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Mensagem de tenista chinesa que sumiu lembra filmes do tempo da Guerra Fria

Shuai Peng no Australian Open de 2019 - Reuters
Shuai Peng no Australian Open de 2019 Imagem: Reuters
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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

18/11/2021 04h00

No dia 2 de novembro, a tenista chinesa Shuai Peng, ex-número 1 do mundo em duplas e top 15 de simples algum tempo atrás, usou sua conta na rede social chinesa Weibo para contar que teve uma relação com o ex-vice-premiê chinês Zhang Gaoli e que ele abusou sexualmente dela em 2017.

O post foi apagado cerca de meia hora depois, e Peng foi dada como desaparecida depois disso. No começo desta semana, o CEO da WTA, Steve Simon, cobrou o governo chinês, pedindo uma investigação "completa e transparente". Em seu texto, o cartola também dizia ter evidências de que Peng estava em segurança, em Pequim.

Pois a história ganhou um plot twist nesta quarta. A rede de TV estatal chinesa divulgou uma carta supostamente escrita por Peng e endereçada à WTA. No texto, que lembra relatos sobre os tempos da Guerra Fria e da censura existente além da Cortina de Ferro, a tenista diz que está ótima, que nunca acusou ninguém, que a WTA deveria ter checado as informações e que ela espera promover o tênis chinês no futuro.

"Sobre as notícias recentes divulgadas no site oficial da WTA, o conteúdo não foi confirmado nem verificado por mim e foi divulgado sem meu consentimento. A notícia naquele release, incluindo a alegação de abuso sexual, não é verdade. Não estou desaparecida nem em perigo. Estou apenas descansando em casa e tudo está bem. Obrigado novamente pela preocupação comigo.

Se a WTA publicar mais notícias sobre mim, por favor verifiquem comigo e distribuam com meu consentimento. Como tenista profissional, agradeço a todos por seu companheirismo e sua consideração. Espero promover o tênis chinês com todos vocês se tiver a chance no futuro. Espero que o tênis chinês torne-se melhor e melhor", diz o texto supostamente escrito por Shuai Peng.

Escrita em tom governista/protecionista/pseudo-quasi-ditatorial, a carta não teve boa recepção no meio do tênis. "Muito preocupante. Espero que ela esteja bem", disse a tenista britânica Laura Robson. O jornalista do NY Times Ben Rothenberg, por sua vez, chamou o texto de "profundamente duvidoso". E Simon voltou à carga, soltando outro comunicado:

"O comunicado divulgado hoje pela imprensa estatal chinesa sobre Shuai Peng apenas aumenta minha preocupação quanto à sua segurança e a seu paradeiro. Tenho dificuldade para acreditar que Shuai Peng escreveu de verdade o email que recebemos ou acredita no que está sendo atribuído a ela. Shuai Peng mostrou uma coragem incrível ao descrever uma acusação de abuso sexual contra um ex-oficial do governo chinês. A WTA e o resto do mundo precisam de provas independentes e verificáveis de que ela está em segurança. Venho tentando seguidamente entrar em contanto com ela via várias formas de comunicação, mas sem sucesso. Shuai Peng deve poder falar livremente, sem coerção ou intimidação de fonte alguma. Sua alegação de abuso sexual deve ser respeitada e investigada com total transparência e sem censura. As vozes das mulheres precisam ser ouvidas e respeitadas, não censuradas ou ditadas."

Coisas que eu acho que acho:

- Sobre o texto supostamente escrito pela tenista, por que, em 2021, na China, uma pessoa cujo paradeiro é desconhecido e quer se fazer ouvir não podia, por exemplo, gravar um vídeo mostrando seu rosto? É, no mínimo, curioso.

- Outro detalhe sobre o qual vale indagar: o que faz aquele cursor no meio do print feito pela imprensa estatal?

- Quando o texto atribuído a Shuai Peng diz "espero promover o tênis chinês com todos vocês se tiver a chance no futuro", só consigo ler este trecho assim: "se me desamarrarem desta cadeira depois de escrever".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL