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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: O que faz alguns acharem que homossexualidade pode ser ensinada?

Mauricio Souza reclama durante partida entre Brasil e Irã pela Liga Mundial de Vôlei - Alexandre Loureiro/Getty
Mauricio Souza reclama durante partida entre Brasil e Irã pela Liga Mundial de Vôlei Imagem: Alexandre Loureiro/Getty
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

26/10/2021 18h23

O que faz algumas pessoas acharem que homossexualidade pode ser ensinada? O raciocínio não se sustenta por dois segundos. Vejam: se sexualidade fosse absorvida por aprendizado seríamos todos heterossexuais. É isso o que nos ensinam há séculos: a heterossexualidade. Nas TVs, nos livros, nos filmes, nas escolas, nas igrejas.

Se Mauricio Souza, jogador de vôlei do Minas Tênis Clube que no dia das crianças fez postagem criticando imagem de um beijo entre duas personagens de cartoon ("A, é só um desenho, nada demais. Vai nessa e vamos ver onde vamos parar"), acha que sexualidade se ensina, basta ensinar ao filho ou aos filhos (não sei de fato nem se ele tem filhos) a prática secular da heterossexualidade. Não estaria tudo resolvido?

Mas que medo é esse da homossexualidade? Tratam dois homens se beijando como se fosse a coisa mais tentadora do mundo. Diz mais sobre o desejo de quem berra do que sobre o beijo em si.

Escrevi sobre isso há pouco aqui e não quero me alongar, até porque esse assunto, em 2021, deveria estar enterrado, mas seria razoável que um amigo dessa galera que está alardeando tanta homofobia por aí desse um toque a respeito dos atos falhos.

Não se trata aqui de sugerir que todo homofóbico tem desejos por pessoas do mesmos sexo - ainda que essa seja uma associação bastante imediata e aceitável. Se trata de chamar atenção para o fato de que ao tratarem a homossexualidade como alguma coisa tão suculenta a ponto de não poder ser mostrada a uma criança eles estão elevando a relação amorosa entre pessoas do mesmo sexo a uma categoria maior e melhor do que a heterossexualidade. "Não olhem, é tentador", é o recado que passam quando saem berrando suas homofobias.

Meus caros homofóbicos, deixa eu contar um segredo: uma relação homossexual é feita das mesmas dores, dos mesmos prazeres, dos mesmos conflitos, das mesmas fragilidades e belezas de qualquer outra relação. Não somos melhores, parem de nos consagrar.

Naturalmente não causa espanto que Souza seja um apoiador do atual mandatário, alguém talhado para, em nome de um Deus que mais parece o diabo, sair pregando o odeiem-se uns aos outros e amem apenas aquilo que for exatamente igual a mim. Tudo é tão cheio de camadas de perturbação psíquica que me parece até redundante ficar comentando. Em todo o caso, vale sempre dizer que existe sim uma doença associada à homossexualidade: se chama homofobia. A boa notícia é que homofobia tem cura e o remédio está ao alcance de todos. Se chama amor e ele existe a fartar nesse universo.

No mais, não vou entrar aqui no debate se Mauricio precisa ou não ser punido pelo clube. O que sei é que um psicanalista certamente faria bem a ele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL