que ele tinha que falar, falava na sua frente. O Cruyff muitas vezes participava das palestras do técnico (Rinus Michels) e fazia a tradução do holandês para o espanhol. A gente confiava em tudo o que ele falava”, lembrou. “Ele era um técnico dentro de campo. Orientava os jogadores nas posições e todo mundo aceitava e dava certo.”

Marinho conta que foi pego de surpresa quando o holandês quis fazer o carrossel no time e pedia para que o zagueiro subisse ao ataque e mudasse de posição. Mas logo acatou por confiar no que lhe era dito.

“Ele jogava em todas as posições, menos no gol. Um dia ele começou a falar pra eu sair da zaga que ele me cobria. E eu falava ´eu sou zagueiro´. Ele dizia ´mas você sabe jogar lá´. Ele falava que era para confundir o sistema tático do rival. Dentro de campo ele era um treinador”, afirmou Marinho.

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