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Coragem para sair da China muda radicalmente imagem da WTA

Steve Simon, CEO da WTA - Reuters
Steve Simon, CEO da WTA Imagem: Reuters
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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

02/12/2021 10h54

No dia 14 de novembro, pouco depois de assinar um comunicado pedindo uma investigação no caso de abuso sexual denunciado pela tenista chinesa Shuai Peng, o CEO da WTA, Steve Simon, disse ao New York Times: "Queremos ver uma investigação completa sobre isso. Se não for o caso e eles não cooperarem, então teremos que tomar algumas decisões, e estamos preparados para isso."

Pouco mais de duas semanas depois, o executivo mostrou que não estava blefando. Sem conseguir falar pessoalmente com Shuai Peng nem receber nenhuma garantia (de fonte isenta) de que a atleta tinha liberdade para se comunicar, Simon bateu o martelo: a WTA anunciou a suspensão de todos seus torneios na China - incluindo Hong Kong.

No comunicado (leia a íntegra no link do tweet abaixo), Simon alega que o governo chinês não tratou a denúncia com a seriedade merecida. "Embora agora saibamos onde Peng está, tenho sérias dúvidas sobre se ela está livre, segura e não sujeita a censura, coerção e intimidação. A WTA foi clara sobre o que é necessário aqui, e repetimos nosso pedido por uma investigação completa e transparente - sem censura - sobre a acusação de abuso sexual feita por Peng."

"Nada disso é aceitável ou pode se tornar aceitável", continua o texto. "Se pessoas poderosas puderem suprimir as vozes de mulheres e varreram acusações de abuso sexual para debaixo do tapete, então a base sobre a qual a WTA foi fundada - igualdade para mulheres - sofreria um imenso baque. Não vou e não posso deixar isso acontecer com a WTA e suas jogadoras."

"Como resultado, e com o apoio total do Board de Diretores da WTA, estou anunciando a imediata suspensão de todos torneios da WTA na China, incluindo Hong Kong. Em boa consciência, não vejo como pedir que nossas atletas compitam lá quando Shuai Peng não pode se comunicar livremente e está sendo aparentemente pressionada a contradizer sua acusação de abuso sexual. Dado o atual estado das coisas, também estou muito preocupado com os riscos que todas nossas jogadoras e estafe podem encontrar se nós realizássemos eventos na China em 2022."

A medida muda completamente a relação da WTA com a China. A entidade, que foi ao país em busca de (muito) dinheiro e realizou dez eventos em seu calendário de 2019, agora faz uma virada de 180º e mostra que não estava blefando. É bem possível que a WTA não tenha, em 2022, o mesmo número de torneios ou a mesma premiação total planejada se continuasse na China (só o WTA Finals, em Shenzhen, pagava US$ 14 milhões no total).

Por outro lado, a WTA ganha uma força institucional que não teve nos últimos anos. Nem mesmo quando os slams finalmente passaram a pagar a mesma premiação para homens e mulheres, a WTA teve grande atuação ou reconhecimento. E mais: de modo geral, a WTA ainda é vista como uma entidade secundária, mais pobre e menos competente do que a ATP. Seu site é inferior, sua oferta de streaming é ruim (a WTA TV tem uma plataforma pobre e ainda não possui app), e os patrocinadores são em menor número.

A corajosa medida de Simon e da diretoria pode mudar radicalmente essa imagem. Winston Lord, ex-embaixador dos EUA para a China, disse que a WTA se mostrou "mais corajosa do que a covarde NBA" (leia mais sobre China e NBA aqui). Para ele, trata-se da "medida mais corajosa de direitos humanos" de uma organização esportiva. A Fortune, por sua vez, publica que "a WTA toma a posição contra a China que os negócios ocidentais não tomam."

Pelo menos por enquanto, é uma valorização difícil de medir, mas a postura da WTA pode ser justamente o que a entidade precisava para atrair patrocinadores fortes e interessados em mostrar sua preocupação com questões como a violência contra a mulher e o respeito aos direitos humanos. É um caminho que mais e mais marcas vêm seguindo recentemente. No curto prazo, talvez não seja o bastante para compensar a exclusão de tantos torneios e a perda de receitas com direitos de transmissão. Entretanto, a WTA assume uma postura de coragem e liderança, exatamente como a entidade nasceu com Billie Jean King em 1973.

Coisas que eu acho que acho:

- ATP e ITF, cada uma à sua maneira, manifestaram-se sobre o assunto. A ATP afirmou que "a questão é maior do que o tênis", enquanto a Federação Internacional foi breve, dizendo que a segurança dos jogadores "é sempre nossa prioridade." Mas e agora, depois de a WTA sair da China, tomarão alguma medida? Aguardemos.

- O Comitê Olímpico Internacional (COI), interessado nos Jogos Olímpicos de Inverno Pequim 2022, marcados para fevereiro, critica indiretamente a WTA ao afirmar que está usando uma espécie de "diplomacia silenciosa". O órgão diz que essa postura é a "maneira mais promissora de proceder em tais questões humanitárias." Será?

- O COI também disse que realizou uma segunda videoconferência com Shuai Peng, que ofereceu todo tipo de apoio e já marcou um encontro pessoal com ela em janeiro. Será? Por que janeiro e não, sei lá, HOJE? Por que todos relatos de que Peng está bem vêm ou do COI ou de veículos estatais chineses?

- Porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China, Wang Wenbin não quis comentar diretamente a decisão da WTA, mas declarou que "a China é contra politizar o esporte." O jornal estatal chinês Global Times engrossou o coro. Em um editorial publicado nesta quinta, acusa a WTA de levar a política para o tênis feminino e de atuar como "uma alavanca para a opinião pública do Ocidente."

- Minha opinião: quem fala contra politizar o esporte não conhece mesmo nada sobre a fundação da WTA.

- Som de agora no meu Kuba Disco: "No Easy Way Out", de Robert Tepper. Um clássico dos anos 1980 - mas só para os fãs de Rocky IV, que tem uma trilha sonora tão típica de sua época quanto brilhante para o que pretendia.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL