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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

5 coisas que podemos aprender com Ashleigh Barty, #1 e campeã de Wimbledon

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

13/07/2021 04h00

"O posto de número 1 do mundo está em ótimas mãos." O clichê vem sendo repetido com mais e mais frequência à medida em que a australiana Ashleigh Barty continua no alto do ranking feminino. A jovem de 25, que conquistou Wimbledon neste sábado, é dona de um jogo agradabilíssimo de ver. Tem uma direita agressiva que incomoda qualquer adversária, um slice que confunde as rivais e encanta os puristas, sabe subir à rede e, mesmo com apenas 1,65m de altura, é quem mais disparou aces em 2021 até agora.

Barty é alguém para professores de clubes e treinadores de alto rendimento usarem como exemplo de tênis completo. Ela tem todos os golpes e, enquanto amadurece como pessoa e atleta, melhora cada vez mais na tomada de decisão, o que não é algo tão simples quando é possível fazer tantas coisas com a bolinha e há pouco mais de um segundo para fazer a escolha. Ash, porém, é um caso de atleta que merece ser observada por pessoas que não são necessariamente fãs de tênis. Em cada vitória, em cada declaração, a australiana deixa lições a serem seguidas. Basta prestar atenção.

1. Respeito a quem veio antes

Ashleigh Barty é uma grande admiradora da australiana Evonne Goolagong, que conquistou sete slams em simples nos anos 1970 e foi número 1 do mundo. Este ano marcou o 50º aniversário do primeiro título de Goolagong em Wimbledon, e Ash, que tem raízes aborígenes assim como Evonne, vestiu um outfit inspirado no vestido que Goolagong usou em 1971.

Antes de levar adiante o processo de criação da roupa em conjunto com a Fila, Barty ligou para Goolagong e pediu sua opinião. Evonne adorou.

"Espero que minha versão do outfit possa fazer o mesmo pela geração seguinte de jovens nativos. Evonne abriu o caminho. Ela criou uma trilha para nós como australianos, mas como família e para nossos sucessores saberem que existe uma chance de buscar seus sonhos e fazer o que se ama. Ela criou um legado como nenhum outro na Austrália. Sou muito orgulhosa de poder chamá-la de amiga e mentora, de poder compartilhar uma herança. Para mim, poder fazer um tributo a isso em um aniversário muito especial é algo que nunca vou esquecer", disse antes de sua estreia em Wimbledon.

Depois que conquistou o título, Barty declarou na coletiva de sábado: "Australianos têm uma história muito rica no esporte, e fazer parte disso é algo que sempre sonhei. Tentar criar um legado, um caminho para que meninas e meninos acreditem em seus sonhos e conseguir viver isso e aprender minhas lições ao longo do caminho é uma das melhores partes da minha jornada. Ter sucesso aqui em Wimbledon, alcançar meu maior sonho é incrível. As estrelas se alinharam para mim nos últimos 14 dias. É incrível que tenha acontecido no 50º aniversário do primeiro título de Evonne aqui."

"Evonne é uma pessoa muito especial na minha vida. Ela é icônica por trilhar um caminho para que jovens nativos [de origem aborígene, no caso da Austrália] acreditem e corram atrás de seus sonhos. Ela fez exatamente isso por mim. Poder compartilhar isso com ela, compartilhar algumas vitórias especiais com ela e também poder criar meu próprio caminho é incrível. Ela é um ícone há anos e anos, não só em quadra. Seu legado fora da quadra é incrível e acho que se eu puder ser metade da pessoa que Evonne é, eu serei uma pessoa muito feliz. Ter uma relação, falar com ela sobre as minhas experiências e simplesmente saber que ela está a um telefonema de distância é muito, muito legal."

2. Trabalho em equipe

Uma das peculiaridades das coletivas de Ashleigh Barty é o uso da primeira pessoa do plural. Quando fala de suas vitórias e feitos, a número 1 do mundo frequentemente usa "nós" em vez de "eu". Quando a australiana foi campeã do WTA 500 de Stuttgart, este ano, um jornalista perguntou sobre isso.

"Acho que fazemos tudo juntos. Acho difícil falar 'eu' porque sei que é um esforço coletivo. Há tantas pessoas ao meu lado que investiram tanta energia e tempo de suas vidas e suas carreiras para ajudar a minha. Sou muito grata a elas por terem tido a coragem e acreditarem em mim e, apesar de algumas delas estarem na Austrália neste momento, sei que estão me vendo e ainda temos conversas parecidas pelo telefone e, é claro, para Tyz [Craig Tyzzer, seu técnico] e eu é muito grande sair [da Austrália] para vir no que sabemos que será um período muito longo longe de casa, e ter um começo muito positivo apenas nos ajuda a continua a crescer e seguir em frente."

3. Procurar soluções, não desculpas

Tenistas brasileiros frequentemente reclamam da falta de torneios no continente e da distância para a Europa, onde está concentrada a maior parte dos eventos do circuito mundial. É comum ouvir que o europeu tem a vantagem de viajar menos e que, quando perde nas rodadas iniciais de um torneio, pode até voltar para casa antes de rumar para a competição seguinte. É uma desvantagem que também afeta argentinos, bolivianos, chilenos e todos sul-americanos, obviamente.

Pouco se comenta que australianos vivem dilema parecido. E agora, na pandemia, a situação é muito pior para os atletas de lá porque a Austrália tem políticas bastante rígidas de quarentena. Quem entra no país precisa ficar 14 dias trancafiado, e esse período praticamente impede que algum atleta do país monte um calendário normal, voltando periodicamente para casa.

Barty, em vez de reclamar, fez o que precisava: deixou a Austrália em março, para disputar o WTA 1000 de Miami, e só vai voltar depois do US Open - talvez só em novembro, mas vai depender do calendário da WTA, que ainda não está 100% definido no segundo semestre.

"Obviamente, com as leis de quarentena na Austrália, fazemos a quarentena de duas semanas em um hotel, e não há muito espaço na temporada par fazer isso e voltar para casa por duas semanas. Então neste momento estamos planejando ficar fora até o US Open e, potencialmente, até o fim da temporada. Sem dúvida era algo novo para mim colocar isso na cabeça e entender onde vamos estar por um período tão longo. É claro que houve lágrimas nos dias antes [da viagem]. Houve lágrimas quando eu finalmente viajei e houve depois que eu viajei."

Neste sábado, após o título em Wimbledon, foi quase cômico ouvir de Ash, até com certa naturalidade, na cerimônia de premiação, que ela está "ansiosa para voltar para casa, daqui a alguns meses, e comemorar com todo mundo" (veja no vídeo acima).

4. Valores certos

Além de querida por muitas companheiras de vestiário, Barty é sempre elogiada por seu comportamento fora de quadra no trato diário com todo tipo de pessoa, sejam colegas de profissão, jornalistas ou funcionários da WTA e de torneios. São poucos os atletas tão bem vistos no tênis.

Os valores de Ash vêm de casa e vêm de longa data. O pai da australiana conta que Jim Joyce, primeiro professor de tênis da menina, tinha quatro critérios: "ser uma boa pessoa, divertir-se, ser respeitada e respeitar os outros. E se você aprender a jogar tênis depois disso, seria bônus."

São valores que Ash carrega até hoje. Em sua coletiva pós-título, Barty disse: "Tento viver de acordo com os valores que meus pais me passaram. É mais importante ser uma boa pessoa do que ser um jogador de tênis. É sempre a minha prioridade: ser um bom ser humano. Aprender com meus pais, meus irmãos e minha família foi uma grande parte da minha formação, e eu tive a enorme sorte de aprender a jogar tênis, mas ser um bom ser humano é minha prioridade em todos os dias."

5. Não há fórmula

O caminho de Ashleigh Barty até o topo do tênis e seus dois títulos de slam (o primeiro veio em 2019, em Roland Garros) não teve nada de convencional. Sim, Ash foi um fenômeno juvenil e conquistou o evento júnior de Wimbledon em 2011, aos 15 anos, mas os dez anos entre os dois triunfos no All England Club registram uma história pouco ortodoxa.

Com 18 anos, Barty decidiu largar o tênis porque queria viver como uma adolescente normal. Nesse período, aceitou até um convite para jogar críquete profissional. Só voltou ao tênis dois anos depois. Aprendeu a lidar com pressão, expectativa e ansiedade. Hoje, é uma atleta mais bem preparada física, técnica e mentalmente. E ninguém pode dizer que o caminho ideal teria sido copiar A, B ou C. Não existe fórmula, não existe prazo, não existe uma linha reta entre o ponto de partida e a linha de chegada.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL