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Blog do Perrone

Aniversário real: o dia em que descobri como parar Pelé em campo

O ex-jogador Pelé, que completa 80 anos - Sandro Baebler /Hublot via Getty Images
O ex-jogador Pelé, que completa 80 anos Imagem: Sandro Baebler /Hublot via Getty Images
Perrone

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

23/10/2020 04h00

Era preciso ter cuidado com o que se falava e, principalmente, com quem ouvia em Santiago nos anos 1980. Nas ruas explodiam conflitos com o exército do ditador e general Augusto Pinochet de um lado e cidadãos, principalmente estudantes, do outro.
Eu, com uns 18 anos, acabara de chegar de São Paulo após uma aventura de quase três dias num ônibus que ameaçava nos deixar na mão o tempo todo.
Juanito Mena, meu simpático anfitrião, amigo de um dos meus tios, estava empenhado em me proporcionar férias divertidas, apesar do clima de terror no país.
Logo o Rei das Bicicletas, como ficou famoso em seu ramo, percebeu minha paixão pelo futebol e puxou papo sobre outro rei, o do futebol.
"Quer conhecer o melhor marcador do Pelé?", disparou Juanito.
A pergunta me deu um nó na cabeça. Não existia Google naquela época, mas eu lia muito sobre Pelé. Por isso sabia que existiam vários defensores que de alguma forma ostentavam o título de "o maior marcador" que o Rei já teve.
Antes que eu desapontasse meu novo amigo, ele deu sua versão sobre "o" carrasco do Rei.
"O maior marcador do Pelé foi o Chita Cruz. Ele é chileno, meu amigo. Se quiser te levo
na casa dele", disse ele.
Eu me lembro que quando entramos na sala da espaçosa casa do ex-jogador da seleção chilena, Humberto "Chita" Cruz estava sentado numa poltrona. Assim que ele se levantou pensei: "zagueiro com esse tamanho? Pelé deve ter jantado esse cara".
No dia fiquei com vergonha de perguntar, mas antes de escrever esse texto pude indagar a altura de Chita Cruz ao Wikipedia sem constrangimentos: 1,65 m.
Por alguns segundos, cheguei a desconfiar que era uma peça (ou trolagem como se diz hoje em dia).
Mas a riqueza de detalhes sobre os jogos com Pelé e a respeito de Garrincha na Copa de 1962, no Chile, me convenceram de que não estava falando com um impostor, mas sim com um ex-jogador que disputou dois Mundiais (1962 e 1966) e se destacou no Colo-Colo.
O papo estava fascinante. E sem ninguém se preocupar se havia delatores de Pinochet nos ouvindo. Mas faltava fazer a grande pergunta: "você foi o melhor marcador de Pelé (assumi o fato como verdade absoluta para retribuir tanta gentileza), então me conta. Qual era o melhor jeito de marcá-lo"?
Chita foi humilde, disse que existiam outros grandes marcadores e, então, contou sua estratégia mais radical e eficiente: "já tinha tentado de tudo para marcar o Pelé naquele jogo. Até que, num lance, tirei o calção dele. E ele parou. Foi o único jeito".
Esqueci os detalhes, mas a Internet guarda algumas entrevistas nas quais o chileno se diverte contando que numa partida no Maracanã tentou segurar Pelé pelo ombro, mas foi arrastado do meio-campo até a área. Suas mãos foram descendo até que ele puxou o calção do adversário ilustre, freando o brasileiro.
Numa das entrevistas, ele diz que, por enfrentar diversas vezes Pelé, ganhou força para encarar outros grandes jogadores: "se eu podia marcar Pelé, poderia marcar qualquer um", afirmou.
Naquela tarde, o chileno, que virou amigo de Pelé, usou vários argumentos para justificar sua opinião de que o ex-jogador do Santos era o melhor de todos os tempos.
Suas palavras integraram meu arsenal para defender o reinado, que estava sob ataque. Maradona tinha acabado de levar a Argentina ao título mundial de 1986 no México, onde o Brasil de Pelé e de muitos craques tinha triunfado em 1970.
Os argentinos faziam barulho para colocar Maradona no trono.
Eu achava aquilo um absurdo, um golpe. Só vi um ou dois jogos de Pelé ao vivo, pelo Cosmos, no final de sua carreira. Por outro lado, assisti Maradona no início, no auge e no fim. Mas cresci ouvindo nas reuniões de família sobre as façanhas e causos de Pelé.
Meu "causo" preferido é o de que ele teria cobrado uma falta para fora, mas o juiz deu gol porque "dessa posição o Pelé não erra, furou a rede".
Somei as histórias a tudo que pude ler sobre o maior jogador de todos os tempos, aos poucos vídeos disponíveis e fortaleci minha convicção de que dificilmente haverá jogador igual a Pelé.
Tirando uma ou outra votação, Pelé chega hoje aos 80 anos com seu status de maioral intocado.
Porém, o futuro é ameaçador para a famosa majestade. Não que eu acredite que Messi ou Cristiano Ronaldo possam assumir o reinado. O problema está nos futuros jovens súditos. Quem vai apontar o maior de todos os tempos daqui uns 20 anos serão caras que não viram Pelé jogar e, em sua maioria, não terão nem conversado com quem viu.
O material para convencer futuras gerações sobre a realeza de Pelé é irrisório perto da fartura de vídeos, documentários e estatísticas disponíveis sobre Messi e Cristiano Ronaldo ou quem mais aparecer.
E o que dizer da molecada brasileira de hoje que vê futebol europeu com tanta frequência que é capaz de falar com mais facilidade a escalação do Liverpool do que da seleção brasileira.
Nesse cenário, não é absurdo imaginar que o aniversariante do dia perca seu reinado para Messi, por exemplo. Se acontecer, já deixo registrado aqui meu protesto para o caso de alguém tropeçar nesse texto quando isso rolar. Espero que nessa data as entrevistas de Chita Cruz e de tantos outros que enfrentaram Pelé tenham resistido ao tempo para ajudar a mostrar o tamanho desse craque.

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