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WTA faz apelo à China, mas relação só será testada mesmo em 2022

Shuai Peng no Australian Open de 2019 - Reuters
Shuai Peng no Australian Open de 2019 Imagem: Reuters

Alexandre Cosssenza

Colunista do UOL

15/11/2021 16h21

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A história é tão intrigante quanto preocupante. No dia 2 de novembro, a tenista chinesa Shuai Peng, ex-número 1 do mundo em duplas e top 15 de simples algum tempo atrás, usou sua conta na rede social chinesa Weibo para contar que teve uma relação com o ex-vice premier chinês Zhang Gaoli e que ele abusou sexualmente dela em 2017.

O post da tenista foi apagado cerca de meia hora depois, e Peng não foi encontrada para falar sobre o assunto depois disso. Houve até relatos de que ela continua desaparecida, mas o CEO da WTA, Steve Simon, disse ao NY Times ter recebido confirmação de várias fontes que Shuai Peng está em Pequim e em segurança.

Aida assim, diante da situação, a entidade que rege o tênis feminino soltou um comunicado em que Simon pede uma investigação "completa, justa e transparente sobre as alegações de abuso sexual" contra o ex-político chinês. É um texto bem escrito, em que o cartola da WTA diz, entre outras coisas, que "Shuai Peng e todas mulheres devem ser ouvidas, não censuradas. Sua acusação contra a conduta de um ex-líder chinês envolvendo abuso sexual deve ser tratada com máxima seriedade. Em todas sociedades, o comportamento que ela alega ter acontecido precisa ser investigado, não endossado ou ignorado. Parabenizamos Shuai Peng por sua incrível coragem e força ao vir adiante [com a denúncia]. Mulheres em todo o mundo estão encontrando suas vozes para que injustiças sejam corrigidas."

"Esperamos que este assunto seja encarado devidamente, o que significa que as alegações devem ser investigadas de maneira completa, justa, transparente e sem censura", completa Simon. "Nossa prioridade absoluta e inabalável são a saúde e a segurança de nossas jogadores. Estamos nos manifestando para que a justiça possa ser feita."

É, repito, um texto bem escrito e que posiciona a WTA da maneira necessária: preocupada com suas atletas e com o tratamento que mulheres recebem ao redor do planeta. Ainda assim, é um mensagem que pode não ter efeito algum. A WTA é pequena em relação ao governo chinês e seus interesses. Não é uma entidade de médio porte (na melhor das hipóteses dentro do contexto esportivo no planeta), por si só, que vai mudar a postura dos políticos de lá. Simon sabe disso. E também sabe das consequências disso.

"Não estou sentado aqui achando que vou solucionar os problemas do mundo de maneira alguma..." disse na mesma reportagem do NY Times. "Queremos ver uma investigação completa sobre isso. Se não for o caso e eles não cooperarem, então teremos que tomar algumas decisões, e estamos preparados para isso, e é o melhor que podemos fazer."

Ao dizer isso, Simon mostra saber também o quão delicada é a situação. Nos últimos anos, buscando dinheiro fácil, a WTA levou boa parte de seu calendário para o Oriente. São dez torneios de nível WTA em solo chinês - inclusive o badalado WTA Finals. A conta pode ter chegado. E se o governo chinês não realizar uma investigação? E se a mensagem de Simon for ignorada? Será que a WTA está pronta - mesmo - para tomar a decisão de retirar seus torneios da China? Ou alguma outra decisão resolveria?

Em 2020, o calendário pós-Roland Garros (que aconteceu depois do US Open) foi quase inexistente. Este ano, ainda longe da China por causa da pandemia, a WTA recheou as semanas com eventos provisórios. Será o mesmo no ano que vem? Quem vai pagar essa conta? O Finals deste ano, realizado em Guadalajara em caráter quase emergencial, é um sucesso de público, mas e depois? Só no segundo semestre de 2022 a relação entre WTA e China será testada de verdade. Aguardemos para ver se Simon bate o pé e toma medidas fortes ou se rende ao dinheiro do país.