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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A nova Liga não vai mudar nada de importante no nosso futebol

Visão aérea de um dos campos de futebol de várzea no Campo de Marte, na Zona Norte da cidade de São Paulo - Danilo Verpa/Folhapress
Visão aérea de um dos campos de futebol de várzea no Campo de Marte, na Zona Norte da cidade de São Paulo Imagem: Danilo Verpa/Folhapress
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

18/05/2022 16h53

Vem aí a Liga do futebol brasileiro, já chamada de Libra. Deixemos o nome ruim para lá. Vamos ao conceito, aos métodos, à forma.

A Liga vai ser criada pelos maiores clubes do nosso futebol aos moldes dos campeonatos mais badalados e ricos da Europa. Não é disso que quero falar, mas preciso pelo menos colocar em contexto o seguinte: Estamos, outra vez, imitando o que fazem por lá.

Não pensamos mais no nosso futebol de formas originais: ele passou a ser uma imitação do que é chamado (por ninguém, só por mim) de epicentro mundial do futebol, que é o oeste europeu. O Brasil, país que reinventou o futebol incluindo nele o drible e a alegria, agora apenas se curva à Europa e a tudo o que é feito por lá.

Essa seria a primeira avaliação crítica. Mas digamos que, depois de um bom debate, ficasse entendido que os modelos das ligas europeias são mesmo maravilhosos e que a imitação seria, por isso, provavelmente boa para o futebol brasileiro. Ok. Aceitemos isso como premissa para fins de seguir com as ponderações.

Eu vi cenas de um vídeo de uma reunião da futura Libra. Não havia mulheres, não havia pessoas negras, não havia - até onde eu sei - ninguém que oficialmente pertença à comunidade LGBTQIA+.São os mesmos cartolas de sempre, ainda que mudem de nome e de endereço. Alguém realmente acredita que aqueles que criaram o problema serão capazes de solucioná-lo?

Nosso futebol não tem a cara do Brasil. Nosso futebol não tem o jeito do Brasil. Nosso futebol não tem a criatividade brasileira.

Ou, poderão argumentar alguns: tem sim. O Brasil é isso. O Brasil careta, conservador e tedioso é isso sim. Mas existe um Brasil nas frestas, como ensina Luiz Antonio Simas, e ele não é nem careta, nem conservador, nem covarde, nem tedioso. É o Brasil do samba, da geral, das festas de rua, da cultura popular.

Nosso futebol deveria refletir esse Brasil. E não o Brasil da cartolagem de sempre.

"Ah, mas a Libra gerará mais dinheiro para os clubes". Sim, deve ser verdade essa frase.

Mas esse dinheiro vai para quem? Vai para melhorar o futebol para todos, incluindo times médios e pequenos, incluindo a vida do pequeno e médio trabalhador que depende do futebol para sobreviver?

Ou a liga é mais da lógica do "se pagar pela bagagem, o preço da passagem cai". Caiu? Não, gente. Não caiu. Subiu.

"Precisamos aumentar o bolo para então dividi-lo", dizem. Essa frase é dita por economistas liberais desde a ditadura.

"Uma economia que diz que precisa primeiro estabilizar, depois crescer e depois distribuir é uma falácia", ensina a economista Maria da Conceição Tavares.

"Não estabiliza, cresce aos solavancos e não distribui. Essa é a história da economia brasileira desde o pós-guerra", conclui.

Para Tavares, a preocupação da economia política deve ser sempre com quem paga a conta. Aí caberia a pergunta: e quem paga a conta no futebol?

Nós. Os torcedores e as torcedoras. E quem somos nós? Somos negros e negras, somos mulheres, somos LGBTQs, somos trabalhadores que ralam 15, 16,17 horas por dia apenas para pagar os boletos. Estamos no comando dessa tentativa de transformação do futebol? Não. Estamos de alguma forma participando dessa dita transformação? Não. Fomos, mais uma vez, chutadas e chutados para escanteio.

E quem somos nós?

Somos PCDs, somos periféricos e favelados, somos aqueles que ficamos acordados até tarde para ver nosso time mesmo tendo que acordar cedo no dia seguinte e enfrentar horas no transporte público, somos os que não podem mais pagar o preço dos ingressos, das camisas e muito menos virar sócio-torcedor. Esses são os que pagam a conta. A Libra vai beneficiá-los como? Vai re-incluí-los no jogo?

Gostaria de estar errada. Gostaria que a tal Libra fosse uma revolução no nosso futebol. Que, com ela, os estádios pudessem ser amplamente frequentados pela população periférica, negra, trabalhadora. Que esse torcedor tivesse tanta importância para o clube quanto aqueles chamados de "sócios". Que a camisa oficial pudesse ser adquirida por ricos e por pobres.

Gostaria de estar errada de achar que nosso futebol seguirá violento, racista, machista e misógino.

Gostaria de estar errada e ver, com a Libra, os preconceitos caírem um a um. Gostaria que, organizados, voltássemos a ser o umbigo cultural do futebol do mundo, como fomos em 70, 82 e 86. A Libra, cuidando dos campeonatos nacionais, colaborará para isso? Eu duvido.

"As transformações políticas não são uma questão de novas ideias, mas de novos afetos", ensina Vladimir Safatle. "Não são novas ideias que produzem grandes transformações. São novos afetos que produzem grandes ideias", diz ele.

Para que nos afetemos de outros modos é preciso conviver com outras formas de existência. É preciso que a gente transite por modos diferentes de vida.

Afetos criam disposições de conduta. Eles nos orientam a perceber, compreender e a julgar. Ser afetado sempre dos mesmos jeitos nos fará agir sempre dos mesmos jeitos.

É por isso que eu não acredito que a Libra mudará qualquer de fundamental.

Ela seguirá aumentando a desigualdade (no futebol e fora dele), seguirá enriquecendo os mesmos e excluindo a maior parte da população desse jogo que chamamos de nosso.

A Liga ainda está sendo estudada pelos cartolas. Muitos ajustes no plano original devem ser feitos. Nada está confirmado nem sacramentado. Mas eu duvido que ela deixe de ser implementada.

O que acho é que, para quem importa, tudo seguirá tão ruim como antes, enquanto a CBF atuou como "gestora" dos nacionais - uma palavra medonha que esconde outra considerada não muito nobre: gerente. Gestão, essa palavra que anda de casaco nas costas e sapatênis, não é nada mais do que gerência.

Se eu gostaria de estar errada? Gostaria. Gostaria muito. Seria o melhor erro da minha vida. O que mais me deixaria feliz. Mas eu não apostaria nele.