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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Histórico é pouco para descrever o bronze da dupla brasileira em Tóquio

Rafael Bello/COB
Imagem: Rafael Bello/COB
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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

31/07/2021 14h00

Os leitores habituais deste blog sabem o desprezo que demonstro pela banalização de expressões como "épico", "histórico" e "fez história". Todo mundo faz história todo dia, cada um de seu jeito, e se a gente fizer força, pode usar isso pra qualquer texto em qualquer editoria. Eis que neste sábado, 31 de julho de 2021, Luisa Stefani e Laura Pigossi venceram uma partida dramática (épica?!), salvando quatro match points seguidos, e conquistaram a primeira medalha da história do tênis brasileiro. Isto é história, caros leitores.

Só que por todas as circunstâncias que envolveram o feito, desde a vaga inesperada que veio no último dia até os oito match points salvos - quatro na segunda rodada e mais quatro na disputa pelo bronze -, "histórica" mal começa a descrever a realização de Laura e Luisa em Tóquio. Sim, o adjetivo precisa ser usado pelo ineditismo do país na modalidade, mas o significado do pódio transborda o mero registro em um livro de recordes.

A medalha de Laura e Luisa precisa ser vista quase no patamar do etéreo, do abstrato, do inconcebível, do inimaginável. E, ao mesmo tempo, é necessário olhar para este bronze como um símbolo colossal, ainda que utópico, de tudo que é possível alcançar quando há trabalho e esperança até a última gota. Um sinal de que é preciso ter fé independentemente de crenças e opções religiosas. Uma mensagem não só para atletas, mas para seres de qualquer raça, credo, nacionalidade e faixa etária. É um pódio que faz ecoar a mensagem de que é preciso, além de trabalhar, acreditar.

Muita coisa conspirou para que esse bronze acontecesse. Das muitas desistências que colocaram Laura e Luisa na chave no dia 16 de julho até o fenomenal voleio salvador de Stefani no 9/9 do match tie-break da final. Agora, olhando e avaliando tudo que passou, dá até para ver a apendicite que tirou Luisa de Roland Garros como uma benção. Tivesse vindo um mês depois, impediria a #1 do Brasil de competir no Japão. Timing é tudo - Bruno Soares que o diga - e às vezes, o tudo joga a favor, mas só toma a direção desejada quando há trabalho e crença no que se faz.

Quando a chave foi sorteada e colocava várias duplas fortes no caminho das brasileiras, a medalha soava como um sonho distante e improvável. Jogo após jogo, match point salvo após match point salvo, Laura e Luisa trabalharam e alimentaram sua fé. O resultado vai estar no peito delas neste domingo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL