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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A grandeza acima de qualquer número

Getty Images
Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

06/06/2021 09h56

Roger Federer já foi o tenista que mais tempo passou como número 1 do mundo. Hoje, esse recorde pertence hoje a Novak Djokovic. O suíço também já foi, com folgas, o maior vencedor de slams em simples da história do tênis masculino. Essa marca agora é compartilhada com Rafael Nadal, que pode deixar o velho rival para trás no próximo domingo. Números espetaculares, junto a dezenas de outros recordes detidos por Roger até hoje.

Nós, fãs e jornalistas, ainda que por motivos diferentes, gostamos de comparar e quantificar grandeza. Tom Brady ganhou mais Super Bowls que Jerry Rice. Pacquiao foi campeão em mais categorias do que Mayweather. Schumacher tem mais títulos do que Senna. Bill Russell tem quase o dobro de anéis em relação a Michael Jordan. Neymar vai fazer mais gols pela Seleção do que Pelé. Dá para brincar disso a vida inteira, não importa o esporte ou quem vocês achem que alcançou os feitos mais relevantes.

Divertido numa mesa de bar, sim, com as companhias certas, mas não é o que levamos na memória cinco, dez, 20 anos depois. Nenhum número explica ou retrata o flu game de Jordan, aquela primeira volta de Senna em Donington, a arrancada de Joaquim Cruz em Los Angeles, o coração de Guga em Roland Garros, aquela recepção de Clark no passe de Montana ou o sorriso de Usain Bolt buscando seus rivais no Rio de Janeiro.

É claro que todos tempos de Bolt nos 100m estão cronometrados, e o box score de Bulls x Jazz vai dizer algo sobre o que Jordan fez naquela noite, mas não são esses números que ficarão conosco. Como pouco vai importar, daqui a uma década, que Dominik Koepfer era o #59 do mundo e que a apresentação de Roger Federer num sábado à noite, sem público, valia apenas um lugar nas oitavas de Roland Garros - fase que o suíço alcançou 67 vezes antes em torneios do grand slam durante sua longa carreira.

Quando tudo acabar, o que vou lembrar (permitam-me este momento em primeira pessoa) é que um cidadão de 39 anos, pai de quatro filhos, vindo de duas cirurgias no joelho, sem jogar um torneio em melhor de cinco sets há quase um ano e meio, fez um pequeno milagre para vencer uma partida de 3h35min que terminou quase à 1h da manhã.

Não foi pelo prêmio em dinheiro. Os ? 170 mil de premiação pela vaga nas oitavas mal fazem cócegas em sua conta bancária (e tênis não paga adicional noturno!). Não foi pela motivação da torcida nem para agradar a fãs barulhentos e/ou semiebriagados. Por conta do toque de recolher em vigor em Paris, a partida foi disputada com a Quadra Philippe Chatrier vazia. E, obviamente, não foi pelo prazer de competir num saibro pesadíssimo, com a umidade lá no teto e condições de jogo lentíssimas.

Sir Andy Murray, vendo o jogo, sentiu-se compelido a escrever. "É inspirador para mim. Faça o que você ama." A frase, além de explicar por que o próprio britânico ainda não se aposentou apesar de ter sofrido um problema gravíssimo no quadril, diz bastante sobre o que separa os grandes do resto. Mesmo onde ele sabe que não tem chances de ser campeão, mesmo fazendo hora extra, mesmo perdendo um jogo que podia facilmente entrar pela quinta hora de jogo, Roger Federer não cogitou desistir de brigar.

Ficou. Lutou contra o rival, contra seus próprios erros (e foram 63 deles!), contra o corpo e contra o silêncio. Sem a torcida que sempre esteve a seu lado para empurrá-lo, o cidadão encontrou uma maneira de triunfar. Não porque precisava. Porque queria. Num daqueles raros dias ruins, Roger Federer foi menos talento e mais coração. É desses momentos do suíço que vou lembrar enquanto viver. Isso, caros leitores, é grandeza em seu estado puro.

Coisas que eu acho que acho:

- Não faz muito tempo, escrevi sobre a reta final da carreira de Roger Federer e sugeri: é hora de apertar os cintos e colocar as poltronas na posição vertical. O fim do voo está próximo e já há turbulência antes do pouso. Reforço aqui: é recomendável curtir ao máximo cada segundo dessa "aproximação".

- Após a vitória, Federer cogitou a hipótese de abandonar o torneio. Escrevo antes das oitavas, sem saber a decisão do suíço, mas uma desistência seria totalmente compreensível. Se a grande meta é mesmo Wimbledon, onde Roger acredita ter chances de levantar o troféu (e não há por que duvidar), não convém correr riscos em Paris.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL