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Mauro Cezar Pereira

O caso Robinho e nossa amnésia coletiva jornalística

Robinho voltou ao Brasil depois de três anos jogando na Turquia após condenação por estupro pela justiça da Itália - Ettore Chiereguini/AGIF
Robinho voltou ao Brasil depois de três anos jogando na Turquia após condenação por estupro pela justiça da Itália Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

22/10/2020 04h00

Em 2017 Robinho foi condenado a nove anos de reclusão, por estupro, em uma boate de Milão, na noite de 22 de janeiro de 2013, época na qual defendia o Milan. O atacante atuava pelo Atlético Mineiro quando foi divulgada a sentença, o que apressou sua saída do Brasil, em meio a protestos em Belo Horizonte, principalmente de atleticanas.

O jogador optou por um roteiro que simplesmente o fez desaparecer e praticamente ser esquecido. Robinho foi jogar no Sivasspor, da Turquia, e continuou naquele no país vestindo a camisa do Istanbul Basaksehir. No período, raramente foi lembrado pela imprensa brasileira que o ídolo de muitos era homem condenado pela justiça italiana.

Somente três anos depois, quando recontratado pelo Santos, a pena a ele decretada na Itália foi finalmente lembrada. Suas idas e vindas ao Brasil, até então, eram tratadas com naturalidade e a pena por estupro parecia não existir. Robinho não costumava ser questionado a respeito, mídia e sociedade pareciam simplesmente ter esquecido aquilo.

Tanto que em junho de 2019, por exemplo, participou de evento beneficente em Piracicaba, organizado por Elano, seu companheiro de Santos no título nacional de 2002 e na seleção brasileira. O evento, chamado "Gol Solidário", teve cobertura sem que os repórteres lembrassem com alguma ênfase a decisão da juíza Mariolina Panasiti, em Milão.

Com a volta de Robinho ao Santos, o tema foi ressuscitado. Não de maneira espontânea, mas despertado por reações indignadas nas redes sociais. Só aí a mídia deu tratamento crítico, adequado, jornalístico à situação. Afinal, um homem condenado em outro país estava sendo reapresentado com toda pompa em um grande clube, como se nada tivesse acontecido.

O que explica tamanho olvido coletivo? Por que a condenação por estupro desapareceu do noticiário e, mesmo quando ele vinha ao Brasil, o assunto nem sempre era abordado? E não é caso isolado, mas um entre outros fatos importantes, sérios, ignorados pela sociedade e por uma imprensa mais preocupada com o próximo escândalo, que ainda nem aconteceu.

A esse episódio soma-se o caso dos dez garotos mortos no CT do Flamengo. Fora da mídia, retornou com força quando a tragédia fez um ano e voltou a desaparecer. No dia 8 passado, o incêndio no Ninho do Urubu completou 20 meses. Raríssimos lembraram. E embora existam movimentações na justiça e o drama dos familiares não tenha fim, o tema segue de lado.

Já o brasileiro Robson Oliveira chega aos 584 dias de detenção na Rússia. Seu caso fica fora da imprensa por meses, independentemente dos fatos que ocorram paralelamente, na justiça russa ou nos esforços feitos para que o governo brasileiro ajude, por vias diplomáticas, a resolver a situação.

Recentemente, o assunto só recuperou espaço na imprensa graças a uma hashtag que se espalhou pelas redes sociais: #JustiçaParaRobson. Quantos jornalistas mantêm contato com o advogado do rapaz, para acompanhar eventuais novidades? Quantos repórteres ligam regularmente para o Ministério Público e advogados das famílias dos garotos do Ninho?

No futebol, há mais jornalistas, que nem sempre merecem assim serem chamados, interessados em especulações sobre contratações, muitas vezes contaminadas pelo vírus da fake news. Fora do esporte, claro, também há essa, digamos, amnésia jornalística. Como em casos como o da boate Kiss, que voltou às páginas em janeiro, quando o incêndio completou sete anos.

As lembranças de fatos relevantes após períodos esquecidos dão a sensação de que a imprensa se pauta pelo Facebook, que lembra efemérides e fatos passados quando fazem aniversário. A morte de 242 pessoas retornou ao noticiário nesta semana devido a uma decisão da justiça: sócios terão que ressarcir cofres públicos pelas despesas do INSS derivadas da tragédia.

O episódio Robinho nos oferece uma reflexão sobre a necessidade de, ante fatos de maior relevância, produzir matérias que dão sequência ao anteriormente publicado. Temas que exigem sequência, um atento acompanhamento posterior. Lição aprendida nas primeiras aulas na faculdade, quando um professor nos explicou, no jargão jornalístico, o que é suíte.

Por que tantos de nós parecemos ter esquecido essa aula?

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL