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Blog do Rodrigo Mattos


Qual clube ainda é grande no país? Revolução na gestão muda a hierarquia

Athletico-PR ergue taça da Copa do Brasil: não estava no Clube dos 13, mas o status mudou - Jeferson Guareze/AGIF
Athletico-PR ergue taça da Copa do Brasil: não estava no Clube dos 13, mas o status mudou Imagem: Jeferson Guareze/AGIF
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

19/01/2020 04h00

Quando fundaram o Clube dos 13 para o Brasileiro de 1987, os grandes times restringiram a associação aos 12 tradicionais do eixo Rio-SP e Sul-Minas, acrescidos do Bahia. Foram convidados outros times para completar o grupo: Goiás, Sport e Coritiba. Mas eram aqueles 13 ali que, na época, eram vistos pelos cartolas como os grandes clubes, de modo justo ou não.

Durante os 32 anos seguintes, houve fortalecimento e enfraquecimento desses times em uma verdadeira gangorra. Conte aí fatores como rebaixamentos com viradas de mesa e enfim cumpridos, ascensões e quedas de outsiders. Sem contar eternas crises financeiras, frutos de irresponsabilidades de cartolas que minavam e seguem minando os grandes. Mas seguia a presunção ou premissa de um grupo de clubes grandes.

Ocorreu então uma primeira adesão definitiva de um outsider ao grupo: o Athletico-PR pelo seu crescimento técnico e administrativo. Aí esta a questão: o Furacão cresceu dentro do cenário pelos próprios méritos de gestão em processo iniciado lá atrás na década de 90. Era um exemplo isolado. A tradição mantinha o restante razoavelmente estável apesar das subidas e descidas.

Pois bem, o final desta década está mostrando que esse cenário está sujeito a uma mudança muito mais radical do que ocorrera antes. A revolução de gestão feita por uma parte dos clubes grandes —Athletico-PR, Flamengo, Grêmio, Palmeiras e Bahia— já indica que haverá mudanças na hierarquia, seja entre os times mais relevantes, seja entre os outros. Além disso, há a chegada de um novo player, o Red Bull Bragantino, que tem um projeto com promessa de estabilidade maior do que outros times-cometa.

Vejamos também o exemplo do Flamengo que, com seu potencial de torcida, deu um salto de receita à frente dos outros. Não deve significar uma hegemonia se os outros times não ficarem parados, mas, sim, abre uma senhora vantagem. Em relação aos rivais locais, abriu uma distância que, mesmo com trabalho persistente, não será fácil de ser diminuída.

Entre os grandes do Rio, Vasco, Fluminense e Botafogo, estão incógnitas. Um clube como o Bahia, que tem acesso a um mercado bem menor e de menos recursos, já encostou em receitas e tem atualmente uma estrutura de futebol mais competitiva do que os três. O Athletico-PR também já está na frente rompendo o status quo.

Será que o clube-empresa do Botafogo vai emplacar para recuperar terreno? O Fluminense conseguirá ajeitar de fato sua casa financeiramente e criar um projeto viável? O Vasco conseguirá superar seu cenário político caótico? É nessas respostas que reside o tamanho futuro dos três times.

Em São Paulo, o Palmeiras criou um projeto mais estável em relação a receitas com seu estádio, ainda que tenha um bom aporte da Crefisa. Sua distância não é grande como a rubro-negra para os rivais, mas tem um projeto com norte mais definido. O Corinthians gasta aleatoriamente sem resolver seus problemas estruturais como a dívida do estádio, e o São Paulo está preso em uma teia de cardeais que pensam o futebol como se estivéssemos 10 ou 15 anos atrás. A agremiação são-paulina conseguirá modernizar sua estrutura de poder? O clube alvinegro topará dar o passo atrás necessário para depois saltar ao futuro?

O exemplo mais notório de como a antiga forma de gerir futebol faliu é o Cruzeiro. De campeão e gastador, transformou-se em caloteiro, depois rebaixado Agora, tenta sobreviver. A torcida cruzeirense entendeu certamente a importância da gestão financeira e responsável no clube em meio essa crise toda. Caso arrume um plano de recuperação viável, não deve repetir os erros da gastança. Aliás, cada vez mais torcedor tem consciência de como a gestão ampla impacta no seu time e, assim, cobra seu dirigente por resultados.

Porque agora a conta não demora mais 10 a 20 anos para chegar. Os mecanismos de controle estão se fechando com o tribunal da CBF, o novo fair play financeiro, regras atualizadas de tribunais da Fifa. Mesmo a Justiça brasileira tem sido mais célere em execuções de dívidas fiscais ou cíveis. A conta pode chegar no ano seguinte, ou no máximo em dois anos depois da gastança. Escorregou na gestão? Vai cair mais à frente. E as quedas são mais doídas, como se vê no caso cruzeirense com cota reduzida de TV para sobreviver.

Isso tudo porque o clube-empresa ainda não está implantado no país com uma lei em discussão no Congresso, aprovada na Câmara. A lei tem vários problemas e benesses indevidas aos clubes. Mas é certo que, com redução de impostos, vai atrair mais clubes ao formato de empresa, assim como investidores. Não será o eldorado como alguns vislumbra. Mas, sim, deve ter dinheiro para quem estiver preparado, nem que seja para captar por fundos.

E, se não entrar dinheiro nos grandes clubes, pode entrar em menores como ocorreu no Red Bull tornando o ambiente mais competitivo. Competição é uma palavra-chave para entender o que está ocorrendo na gestão dos clubes.

Dirigentes terão de ser mais capacitados para negociar contratos de TV, sem bravatas sobre favorecimento a rivais, e sim com dados objetivos de mercado. Terão de ser criativos para criar novas formas de receitas com engajamento de torcedores, tratar melhor seus fãs para fideliza-los. No futebol, a gestão só fará sentido se focada em eficiência e não em marketing de jogador para capa de jornal (nem se lê mais capas de jornais).

Quem não acompanhar as novas práticas vai ganhar menos dinheiro e gastá-lo de um ainda mais inadequado. Pode sobreviver no peso da torcida, da tradição, mas vai ficar cada vez mais irrelevante e preso ao passado. Não há outro caminho e as redes protetoras estão sendo retiradas uma a uma para os incompetentes. Quem não souber se manter no trapézio vai cair. Desenha-se uma nova geografia de forças no futebol brasileiro e o passo de cada clube determinará qual será seu espaço.

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