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Flamengo volta a jogar sem público, sem TV e castiga sua própria torcida

Rodolfo Landim, presidente do Flamengo, em live do clube no Maracanã: sem TV - Marcelo Cortes / Flamengo
Rodolfo Landim, presidente do Flamengo, em live do clube no Maracanã: sem TV Imagem: Marcelo Cortes / Flamengo
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

18/06/2020 04h00

Após 96 dias, mais de três meses, quase 14 semanas, o Flamengo voltará a jogar nesta quinta-feira, contra o Bangu. Partida do Campeonato Carioca em meio à polêmica causada pelo retorno durante alta dos casos de novo coronavírus pelo Brasil. O time mais caro do país atuará sem torcida presente, tampouco transmissão, seja pela televisão ou via internet.

Frustrante para o rubro-negro, que mesmo morando no Rio de Janeiro ficará sem ver os jogadores em ação, pois obviamente não haverá venda de ingressos. Mais ainda para o sócio-torcedor, que segue desembolsando uma quantia mensal sem o benefício principal que o clube lhe oferece, o acesso ao estádio. E não há sequer o consolo de poder ver pela TV ou internet.

Quando Flamengo e Globo começaram a discutir sobre a transmissão dos jogos do Campeonato Estadual, ainda em 2019, um impasse já se mostrava inevitável. O clube pede algumas vezes mais o que o grupo de comunicação oferece, endureceu a negociação e preferiu abrir mão dos R$ 18 milhões acenados aos rubro-negros e seus rivais cariocas de Série A nacional.

A Globo insistiu em não pagar mais ao Flamengo do que a Botafogo, Fluminense e Vasco. Obviamente, é direito dos dirigentes flamenguistas não aceitar, afinal, ninguém pode ser obrigado a vender algo que lhe pertence por menos do que acredita que valha. Mas no final, com a pandemia do novo coronavírus, o prejuízo ficou claro, com a perda de outras receitas.

Os cartolas apostaram na saúde financeira do clube em ótima fase para abrir mão do que a televisão lhe acenava. Mas ficaram sem bilheteria, não só no Estadual como, ao que tudo indica, nas demais competições. Já enfrentam saída de patrocinadores, queda de pay-per-view e na arrecadação do programa de associados. Em meio à quarentena, o cenário mudou.

Para os jogos restantes do Carioca, evidentemente a Globo ficou em posição mais confortável, fez sua proposta proporcional sem elevar os valores, mas o Flamengo, embora tenha reduzido a pedida, manteve as cifras reivindicadas bem acima dos rivais. Direito do clube? Óbvio. Mas e o torcedor, alguém na direção do clube em algum momento pensou nele?

O acordo que permitiu a exibição de Flamengo 2 x 1 Portuguesa, último compromisso da equipe antes da paralisação do futebol, em 14 de março, já sem público, sinalizava a possibilidade de um novo consenso, que até agora não veio. Quando não fecham com a TV, os dirigentes impedem o torcedor de ver os ídolos em campo, o que seria confortante nesse difícil momento.

Claro que os defensores incondicionais de cartolas minimizarão a própria decepção, irão às redes sociais xingar a Globo e o autor desse texto. Mas eles, como todos os rubro-negros, passarão a quinta-feira com uma estranha sensação, de saber que seu time está jogando num Maracanã vazio em meio à trágica pandemia. E que sequer é possível vê-lo à distância.

Dirão os cartolistas militantes que o clube ofereceu acordo com a televisão para alternar ou compartilhar as pelejas no canal rubro-negro no YouTube. Mas do ponto de vista comercial seria evidentemente pouco viável colocar de graça na internet partidas que já foram vendidas em pay-per-view. Difícil...

Seria razoável ceder um pouco desta vez em nome da torcida, para prestigiar a "Nação". Mesmo que o valor proposto pela Globo não seja o que classificariam como satisfatório. Que fosse dado o recado público à empresa, algo como "para 2021, o valor terá que ser outro". Ela teria o direito de recusar.

O Estadual naturalmente significa prejuízo, maior ainda sem qualquer caraminguá da TV. Afinal, o mundo é só negócios e dinheiro? E sem a oportunidade de ver o time, em grande fase, os mais castigados são os torcedores do próprio Flamengo, sócios ou não. É, falta sensibilidade.

Mauro Cezar Pereira