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Rodrigo Mattos

Negociação reforça perda de valor em jogos da seleção. Turner faz parceria

Philippe Coutinho, meia da seleção brasileira - Lucas Figueiredo/CBF
Philippe Coutinho, meia da seleção brasileira Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

09/10/2020 04h00

Com Pedro Ivo Almeida, do UOL, em São Paulo

A três dias de ser realizado, o jogo da seleção brasileira contra o Peru pelas eliminatórias da Copa ainda não foi vendido para nenhuma emissora de TV Aberta do Brasil. Há, por enquanto, um acordo com a Turner para transmissão paga fechada pelo Esporte Interativo Plus em acordo de divisão de receitas - sem pagamento de cota. Esse imbróglio é resultado de uma negociação complicada de oito partidas da competição e também de uma perda de valor da seleção para as televisões.

Como funciona a venda dos jogos classificatórios da Copa no time brasileiro? Cada federação nacional retém os direitos de seus jogos em casa. A CBF vendeu as nove partidas da seleção no Brasil para a Globo dentro um pacote amplo que inclui amistosos até 2022.

Foi uma negociação dura em 2017 que resultou em um acordo que gira entre US$ 2 milhões e US$ 3 milhões pelos direitos por cada jogo, um aumento em torno de 20% em relação ao pacote anterior. A CBF queria US$ 3,5 milhões por jogo, mas ninguém quis pagar.

Depois disso, a Globo tenta desde 2019 negociar a compra dos outros nove jogos em que a seleção será visitante. Só conseguiu fechar com a federação da Argentina, isto é, há oito partidas em aberto.

A primeira questão é que a descentralização dos direitos com federações e representantes torna as conversas quase caóticas. Há uma empresa de marketing chamada Mediapro - que é um grande player mundial de direitos com pés na La Liga - que tem feito o papel de tentar aglutinar os direitos sobre todos os jogos restantes das eliminatórias. A Mediapro pediu US$ 20 milhões pelos direitos de todas as eliminatórias dos outros oito países: isso significaria US$ 2,5 milhões por cada jogo da seleção.

A Globo já botou uma proposta na mesa. Embora não tenha sido possível saber os valores precisos, o montante é bem inferior aos US$ 2 milhões que se pagava pela seleção antes de 2017. A pandemia do coronavírus teve um efeito, mas não é apenas isso. O valor já era menor antes. A Mediapro está bastante reticente para aceitar o valor da Globo.

A Turner fechou um acordo por divisão de receitas do canal pago do Esporte Interativo. Assim, não será pago um valor pela cota das eliminatórias. A aposta é de bombar assinaturas por um mês para assistir as duas rodadas das eliminatórias, com o preço de R$ 20,00. Obviamente, a arrecadação terá grande influência se a Globo vai fechar ou não as compras do Peru para TV fechada.

Há uma percepção no mercado de televisão de que a seleção brasileira já não exerce mais a mesma atratividade sobre o público, tendo perdido espaço para competições de clubes. O torcedor mais aficcionado de futebol reduziu seu interesse pelo time nacional. Em dias de convocação, há até indignação porque atletas são chamados e desfalcam suas equipes.

A seleção brasileira ainda tem valor de mercado porque atrai um público que não é usual do futebol, isto é, pessoas que não acompanham diariamente o esporte, na visão do mercado de televisão.

Para piorar, o fato de a negociação ter se arrastado até às vésperas do reinício das eliminatórias reduz a capacidade das emissoras e empresas televisas de criar um modelo de comercialização estável para os jogos da seleção. Ou seja, passam a valer ainda menos.

Não se sabe no momento se a negociação para os jogos da seleção como visitante terão um acordo. A Globo não vê como uma conversa fácil. Mas é possível que, sim, ocorra um desfecho positivo pois detentores dos direitos como a federação peruana perderiam dinheiro se o contrato não sair. Independentemente disso, o mercado de televisão já sinalizou que a seleção é um produto com menor valor do que antes.

Rodrigo Mattos