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Tales Torraga

REPORTAGEM

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Tentou ajudar e acabou distante: entenda a briga entre Tevez e Centurión

Carlitos Tevez no banco do Rosario Central - Divulgação CARC
Carlitos Tevez no banco do Rosario Central Imagem: Divulgação CARC

Colunista do UOL

26/10/2022 04h00Atualizada em 26/10/2022 09h43

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Agora técnico, Carlitos Tevez fez o que ninguém na Argentina se dispôs: ligou para Ricardo Centurión e ofereceu uma vaga no Rosario Central para 2023. O passo seguinte, porém, foi em falso. Centurión não atendeu as novas chamadas do treinador e ambos acabaram distantes e com a relação bastante estremecida, segundo apurou a coluna.

Centurión fez um forte desabafo há três semanas, quando relatou crises de pânico e falta de perspectiva na carreira. Treinando separado no Vélez Sarfield, ele recebeu o convite de Tevez para jogar pelo Central em 2023. Mas quando Carlitos reforçou o contato, agora com o término do Campeonato Argentino, anteontem (24), Centurión não retornou os contatos ou deu satisfações.

A colegas, Carlitos, enfurecido, comentou que o assunto está encerrado. Desta vez, o seu desentendimento foi tratado como "uma briga entre mudos", pela atitude de Centurión, mas Tevez já demonstrou que não será um técnico comedido. Antes de assumir seu posto no Central, ele atacou o profissional que seria seu braço-direito dizendo "que o futebol não era para cagões".

Tevez contou aos dirigentes do Rosario que o antigo companheiro de Boca está definitivamente descartado para a temporada que vem. A coluna tentou contato com Centurión para saber da sua versão, mas ele não foi encontrado. Este texto será atualizado caso o ex-atacante do São Paulo queira se manifestar.

A dúvida na Argentina agora passa pelas motivações de Centurión em cortar as conversas. As possibilidades passam pela timidez em recusar formalmente ou convite ou a sensação de impotência em levar a carreira adiante, um sintoma que costuma acompanhar pessoas com severos problemas de saúde mental, como sugeria o seu dramático relato.

Centurión, em suas redes sociais, se queixou publicamente do tratamento recebido pelo Vélez Sarsfield. Segundo ele, o clube não facilitaria seu tratamento médico. O Vélez respondeu com um relatório informando todas as faltas do jogador aos treinamentos.

riki - Divulgação San Lorenzo - Divulgação San Lorenzo
Ricardo Centurión, atacante do San Lorenzo
Imagem: Divulgação San Lorenzo

'Cansei de viver'

Sem jogar desde que foi dispensado do San Lorenzo, em maio, Centurión deu uma entrevista tocante à Rádio La Red, de Buenos Aires, no fim do mês passado, descrevendo que atravessa um momento dramático.

"Aguentei muitas coisas, precisava me afastar, me sentia esgotado, tinha ataques de pânico, precisava sair de tudo, por isso decidi assim", falou, sobre sua saída do San Lorenzo, praticamente abandonando os treinamentos. "Muitos não me entendem, mas cansei de viver. Principalmente desta maneira. Foi por este motivo que decidi sair ir do trabalho que me deu tanta felicidade. Nem eu mesmo me aguentava", disse, com a voz embargada.

Centurión está com 29 anos, e não faz parte dos planos do Vélez Sarsfield, clube que detém os seus direitos econômicos. Ele treina na equipe em horário separado dos demais. O atacante não encontra interessados em seu futebol, o que coloca a sequência da sua carreira em sério risco.

"Pensei que o amor da minha filha me faria esquecer um montão de feridas abertas. O amor de um filho é diferente a outro amor e outras perdas. Mas não posso suportar. Me custa olhar nos olhos da minha filha, que está crescendo", seguiu Ricardo, que é pai de Emma, de dois anos.

"Minha vida hoje é como na pandemia. Para o jogador, o futebol é tudo. Quando não o tem, é como estar na pandemia."

"Hoje, ninguém me liga. Claro, um ou dois jornalistas. As pessoas que conheci não me chamam. Você se sente sozinho. Está só sua mãe e sua namorada. Sabia que ia acontecer. Não tenho medo, não escapo disso."

"Se tenho uma oportunidade e começo a treinar, solto tudo de verdade, o vício. É um antes e depois. Não é que não posso deixar o que fiz. Eu posso. Em um mês, estou bem", falou. Em seus tempos de Racing, o presidente Victor Blanco deu declarações públicas afirmando que Centurión era alcoólatra.

"Por sorte, mantenho o salário que recebo do Vélez, é como se eu estivesse jogando. Mas você levanta e não joga. E isso dói. Me colocaram todos os dias para treinar à tarde, para não ter contato com o elenco profissional. Treino uma hora e volto para casa."

"Comecei a faltar nos treinos já quando era profissional. Quando era menor, saía e ia treinar igual. Mais velho, pela cabeça, por um montão de problemas, não ia. Sou o primeiro que gosta de treinar. Mas eu entendo o dirigente. O mais fácil para ele é trazer outro jogador."

"Heinze [Gabriel, técnico do Vélez] me ensinou demais. Ele me matava nos treinos, quando chegava em casa, estava morto, não podia fazer mais nada. Depois, veio a pandemia e, com Pellegrino [Mauricio, seu sucessor], não consegui perder peso. O que perdemos foi o tato, um com o outro."

Boca, Racing...

Centurión jogou no São Paulo em 2015 e 2016, somando 80 jogos e 8 gols. Foi negociado na sequência com o Boca Juniors e recebendo a camisa 10, vivendo bons momentos na Bombonera e criando confusões por indisciplina com o então técnico Guillermo Barros Schelotto.

Apesar do pedido da torcida pela sua permanência, ele decepcionou a comissão técnica e foi negociado com o Genoa, da Itália, onde teve poucas chances. Acabou sendo dispensado por fazer lives em plena madrugada na concentração tomando mate, bebida estimulante consumida especialmente pela manhã.

Centurión voltou então ao Racing, clube que o revelou, e viveu bom momento na Libertadores de 2018, mas foi expulso no jogo decisivo, River x Racing, ao brigar com Enzo Pérez e não render quando o time mais precisou.

No ano seguinte, empurrou o técnico Coudet em um novo River x Racing, saindo da equipe e parando no Atlético San Luis, do México, onde viveu nova polêmica por falta de comprometimento, resultando na saída do então treinador da equipe.

Esta tinha sido a última confusão de Centurión até cortar relações com o Vélez e buscar o San Lorenzo, na décima transferência em exatos dez anos de carreira.

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Centurión no banco de reservas
Imagem: GettyImages

Dificuldade não vem de hoje

Em 2020, Centurión revelou que pensou em tirar a própria a vida dias depois de a namorada morrer após um acidente de carro. Era o segundo choque vivido por ele em poucos meses, pois a tragédia ocorreu enquanto ele se erguia depois de perder a avó, figura de peso em sua vida.

"Os golpes foram muito rápidos, e, se eu não me levantasse depois de dois dias, acho que terminaria com a minha vida. Mas não era o meu momento", disse ele, que afirmou ter conseguido se reerguer para dar orgulho a elas.

"Sei que a realidade é essa, tenho que me levantar e continuar. Vendo minha mãe, minha irmã, pude frear e me uni. Caso contrário, tudo estaria indo para o inferno", falou à TV argentina TyC Sports.

Caso você esteja pensando em cometer suicídio, procure ajuda especializada como o CVV e os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da sua cidade.

O CVV (https://www.cvv.org.br/) funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por e-mail, chat e pessoalmente. São mais de 120 postos de atendimento em todo o Brasil.