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Antivacina e purificando água com a mente: o Djokovic da pseudociência

Novak Djokovic no Adria Tour 2020 - Reuters
Novak Djokovic no Adria Tour 2020 Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

24/06/2020 04h00

Dentro de quadra, Novak Djokovic é um gênio incontestável. Número 1 do mundo e dono de 17 títulos de torneios do grand slam, o sérvio de 33 anos tem históricos positivos sobre Roger Federer e Rafael Nadal e já embolsou mais de US$ 143 milhões em premiação (sem contar patrocínios). É um nome que será sempre considerado um dos melhores tenistas - se não o maior - da história.

Quando não está com a raquete nas mãos, contudo, Nole está longe de ser uma unanimidade, e o fiasco do Adria Tour, onde oito pessoas testaram positivo para covid-19, está longe de ser o único motivo. Desde o começo da pandemia do novo coronavírus, Djokovic vem expondo um lado pouco apegado à ciência tradicional. Nos últimos meses, o sérvio mostrou-se antivacinas, falou sobre o poder de purificar água com a mente e endossou produtos de eficiência questionável como camas elásticas que curam.

Sua esposa, Jelena, também entrou na lupa dos fãs de tênis intrigados quando compartilhou na internet teorias de conspiração segundo as quais o coronavírus seria transmitido via tecnologia 5G - sim, o mesmo 5G dos celulares. O Instagram rotulou o post de Jelena como informação falsa.

O guru

Em meados de 2016, Novak Djokovic incluiu em sua equipe de trabalho o espanhol Pepe Imaz. A presença do ex-tenista rendeu críticas porque Imaz, que tem como lema de vida "amor e paz" e é conhecido por um perfil "abraçador de árvores", era visto de fora como um guru que tirou a motivação de Djokovic. Boris Becker, então técnico do sérvio, deu a entender que seu pupilo precisava voltar a ter o tênis como prioridade principal. No entanto, depois de vencer os quatro slams seguidos, Nole sofreu uma lesão no cotovelo, demorou a se recuperar e só voltou a levantar um troféu de slam mais de dois anos depois, em 2018 - coincidência ou não, Imaz já não fazia parte de sua equipe. Nole havia voltado a trabalhar com Marian Vajda, técnico com quem venceu seu primeiro slam, em 2008, e chegou ao topo do ranking pela primeira vez, em 2011. Uma das condições impostas por Vajda para retomar a parceria foi a saída de Imaz. Há quem diga até hoje que a relação com o suposto guru foi o primeiro indício público de uma relação conflituosa entre Djokovic e a ciência tradicional.

'Não sou fã de cirurgias ou medicações'

A lesão no cotovelo foi especialmente dura para o sérvio, que esperava se recuperar naturalmente. Andre Agassi, que assumiu o posto do técnico durante parte desse período, lembrou que "havia uma esperança real de que seu cotovelo fosse curar naturalmente, holisticamente. Eu, pessoalmente, não era fã daquela opção. Descanso não resolveria, na minha avaliação."

Djokovic demorou, mas aceitou ir à mesa de operações. Mais tarde, em entrevista ao jornal The Telegraph, admitiu: "Chorei por dois ou três dias. Chorei após a cirurgia no meu cotovelo. Cada vez que pensava no que fiz, sentia que havia falhado comigo mesmo. Eu estava tentando evitar subir naquela mesa porque não sou fã de cirurgias ou medicações. Estou tentando ser o mais natural possível e acredito que nossos corpos são mecanismos que se curam." Nole completou, afirmando que se sentiu culpado por um ou dois meses depois da operação.

Antivacina

Enquanto esteve em quadra e dominando, Djokovic se manteve quase sempre longe de polêmicas - a não ser por uma disputa política que terminou com a troca de CEOs da ATP e a volta de Federer e Nadal ao Conselho de Jogadores da ATP, do qual o sérvio é presidente. Nole abriu a temporada conquistando a ATP Cup junto com a Sérvia e, em seguida, venceu pela oitava vez o título do Australian Open. Foi aí que veio a pandemia do novo coronavírus que interrompeu o circuito mundial.

No tempo livre, Djokovic conversou com várias personalidades ao vivo na internet. Uma live com Andy Murray, em especial, fez muito sucesso. Papos com Stan Wawrinka e Maria Sharapova também tiveram boa audiência e repercussão - a russa, entre risos, pediu que o sérvio não falasse sobre abraçar árvores. Uma conversa com outros atletas sérvios, porém, causou a primeira polêmica do ano para Nole. Ele revelou ser contra vacinas e disse que não saberia o que fazer se fosse obrigado tomar uma injeção contra covid-19 para voltar a competir.

Líquidos milagrosos

Outra live controversa foi com o amigo pessoal Chervin Jafarieh, um ex-corretor de imóveis que fundou uma empresa chamada Cymbiotika, que vende, entre outros produtos igualmente intrigantes, o suplemento Golden Mind, "formulado para provocar o ápice do desempenho mental e, mais importante ainda, fortalecer a estrutura do cérebro e proteger contra o declínio cognitivo do envelhecimento." O frasco individual custa US$ 58.

Em um momento da conversa, Djokovic admite que consome um dos produtos de Jafarieh, o Coated Silver, que custa US$ 120, é composto por nanopartículas de prata, água e polissacarídeos e promete que a prata, quando ingerida da forma correta, neutraliza vírus e fungos e fortalece o sistema de defesa do organismo.

Mente purifica a água

A mesma conversa com Jafarieh, que se autodenomina químico mas não tem licença médica, rendeu outros dois momentos de crenças nada ortodoxas. Em uma delas, o tenista e o amigo alegam que a conexão correta no momento de beber água é capaz de mudar a composição molecular do líquido. Djokovic afirma que o processo não tem a ver com nutrição e que as pessoas ainda devem comer e beber, mas ressalta: "Conheço algumas pessoas que por meio da transformação energética, por meio da força de orações, por meio do poder da gratidão, conseguiram transformar a mais tóxica das comidas ou talvez a água mais poluída na água mais curativa porque a água reage." O tenista reforça seu raciocínio alegando que cientistas já provaram que as moléculas da água reagem às nossas emoções e ao que é falado.

Na época, o jornalista americano Ben Rothenberg, que escreve para o New York Times, foi bastante crítico sobre a postura do sérvio e postou vários trechos da conversa. Rothenberg apontou também o alcance do que vinha sendo falado na live. Hoje, o papo já soma 463 mil visualizações.

A ex-tenista Mary Carillo, comentarista do canal americano Tennis Channel, também mostrou preocupação com a influência do atual número 1 do mundo: "Não é uma surpresa que Novak fale essas coisas. Acho isso particularmente perigoso. Ele não é o tipo de pessoa que muda seu tipo preferido de música cada vez que muda de cômodo. Estou muito incomodada que Djokovic e aquele outro cara estejam dizendo que você pode transformar água tóxica em água potável."

Trampolins que curam

A outra parte polêmica da troca de ideias entre Djokovic e seu amigo vê Jafarieh alegar que manipular o corpo e incliná-lo de maneiras diferentes pode ajudar a eliminar toxinas. Por isso, pular em uma pequena cama elástica, que Jafarieh chama de "rebounder" e Nole usou quando visitou o amigo, seria uma maneira importante de desintoxicar o corpo.

Coronavírus transmitido via 5G

Jelena, esposa de Djokovic, compartilha o estilo de vida natural de Novak e, a julgar por um episódio recente também parece acreditar em uma ciência alternativa. No começo de abril, ela postou em sua conta no Instagram o vídeo de um cientista chamado Thomas Cowan. Para ele, a tecnologia de internet móvel 5G é responsável pela propagação do novo coronavírus.

Cowan argumenta que as antenas recentemente instaladas violaram o sistema imunológico das pessoas, provocando a pandemia. O vídeo já foi visto mais de 400 mil vezes, mas o Instagram o rotulou como informação falsa. Embora Jelena tenha feito a postagem no dia 1º de abril, jamais disse que se tratava de uma brincadeira e tampouco apagou o vídeo.