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Silverstone pode mudar os rumos da Fórmula 1

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Lito Cavalcanti

Envolvido de diversas formas com o automobilismo desde o início dos anos 60, Lito Cavalcanti completa 50 anos de profissão como o jornalista de esporte motor mais publicado no Exterior.

08/07/2019 11h58

Se existe um circuito que merece ser classificado como catedral da Fórmula 1, esse circuito é Silverstone. Palco da primeira corrida do campeonato mundial, em 1950, com direito à presença do rei George VI, ele teve origem nas pistas de um dos aeródromos de onde os bombardeiros americanos levantavam voo para atacar a Alemanha nazista na II Grande Guerra. Foi lá que foram escritas algumas das páginas mais gloriosas da história da Fórmula 1.

Silverstone privilegia os pilotos ousados. Nos anos 80, foi apelidado Silvastone, em referência ao domínio que lá exercia um jovem de nome Ayrton Senna da Silva que já despontava para o estrelato; hoje, é o principal reduto de Lewis Hamilton, detentor do recorde de volta, de pole position e de tempo de corrida. Mas ousadia também é a marca do holandês Max Verstappen, hoje visto como o legítimo herdeiro de Ayrton Senna e um rival à altura de Hamilton.

Mesmo sem retas tão longas, as velocidades médias são elevadíssimas, graças às muitas curvas velozes. No ano passado, Hamilton percorreu os 5.891 metros em 1min25s892, a média foi de 246,910 quilômetros por hora. Quem recebeu a bandeirada na frente foi Sebastian Vettel: ele cobriu as 52 voltas em uma hora, 27 minutos, 29 segundos e 784 milésimos, à média de 209,972 km/hora, provando na pista inglesa que a Ferrari era o melhor carro do ano.

Mais uma vez, pode-se esperar uma batalha entre a eficiência aerodinâmica (leia-se Mercedes) e a potência dos motores (leia-se Ferrari). Mas a verdade é que as chances de um triunfo da Mercedes neste fim de semana são maiores. Livre do calor que a rebaixou a mera coadjuvante no Grande Prêmio da Áustria, a equipe anglo-alemã deve voltar ao habitual favoritismo.

Apenas 100 metros acima do nível do mar, Silverstone não apresenta o ar rarefeito que, por ser menos denso, dificultou o funcionamento dos motores. Forçada a alterar drasticamente a carenagem para melhorar a refrigeração, a Mercedes abriu mão de boa parte da pressão aerodinâmica. Como se não bastasse, teve de diminuir a potência dos motores para sobreviver aos mais de 35 graus de temperatura ambiente. Mesmo assim, foi amplamente batida pela Ferrari e pela Red Bull, esta última movida pelo até então desprezado motor Honda.

Para a Inglaterra, a previsão do tempo é de temperatura em ascensão, de 20 graus Celsius na sexta-feira a 22 no domingo. Como por lá a chuva faz parte do cardápio cotidiano, é quase certa a ocorrência de pancadas de chuva na sexta-feira e no sábado. Isso torna ainda menos previsível o desempenho de cada um, já que o acerto dos carros passa a depender mais da sensibilidade dos pilotos e da experiência dos engenheiros do que dos computadores.

A esperança da Ferrari é a nova filosofia de trabalho citada por Charles Leclerc ao explicar o progresso do carro na Áustria. Lá, tanto ele quanto o tetracampeão Sebastian Vettel tiveram equipamentos à altura da tradição da Scuderia Rossa. Segundo Leclerc, os engenheiros optaram por sacrificar a velocidade final em prol de maior eficiência aerodinâmica nas curvas.

Já a Red Bull, que conta com a genialidade do projetista Adrian Newey, vai depender da confirmação do desempenho do motor Honda que permitiu a Verstappen vencer na Áustria. Com inovações revolucionárias em seu turbocompressor, o motor japonês superou as dificuldades do calor e, mais do que isso, apresentou um ganho de potência nada desprezível. Caso se confirme, esse ganho, aliado à excelência do carro nas curvas, pode dar ao holandês uma chance real de voltar ao alto do pódio.

UMA POSSÍVEL REVIRAVOLTA NA DANÇA DAS CADEIRAS

Uma vitória dele, aliás, cairia como uma luva para Helmut Marko e Christian Horner, os dois dirigentes da Red Bull. São intensos os comentários da saída de Verstapppen no fim deste ano. Seu contrato é até 2020, mas seus empresários admitiram, ainda na Áustria, que há uma cláusula de desempenho que pode liberá-lo, a mesma que permitiu a Vettel se mudar para a Ferrari em 2014.

Normalmente, essas cláusulas liberam o piloto caso ele não esteja entre os três primeiros do campeonato até as férias de agosto, ou seja, após o Grande Prêmio da Hungria. Hoje em terceiro, Verstappen desconversou ao ser perguntado se a vitória na Áustria teria afastado essa possibilidade. Talvez pelas características do circuito, aquela vitória não alterou a decisão, mas um triunfo em Silverstone, sem dúvida, abalaria qualquer intenção de mudança.

A pergunta que fica, porém, é se sair da Red Bull seria o passo correto. O destino do holandês só poderia ser a Mercedes, substituindo Valtteri Bottas, ou a Ferrari, no lugar de Vettel. Mas a chegada de um novo regulamento em 2021 gera dúvidas. Pelo lado financeiro, Ferrari e Mercedes são as mais fortes, com orçamentos anuais de 410 e 400 milhões de dólares, respectivamente. E dinheiro significa maior acesso às tecnologias e aos melhores engenheiros.

Por outro lado, a organização e a disciplina, igualmente importantes na receita de uma equipe vencedora, apontam para a Mercedes e a Red Bull - desde que ela garanta a permanência de Adrian Newey. E se as outras duas têm maiores verbas, os 300 milhões de dólares da Red Bull não chegam a ser desprezíveis.

A única interrogação no caminho da Red Bull é o desempenho do motor Honda, ainda inferior ao da Ferrari (o mais potente da atualidade) e ao da Mercedes. Mas se esta última consegue compensar sua deficiência com um conjunto chassi/motor próximo da perfeição, o mesmo se dá com os carros gerados pela mente inigualável de Newey.

Por isso, uma demonstração de força da Honda em Silverstone poderia convencer o piloto mais cobiçado do momento a cumprir seu contrato integralmente e esperar mais um ano para decidir seu destino.

PARA A F1, UMA MUDANÇA BENÉFICA

Mas se isso não ocorrer e surgir a chance dele se mudar para a Ferrari, as portas da Red Bull se abririam para um retorno de Vettel, ainda muito bem avaliado por Helmut Marko e Christian Horner - a quem ele, Vettel, visita praticamente todos os fins de semana de corrida.

Por seu lado, a Ferrari teria em seus carros os dois nomes que devem tomar as manchetes nos próximos 10 anos, já que Verstappen e Leclerc, ambos com apenas 21 anos, têm longas carreiras pela frente.

Se a opção de Verstappen for a Mercedes, ele faria um par explosivo com Lewis Hamilton. E sua vaga poderia ser ocupada pelo excelente Esteban Ocon, que já tem a promessa de liberação caso Totó Wolff não lhe dê um carro para disputar o mundial do próximo ano.

Some-se a isso um novo regulamento que remunere mais equilibradamente todas equipes, novos nomes como Lando Norris e Carlos Sainz em uma McLaren em plena ressurreição, e o aproveitamento de novatos como George Russell e Alex Albon para que a Fórmula 1 volte a ser empolgante como foi em outros tempos.

Isso tudo, porém, depende do que vai acontecer neste fim de semana na catedral de Silverstone.

Todos esses assuntos serão atualizados por mim e pelo Cassio Politi na próxima edição do podcast Rádio Paddock. Ele pode ser acessado a partir das 11 horas de todas quartas-feiras no Spotify e em vários outros agregadores.

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