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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Como Senna usou fracasso em treino para bater estrelas e fazer nome na F1

O piloto Ayrton Senna - Reprodução/Instagram
O piloto Ayrton Senna Imagem: Reprodução/Instagram
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

13/05/2021 04h00

Se houve um primeiro momento em que o mundo da Fórmula 1 percebeu que Ayrton Senna era um piloto especial, foi em um evento "amistoso", a Corrida dos Campeões, realizado na pista alemã de Nurburgring em maio de 1984, no qual um então quase desconhecido Ayrton bateu um grid repleto de estrelas de diferentes gerações: Niki Lauda, Carlos Reutemann, Alain Prost, Keke Rosberg, John Surtees, Phil Hill, Stirling Moss, John Watson, Denny Hulme, Jody Scheckter, Jack Brabham, James Hunt, Jacques Laffite, Elio de Angelis e Alan Jones, todos correndo com carros de rua da Mercedes, idênticos.

Mas um detalhe curioso desta história, e que mostra bem a mentalidade do brasileiro, emergiu no aniversário de 37 anos desta prova.

senna lauda - Mercedes-Benz/Divulgação - Mercedes-Benz/Divulgação
O então novato Ayrton Senna à caça de Niki Lauda na Corrida dos Campeões de 1984
Imagem: Mercedes-Benz/Divulgação

Em 1984, Senna fazia sua estreia na Fórmula 1, pela Toleman. Tendo sido campeão nas três categorias que disputou na Europa - a Fórmula Ford 1600, Fórmula Ford 2000 e F3 Britânica - Senna já despertava muito interesse e, nas três primeiras corridas, após o abandono na estreia no GP do Brasil, o piloto vinha com um ponto pelo sexto lugar no GP da África do Sul e chegara em sétimo na Bélgica (sendo promovido para o sexto posto depois que os pilotos da Tyrrell foram desclassificados), andando bem por uma equipe que viria a ser apenas a sétima colocada naquele campeonato.

Porém, na quarta etapa, em Imola, Senna não conseguiu se classificar para a prova. Naquela época, devido ao grande número de inscritos, havia uma pré-classificação. E, na Toleman, o clima era de ebulição: o time estava usando o carro do ano anterior e sabia que o modelo novo só ficaria pronto para as provas seguintes. Internamente, Senna pressionava para que a equipe abandonasse os pneus Pirelli e corresse com os Michelin, pois estava insatisfeito com o rendimento da borracha italiana - que, inclusive, tinha provocado seu abandono no Brasil. Alegando "diferenças de opinião" com a Pirelli, a Toleman decidiu não andar na sexta-feira.

senna - Arquivo pessoal/Ayrton Senna - Arquivo pessoal/Ayrton Senna
Ayrton Senna dá entrevista a Reginaldo Leme no início da carreira
Imagem: Arquivo pessoal/Ayrton Senna

No sábado pela manhã, Senna colocou o carro em 20º, com a pista um pouco molhada, e estava tranquilo para entrar na classificação - 26 carros alinhariam no grid, dos 28 inscritos. Mas, quando as condições de pista melhoraram e os tempos caíram, a Toleman teve um problema de pressão de combustível e ficou parada na pista. Sem tempo para melhorar sua marca, Senna não conseguiu se classificar pela primeira e última vez na carreira na F1.

Isso foi em 5 de maio de 1984. A tal Corrida dos Campeões seria exatamente uma semana depois. Chris Witty, assessor de imprensa da Toleman na época, conta que Senna sequer quis assistir à corrida para a qual não tinha se classificado, e revelou como ele aproveitou a 'folga' para se preparar para a prova que acabou vencendo.

"No dia seguinte, ele não quis ver a prova. Nós tínhamos dois (ou possivelmente três) dias de testes marcados para Dijon (França) a partir da terça-feira para testar os pneus da Michelin pela primeira vez com o carro que ainda não tinha ido para a pista, o TG184. Saímos de Imola no domingo de manhã em direção ao aeroporto de Linate, em Milão, esperando conseguir pegar o voo para Paris mas, mesmo com Ayrton ao volante, perdemos o voo. E então decidimos alugar um carro para ir até Dijon. Ele me disse 'por favor, alugue um Mercedes 190'. Perguntei o porquê e ele falou: 'Porque vou correr com um Mercedes 190E na semana que vem em Nurburgring e quero me acostumar com as características gerais do carro'."

Witty alugou o carro pedido por Senna e lá foram eles andando - muito provavelmente, em alta velocidade - pelos mais de 600km que separam Milão da pista de Dijon, que fica no oeste da França. E, logo após o teste com a Toleman, Senna foi para Nurburgring e bateu, aos 24 anos, vários nomes lendários do automobilismo, inclusive os dois pilotos que lutariam pelo título daquele ano na F1, Lauda, que conquistaria seu tricampeonato em 1984, e Prost.