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Leclerc atinge o estrelato em um fim de semana de lágrimas

Charles Leclerc, da Ferrari, celebra a vitória no GP da Bélgica com homenagem ao piloto e amigo Anthoine Hubert, morto no dia anterior - Francois Lenoir/Reuters
Charles Leclerc, da Ferrari, celebra a vitória no GP da Bélgica com homenagem ao piloto e amigo Anthoine Hubert, morto no dia anterior Imagem: Francois Lenoir/Reuters
Lito Cavalcanti

Envolvido de diversas formas com o automobilismo desde o início dos anos 60, Lito Cavalcanti completa 50 anos de profissão como o jornalista de esporte motor mais publicado no Exterior.

02/09/2019 16h55

O triunfo de Charles Leclerc ontem (1º) na Bélgica foi mais do que uma vitória. Não só por ter sido a primeira de sua carreira, tampouco por ter sido a primeira da Ferrari nesta temporada. Seu principal efeito foi marcar, nitidamente, a ascensão do jovem monegasco ao cobiçado posto de principal piloto da Scuderia Rossa - ele forma agora, junto com Max Verstappen, a dupla de jovens que lutarão com o pentacampeão Lewis Hamilton pela supremacia na Fórmula 1.

Para isso, Leclerc teve de trancar em algum compartimento de sua alma a dor de ter perdido no dia anterior um de seus melhores amigos, o francês Anthoine Hubert, vítima de uma batida em T a quase 275 quilômetros por hora na corrida de F2. Hubert, Leclerc, Pierre Gasly e Esteban Ocon começaram a correr de kart na mesma época, 14 anos atrás. Cresceram juntos e nos últimos anos compuseram o quarteto que fazia sonhar o automobilismo francês. Mas a vida deve continuar, desde sempre eles sabem que o automobilismo é permeado de riscos, e que, por mais que se busque incessantemente, não existem carros, pistas nem medidas de segurança totalmente eficientes.

Depois de dominar duas das três sessões de treinos livres, Leclerc brilhou intensamente na prova de classificação. Aproveitando a descomunal vantagem da Ferrari em termos de velocidade máxima, ele bateu seu companheiro de equipe, o tetracampeão Sebastian Vettel por nada menos de 0s748 - ressalte-se que os dois tinham em mãos carros, motores e pneus exatamente iguais.

O grande desafio, porém, seria manter a supremacia na corrida. Há enorme diferença entre ser o mais rápido em uma só volta (quando o desgaste dos pneus não tem a menor consequência) e se manter à frente em uma sequência delas. Era nisso que a grande rival, a poderosa equipe Mercedes, apostava. E foi nisso que Leclerc provou sua excelência.

Administrar o desgaste dos pneus é hoje uma das mais valiosas qualidades de um piloto de Fórmula 1. Concebidos e produzidos para proporcionarem níveis altíssimos de aderência, os pneus atuais têm também duração proporcionalmente inversa. Quanto mais grudam no asfalto, menor sua vida útil.

O propósito é impedir que uma corrida seja definida antes das voltas finais. Foi contra isso que Leclerc precisou lutar. Lutou, venceu e se firmou como um dos melhores pilotos da atualidade. Contou com a ajuda do companheiro Sebastian Vettel. Incapaz de conviver tão bem com as regulagens necessárias que favorecem o ganho de velocidade máxima, ele se submeteu à escolha da Ferrari e se mostrou um valioso homem de equipe.

Para atingir as altíssimas velocidades que seriam sua principal arma na luta contra as Mercedes, os engenheiros reduziram ao mínimo o ângulo a inclinação das asas traseiras e adotaram asas dianteiras que também reduzem drasticamente a resistência do ar. Nas duas retas da pista belga, Leclerc e Vettel ganhavam um segundo em relação a Hamilton e seu companheiro Valtteri Bottas.

Em contrapartida, essa configuração lhes custava quatro décimos de segundo por volta no sinuoso segundo setor. Ela diminuía a pressão aerodinâmica e sacrificava os pneus traseiros, que passavam a escorregar, um comportamento que Vettel não consegue contornar com a mesma desenvoltura de Leclerc. Mas tudo somado e dividido, a conta final mostrava uma vantagem de seis décimos de segundo para a Ferrari.

Na prova de classificação, o alemão passou pelo ponto de aferição de velocidades, situado no fim da reta principal, a 317,7 quilômetros por hora; Leclerc, a 316. Valtteri Bottas, a 309,9; Lewis Hamilton a 309,6. No segundo setor, a maior pressão aerodinâmica dos Mercedes fazia a diferença cair verticalmente: Leclerc ainda era o mais rápido, com 214,6km/hora, mas Bottas se aproximava muito, com 214,3; Vettel, com menor angulação de asas do que Leclerc, registrava 212,4; já Hamilton atingia apenas 210,4, evidenciando a opção por maior aderência e mais proteção aos pneus.

Leclerc fez a pole position com um tempo de 1min42s519; Vettel foi o segundo, 0s748 atrás de seu companheiro e apenas 0s015 à frente de Hamilton e 0s148 de Bottas. Estava escrito o roteiro, e definidos os papéis de cada piloto. Leclerc e Hamilton lutariam pela vitória, Vettel e Bottas fariam o jogo de suas equipes.

Leclerc e Hamilton executaram à perfeição as táticas que lhes foram impostas e trouxeram emoção às últimas voltas. Foi uma demonstração enfática da precisão com que suas equipes acertaram o momento da troca dos pneus macios com que iniciaram a corrida para os médios, que favoreciam mais a Mercedes do que a Ferrari, como mostrara a simulação de corrida feita por todas equipes na sexta-feira.

Ao entrar nos boxes para trocar pneus, na 21ª volta, Leclerc tinha 4s389 de vantagem sobre Hamilton, que entrou nos boxes uma volta mais tarde. Na 24ª, quando os pneus já estavam aquecidos, a diferença tinha aumentado para 6s485 porque a Ferrari havia sido um segundo mais rápida na troca . Hamilton tinha 20 voltas para atacar, Leclerc tinha 20 voltas para se defender. Ao cruzarem a linha de chegada, a diferença entre eles foi de 0s981.

Na disputa entre as torcidas, muitos gritaram que, se a corrida tivesse uma volta a mais, Hamilton teria vencido. O fato é que a Ferrari e Leclerc cumpriram seu roteiro com precisão. Hamilton só chegou a menos de um segundo de Leclerc (diferença mínima para poder abrir a asa) quando já não adiantava mais, na bandeirada. Uma volta mais cedo e Hamilton teria aberto a asa traseira e passar Leclerc tão facilmente como passara Vettel na 32ª volta. A corrida tinha 44, e a Ferrari ganhou.

Novos valores

O destaque da corrida foi Alex Albon. Largou na 17ª posição e chegou em quinto. Mais do que isso, fez duas ultrapassagens que tiveram a marca do brilhantismo: uma por fora sobre ninguém menos do que Daniel Ricciardo; a outra com duas rodas na grama, na reta principal, sobre Sérgio Perez. Em um momento em que a estrela da companhia Max Verstappen tem uma recaída e abandona a prova antes da segunda curva, o anglo-tailandês deu à Red Bull o melhor resultado que se pode esperar de uma prova em que os dois carros Ferrari e os dois Mercedes chegam ao final.

O mesmo se poderia dizer de Lando Norris, que esteve sempre em quinto, mas foi traído por uma quebra do motor Renault na última volta. Já Antonio Giovinazzi parece ter assinado sua sentença ao bater na 42ª volta e jogar fora um nono lugar que daria à Alfa Romeo motivo para sorrir em um dia em que sua principal esperança de pontos, Kimi Raikkonen, foi abalroado por um precipitado Max Verstappen. O finlandês chegou em um inútil 16º lugar depois de largar na invejável sexta posição.

A reação dos desprezados

Destacaram-se também as reações de Pierre Gasly e Nico Hulkenberg, descartados por suas equipes originais. Gasly, mandado de volta à Toro Rosso para desempenho insatisfatório na Red Bull, superou seu novo companheiro Daniil Kvyatt na prova de classificação e chegou em nono, na zona de pontos. De volta à casa onde brihou no ano passado, Gasly mostrou que pode trilhar o mesmo caminho que levou Kvyatt de decepção a piloto respeitável. Distante do ambiente pesado da nave-mãe, ambos tiveram ontem atuações dignas de nota.

Já Hulkenberg, oficialmente descartado pela Renault em favor do jovem (e altamente promissor) Esteban Ocon, foi oitavo e contribuiu com quatro pontos que permitiram à Renault se manter na frente da emergente Racing Point no Campeonato Mundial de Construtores. Seu destino pode ser a Haas, em substituição a Romain Grosjean, ou a Alfa Romeo, no lugar de Giovinazzi.

Brilho na base

Pedro Piquet obteve finalmente a vitória que vinha escapando por entre seus dedos desde o início do campeonato da nova Fórmula 3. Diante das equipes de F1, o filho mais novo do tricampeão Nelson Piquet dominou a corrida de forma enfática: largou em segundo, tomou a ponta na reta Kemmel, que sucede as velozes curvas Eau Rouge e Raidillon e daí para a frente mostrou talento e inteligência ao administrar a liderança. Sexto colocado no campeonato, Pedro já não tem chance de chegar ao título nas quatro corridas que restam, mas sua ascensão tem sido notada e comentada por quem está de olho na nova geração.

Na Itália, o jovem Igor Fraga comprovou mais uma vez sua enorme qualidade. Campeão mundial de carros de Grã-Turismo (e contratado pela McLaren para sua equipe de E-automobilismo), Fraga obteve uma vitória, um segundo e dois terceiros lugares nas quatro provas do Campeonato de Fórmula 3 Regional disputadas neste fim de semana em Imola. Correndo por uma equipe menor, a DR Fórmula, Fraga tem sido o único a bater a poderosa Prema, cuja superioridade a faz ser vista como a Mercedes da categoria. Nas duas vezes em que ela foi batida, foi Fraga o vencedor.

Enzo Fittipaldi, um dos pilotos da Prema, não teve seu melhor fim de semana, e mesmo assim levou mais uma vitória para casa. O problema é que, apesar de ser o segundo no campeonato, está muito atrás do dinamarquês Frederik Vesti, que também corre pela Prema.

Na F Renault, outra esperança brasileira, Caio Collet, obteve mais um pódio ao chegar em terceiro em Nurburgring. Quinto colocado no campeonato e líder absoluto entre os estreantes, Caio ainda tem oito provas pela frente para tentar melhorar sua posição final. Certamente ele fez sorrir seu empresário, o francês Nicolas Todt - mesmo que ele estivesse ocupado comemorando a primeira vitória na F1 de um de seus protegidos, o monegasco Charles Leclerc.

Lito Cavalcanti