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Tales Torraga

REPORTAGEM

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"No Brasil vale tudo. Te arrebentam e ninguém faz nada", dispara Riquelme

Vice-presidente do Boca, Riquelme  observa partida contra o Banfield no estádio Florencio Sola - ALEJANDRO PAGNI / AFP
Vice-presidente do Boca, Riquelme observa partida contra o Banfield no estádio Florencio Sola Imagem: ALEJANDRO PAGNI / AFP
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Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros ? o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

28/07/2021 12h00

Há exatamente uma semana, o Boca Juniors lidava com as consequências da briga que envolveu jogadores, dirigentes e policiais depois da eliminação ante o Atlético-MG no Mineirão. O assunto ainda rende muito o que falar na Argentina, e o vice-presidente de futebol do Boca, Juan Román Riquelme, voltou a fazer pesadas críticas à conduta dos times brasileiros na competição.

"Não estamos contentes com a imagem do outro dia", afirmou Roman à Rádio 10, de Buenos Aires. "O primeiro: é fácil falar sentado em uma cadeira. Mas termina o jogo, você vai caminhando pelo corredor, o segurança te empurra, te acerta um soco. A polícia te joga gás na cara, te arde a cara. Você vai se defender? O que você vai fazer?", questionou o ídolo.

"No Brasil vale tudo. E ninguém faz nada. O Tigre não jogou o segundo tempo [da final da Sul-Americana de 2012]. Eles têm permissão para fazer tudo [os brasileiros]. Te cagan a palo (gíria portenha equivalente a "arrebenta na paulada"). Nos cagaron a palo, mas não aconteceu nada porque ganhamos a Copa. Eu joguei contra o Palmeiras em 2001 e nunca vivi uma coisa igual."

"Estávamos jogando a semifinal de Libertadores e um torcedor invadiu o campo, acertou uma tesoura no bandeirinha e depois deu um peixinho no gramado. No Brasil vale tudo, nos maltrataram bastante na delegacia, fizeram o depoimento durar mais de dez horas. Vejam vocês, o presidente do Atlético-MG estava atirando garrafas e estava em sua casa."

"O que você faz? Entendo que você é jornalista e quer se fazer de santo. Mas se te batem, te jogam aerosol nos olhos...Não estou de acordo com a imagem, mas é preciso se defender", continuou Román.

Riquelme surpreendeu ao declarar torcida ao River Plate contra o Atlético-MG nas quartas de final: "Quero que o futebol argentino vá bem e chegue à final".

Palmeiras x Boca mais louco da história

O Palmeiras x Boca Juniors citado por Riquelme ocorreu no Parque Antarctica em 2001. Era a partida de volta da semifinal da Libertadores. A ida, na Bombonera, foi 2 a 2, com uma arbitragem escandalosa do paraguaio Ubaldo Aquino. Ele deu um pênalti inexistente para o Boca e ignorou uma penalidade clara para o Palmeiras.

Os xeneizes bateram à vontade - especialmente o volante colombiano Serna, o mais violento daquele time. Até o goleiro Marcos sofreu. Caído no gramado, teve a mão pisada covardemente por Burdisso. Os gols do Palmeiras foram de Alex e Fábio Júnior; Barijho e Schelotto marcaram para o Boca.

(Ironia: o Palmeiras x Boca valia também vaga no Mundial para enfrentar o Bayern. O outro finalista da Libertadores seria o Cruz Azul, e mexicanos não iam a Tóquio.

Era o segundo ano seguido em que o confronto definia a passagem para o Mundial. Em 2000, o Boca ergueu a Libertadores em cima do Palmeiras em pleno Morumbi.)

Em entrevista dada em 2012 ao programa Animales Sueltos, da TV argentina América, Riquelme relembrou detalhes do confronto de 2001. A primeira tensão foi logo na chegada do ônibus argentino ao Palestra Itália, quando fecharam o portão que daria acesso ao veículo. ''A torcida veio para cima do nosso ônibus. Ele trepidava'', contou Román.

Depois, quem trepidou foi o Palmeiras.

Aos 17 do primeiro tempo já estava 2 a 0 para o Boca, com um show inesquecível de Riquelme, de só 22 anos, naquele que talvez tenha sido o maior baile de um jogador argentino em cima de um time brasileiro na Libertadores.

No primeiro gol de Boca, de Gaitán, a comissão técnica xeneize simplesmente arrebentou o banco de reservas do Parque Antarctica. O segundo gol foi uma pintura: Riquelme passou por Felipe e Alexandre e chutou rasteiro no canto direito de Marcos.

O Palmeiras descontou aos 36, com Fábio Júnior.

Logo depois, a loucura.

Dois torcedores do Palmeiras deram murro e voadora no bandeirinha colombiano Daniel Wilson, exigindo seis minutos de paralisação do árbitro Óscar Ruiz.

Os argentinos até hoje não entendem como a partida não foi encerrada ali.

Na sequência, o zagueiro palmeirense Alexandre levou um cartão vermelho direto por duas atitudes insanas: um pontapé criminoso no zagueiro Traverso e um pisão na cabeça do volante Serna.

Aí, agrediram o técnico Carlos Bianchi. Expulso na primeira partida, estava em uma cabine do Parque Antarctica, quando tomou uma pedrada que abriu a sua cabeça.

O segundo tempo continuou com o baile de Riquelme, que seguiu levando a melhor sobre as patadas de Argel, Magrão e Galeano - os três, na típica rispidez argentina, enquanto a arte de Román esteve à altura dos maiores craques brasileiros.

''O Galeano me deu um soco na boca. Sem bola. Fui e apertei a mão dele, lhe dando os parabéns. Só queria jogar'', seguiu Riquelme em sua entrevista à TV América, debochando da pressão palmeirense: ''Aquele jogo estava bom, hein?''.

''Com 14 anos eu jogava na favela contra os adultos valendo dinheiro. Era a briga que terminava o jogo. Ninguém me defendia. Por que iria tremer contra o Palmeiras?'', seguiu em sua famosa entrevista, relembrando que na infância ele driblava marcadores que jogavam com um revólver na cintura.

O Palmeiras achou o gol de empate - 2 a 2, gol contra de Bermúdez - no meio do segundo tempo e igualou o placar da ida. A partida foi para os pênaltis, e o Boca despachou o Palmeiras com uma ajuda polêmica: o roupeiro xeneize Roberto Prado, atrás do gol, lia ao goleiro Córdoba um papel com os cantos preferidos dos cobradores palmeirenses. Defendeu os de Alex e Basílio. Arce chutou no travessão.

Para terminar, poucos brasileiros sabem, mas aquele Boca brigava demais entre si, e os jogadores comemoram a classificação no vestiário xingando os dirigentes (entre eles o então mandatário Mauricio Macri, depois presidente da Argentina) e pintando camisetas com ofensas até contra os psicólogos.

Por aquele baile, muitos corintianos batizaram seus filhos de Riquelme.

Não sabiam depois o que fazer quando o ídolo do Boca, de longe, surpreendeu Cássio e tirou o Corinthians da Libertadores de 2013 no Pacaembu.