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OPINIÃO

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Djokovic podia dar exemplo, mas se apequenou e apelou para o 'atestado'

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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

04/01/2022 12h16

Primeiro, a notícia: Novak Djokovic vai disputar o Australian Open. O número 1 do mundo, que passou meses fazendo mistério sem dizer se estava vacinado ou não, confirmou sua presença nesta terça-feira. Em suas redes sociais, o sérvio de 34 anos evitou usar o verbo "vacinar", mas disse que vai competir porque recebeu uma isenção - ou seja, diferentemente da maioria dos tenistas no evento, Djokovic não precisará estar vacinado para jogar.

Há alguns meses, o governo do estado de Victoria, onde é disputado o Australian Open, prometeu linha dura, anunciando que só poderia viajar até lá quem estivesse com o ciclo de vacinação completo. O diretor do torneio, Craig Tiley (o homem na foto acima ao lado de Novak), revelou, então, que haveria uma possibilidade de isenção e que uma "uma porcentagem muito pequena" de atletas poderia viajar e jogar nesses termos.

Segundo comunicado distribuído hoje pelo Australian Open (notem: depois do anúncio de Djokovic!), todos pedidos de isenção foram avaliados por dois grupos de especialistas e sem que a identidade dos requerentes fosse revelada. Djokovic encaixou-se nesse grupo. Pediu o "atestado" e conseguiu.

O contexto: Novak Djokovic nunca foi apegado à ciência que ele pode chamar de tradicional, e isso ficou bastante claro durante a pandemia. E nem digo isso porque ele organizou e jogou no Adria Tour, um circuito de torneios de exibição pelos Bálcãs realizado durante a pandemia e que acabou interrompido porque vários tenistas e pessoas próximas testaram positivo para covid.

Em vez de falar sobre isolamento social e a importância da vacinação (métodos que, comprovadamente, reduziram números de contágio e mortes), Djokovic usou a pandemia para fazer lives nas quais divulgou líquidos milagrosos, falou sobre trampolins que curam e como é possível purificar água com a mente. Também falou, numa conversa com atletas sérvios, ser contra vacinação. A declaração pegou mal e, mais tarde, numa entrevista ao New York Times, Novak afirmou que era apenas contra a obrigatoriedade da vacina.

Depois disso, ninguém imaginava mesmo que Djokovic fosse levantar a bandeira da vacinação. Contudo, diante da exigência feita pelas autoridades australianas, o número 1 do mundo poderia ter mudado de discurso. Uma agulha no braço, e ele chegaria a Melbourne mostrando um passaporte sanitário e podendo falar sobre como a eficiência foi comprovada na redução do número de mortes pelo mundo. Seria um belo exemplo vindo do líder do ranking mundial - uma posição que sempre vai exigir mais do que jogar tênis, quem quer que seja seu ocupante.

Outra opção na mesa para Djokovic era assumir-se contra a obrigatoriedade vacinação e levantar a bandeira da liberdade de escolha. Custaria, seguramente, sua participação no Australian Open, mas mostraria um cidadão de opinião firme, de crença inabalável. Certamente, atrairia para seu lado um grupo bem específico de fãs. Foi o que aconteceu na semana passada, quando foi anunciada sua desistência da ATP Cup. Como alguns veículos de imprensa cravaram que esse abandono aconteceu porque Nole se recusava a se vacinar (versão que nunca foi confirmada por ele), Djokovic tornou-se, entre outras coisas, um ícone para bolsonaristas.

Djokovic não fez nem um, nem outro. Não tomou vacina, recusando-se a ser um exemplo para os que defendem a ciência, e também não levantou a bandeira da liberdade de escolha. Passou os últimos meses escondido, recusando-se inclusive a dizer se estava vacinado.

Com o mundo atravessando uma pandemia que já matou mais de seis milhões de pessoas, Djokovic apequenou-se. Preferiu o silêncio dos covardes. Pensou apenas em sua carreira e vai a Melbourne em busca do 21º slam que lhe colocaria à frente de Roger Federer e Rafael Nadal como o maior campeão de slams em simples na história do tênis masculino. Um feito gigante, mas que, se acontecer, terá vindo no embalo de um patético "atestado".

Coisas que eu acho que acho:

- Perde todo mundo. Perde o Australian Open pela desconfiança de tratamento especial a um nome de peso (escrevo mais sobre isso logo abaixo); perde o governo australiano, cujas autoridades falaram grosso contra os ativaxers algum tempo atrás; perde Djokovic por tudo que já falei acima; perde o tênis ao ver um dos maiores da história driblar o regulamento em busca de um recorde; e perde o planeta que segue lutando contra negacionistas.

- Um problema sem solução simples, mas que abala a credibilidade do processo: já que os especialistas que avaliaram os pedidos de isenção não podem revelar as condições médicas dos requerentes (o que é corretíssimo), ninguém vai saber o que Djokovic alegou para conseguir a isenção e entrar na Austrália sem estar vacinado. Ou seja, é um processo em que a transparência não pode existir e, dado o histórico de Nole (com frases antivacina, Adria Tour e etc.), é compreensível que haja desconfiança do público.

- Uma solução simples seria o próprio Djokovic revelar a condição que o fez pedir a isenção, mas não esperemos isso de alguém que passou os últimos meses se recusando até a dizer SE estava vacinado. Curioso: é o mesmo tenista que contou todos detalhes de sua alergia a glúten no livro que colocou à venda falando sobre sua dieta. E sim, é o mesmo tenista que, uma década atrás, falava abertamente sobre todos problema físicos quando ainda perdia com frequência para Roger Federer e Rafael Nadal. Andy Roddick ironizou as desculpas do sérvio nesta inesquecível coletiva de 2009:

- Já faz algum tempo que as autoridades australianas recebem pedidos de isenção para entrada no país de pessoas não-vacinadas. Isso vale para cidadãos "comuns" também. Tenistas sabem disso desde que o governo de Victoria anunciou que eles não teriam tratamento especial este ano. No entanto, só agora, depois do anúncio de Djokovic, é que o Australian Open decidiu soltar um comunicado explicando à imprensa o processo de análise dos pedidos de isenção. O timing desse comunicado sugere algumas coisas, e pelo menos uma delas é certa: o torneio tem a exata da noção da desconfiança gerada.

- Comenta-se que há outras isenções concedidas para tenistas "grandes", inclusive top 5. Vejamos se a identidade desses demais competidores virão à tona nas próximas semanas. O Australian Open começa dia 17, e os direitos de transmissão pertencem a ESPN/Star+.

- Falando em ESPN, Fernando Nardini tem um ótimo ponto aqui:

- Quem estiver interessado em saber os possíveis motivos para a concessão de isenção, o jornalista americano Ben Rothenberg postou aqui as condições médicas listadas pelas autoridades australianas:

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL