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OPINIÃO

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Por que Bia Haddad é uma das mais cotadas ao título de Wimbledon

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Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

25/06/2022 04h00

Pela primeira vez desde Maria Esther Bueno, o Brasil tem uma mulher fortemente cotada ao título de um slam em simples. Depois de 12 vitórias seguidas na grama, a maioria das casas de apostas coloca Beatriz Haddad Maia, 26 anos, número 29 do mundo, entre as dez principais candidatas para levantar o cobiçado Venus Rosewater Dish, o prato entregue à campeã de Wimbledon.

Há vários elementos que explicam por que, neste momento específico, Bia é uma das apostas mais interessantes na grama do All England Club.

Tênis sólido, ganhador e vítimas de peso

Bia Haddad, evidentemente, é a principal responsável por seu novo status. Nas últimas três semanas, ninguém foi mais consistente do que ela no circuito feminino. Não só pelo número de vitórias, mas pela maneira em que esses triunfos aconteceram. No período, a paulista mostrou um tênis sólido, com poucos erros não forçados e armas interessantes para a grama.

Bia movimenta-se muito bem para uma jovem de 1,85m, o que é especialmente valioso nesse tipo de superfície. Consequentemente, defende-se bem e exige mais de suas adversárias do que a maioria da elite do tênis feminino de hoje. Além disso, a brasileira vem desenvolvendo uma devolução de saque indigesta para as rivais. Trata-se de mais um ingrediente especialmente eficiente na grama.

Outro elemento que pesa a favor de Bia nas cotações é sua capacidade de ganhar jogos apertados. Apenas nesta temporada de 2022, ela disputou 24 partidas decididas no terceiro set e venceu 20. Uma estatística que chama atenção e destaca seu poder de jogar bem nos momentos mais delicados, quando há pouca margem para erros não forçados.

Tudo isso conspirou para Bia não só conquistar essas 12 vitórias seguidas na grama, mas também para acumular uma lista de vítimas nada desprezíveis. Entre as que tombaram diante da brasileira na grama estão Petra Kvitova, bicampeã de Wimbledon; Simona Halep, ex-número 1 do mundo e também campeã de Wimbledon; e a atual número 5 do mundo, Maria Sakkari. Vitórias de peso geram confiança, confiança traz vitórias e vitórias trazem... mais vitórias. É uma engrenagem que funciona bem lubrificada a favor da número 1 do Brasil.

Ausência de russas e bielorrussas

Por conta da invasão militar à Ucrânia, a federação britânica e o Torneio de Wimbledon decidiram banir tenistas russos e bielorrussos. Isso tem seu peso sobre a chave do slam da grama, já que impossibilita a participação de três tenistas do top 20: Aryna Sabalenka, #6; Daria Kasatkina, #13; e Victoria Azarenka, #20; além de Veronika Kudermetova (#22) e Ekaterina Alexandrova (#28). Todas elas estão à frente de Bia no ranking.

A ausência de Sabalenka tem peso especial. A bielorrussa é alta, tem um excelente saque, que costuma fazer estrago na grama, e bolas pesadas do fundo de quadra. Uma combinação apelidada pela americana Mary Carillo de big babe tennis e que costuma dar bons resultados na relva. Ano passado, Sabalenka alcançou a semifinal de Wimbledon e só foi derrotada em um jogão de três sets pela tcheca Karolina Pliskova, outra adepta do estilo. No entanto, a julgar pelo post de dois dias atrás no Instagram (veja acima), Sabalenka não parece tão incomodada assim no momento.

Caminho favorável

O sorteio das chaves de Wimbledon foi generoso com Bia Haddad. Cabeça de chave número 23 do torneio, a brasileira ficou do lado oposto ao de Serena Williams e da principal favorita ao título, a polonesa Iga Swiatek, líder do ranking e campeã de Roland Garros. No quadrante de Bia, as principais cabeças são a estoniana Annet Kontaveit e a grega Maria Sakkari.

Kontaveit, #2 do mundo, é uma tenista agressiva e perigosa, mas vem de três derrotas seguidas e não competiu na grama ainda este ano. Sua última vitória no circuito veio dois meses atrás. Sakkari, por sua vez, perdeu todos os três jogos que fez contra Bia na carreira (dois este ano).

Também é possível que Bia encontre na terceira rodada a perigosa suíça Belinda Bencic (#17), ex-top 5 e atual campeã olímpica, mas que não passa da terceira rodada na grama de Wimbledon desde 2018. Além disso, não se sabe ao certo a real condição física de Bencic, que abandonou a final do WTA de Berlim, há duas semanas, quando torceu o tornozelo.

Elite instável e favoritas que não competiram

As três semanas de torneios na grama que antecedem Wimbledon costumam ser um bom parâmetro para as casas de apostas, mas não dizem tudo. Entre as mais cotadas ao título, Iga Swiatek e Serena Williams ainda não competiram (em simples) e estrearão no All England Club sem testes reais na grama. Serena, que não disputava um jogo oficial desde Wimbledon no ano passado, só fez duas partidas de duplas em Eastbourne, nesta semana. Iga, nem isso.

Além disso, o resto do top 10 e as habituais candidatas a títulos não vêm mostrando resultados sólidos. Petra Kvitova, que bateu Bia nesta semana, foi derrotada pela brasileira na semana anterior; Jelena Ostapenko constantemente é vítima de seu jogo ultra-agressivo; e Cori Gauff sofre com a falta de poder de fogo em certos duelos.

Quem vive bom momento mesmo é a tunisiana Ons Jabeur, campeã do WTA 500 de Berlim, mas trata-se de uma rival em chave complicada (pode encarar Kanepi na terceira rodada, Kerber nas oitavas e Collins/Keys/Raducanu nas quartas. Bia só teria de se preocupar com Jabeur em uma eventual semifinal. Será?

Coisas que eu acho que acho:

Toda vez que escrevo que um brasileiro é candidato a algo relevante (seja em simples ou duplas, adulto ou juvenil!), aparece um fã superprotetor que me acusa de colocar pressão em cima do tenista em questão. Alguns pontos sobre isso:

- Antes de mais nada, não sou eu ou algum outro jornalista quem transforma Bia em candidata a algo. É ela mesma, com seu tênis e seus resultados. E quando todas casas de apostas reconhecem isso, é evidente que não se trata de um devaneio jornalístico, mas de uma simples constatação.

- Flerto com o óbvio aqui, mas não custa reforçar: se alguém tem chances de conquistar um título e não o faz, isso não significa automaticamente que a campanha da pessoa foi um fiasco ou um fracasso retumbante.

- Nada melhor do que a frase de Billie Jean King para concluir a questão: "Pressão é privilégio." E Bia Haddad, suspeito, sabe disso melhor do que você e eu, caro fanático.

- Wimbledon começa segunda-feira e tem transmissão no SporTV e no combo ESPN/Star+.

- Som de hoje no meu Kuba Disco: Big City Nights (Scorpions), sem motivo específico nenhum no momento. É a faixa que entrou no Spotify aqui enquanto termino de escrever este texto.

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