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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pia erra ao não chamar Cristiane

Marta e Cristiane na decisão do futebol feminino no Pan Rio 2007 - Joel Auerbach/Getty Images
Marta e Cristiane na decisão do futebol feminino no Pan Rio 2007 Imagem: Joel Auerbach/Getty Images
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

18/06/2021 18h09

O presente é o passado. O presente é o que a gente faz com o conhecimento acumulado e herdado daqueles que vieram antes da gente. Especialmente daqueles que, num tempo anterior, derrubaram paredes e muros para que estivéssemos aqui.

O futebol feminino brasileiro deve muita coisa às gerações de mulheres que nunca desistiram de jogar bola, mesmo agredidas, mesmo diminuídas, mesmo oprimidas. Por causa dessa luta fomos capazes de criar uma primeira geração de craques mundialmente conhecidas e celebradas: Formiga, Marta, Daniela, Cristiane. Não é pouca coisa ser ídolo e inspirar tantas crianças e seguir seus sonhos, sejam eles quais forem. É preciso que a gente respeite muito essas pioneiras.

Acho que uma forma importante de demonstrar respeito é ritualizar a ancestralidade como maneira de honrar todas e todos os que passaram por aqui antes da gente. Levar Cristiane, uma atacante ainda competitiva e atuante, para o que seria sua última olimpíada, ao lado de Marta e de Formiga, seria honrar o fim de uma primeira geração de ídolas do futebol feminino.

Esses ritos de passagem conferem sentido à luta, ao esforço, à união. Eles são importantes para que a gente se entenda parte de uma mesma comunidade. Ainda que Cristiane não fosse titular, seria uma espécie de justiça poética incluí-la no grupo uma última vez. E, de preferência, pensar numa homenagem oficial a essa primeira geração de ídolas, quem sabe convidar Sissi para integrar de alguma forma essa delegação.

Claro que Pia estava diante de um dilema complicado já que pode levar para os Jogos apenas 18 jogadoras, ou seja, 11 titulares e sete reservas. Mas essa é a questão dos dilemas morais: chamar Cristiane podendo levar as usuais 23 jogadoras talvez nem fosse tão difícil. Difícil é abrir esse espaço para ela dentro de um grupo tão pequeno. É perfeitamente possível entender o caminho do pensamento de Pia, portanto. Meu argumento é o de que algumas coisas na vida valem mais do que a competição, a performance e o resultado.

Pia merece todos os elogios pelo que realizou até aqui. Se voltar com o ouro vai ser ótimo, mas ainda que não volte, já terá feito um trabalho gigantesco. Derrapa agora ao não honrar uma de nossas maiores jogadoras e, ao deixar de celebrá-la, ferir a história do futebol feminino brasileiro.

Termino com as palavras de um de meus escritores prediletos, James Baldwin: "É responsabilidade do ser humano livre celebrar o que é constante - nascimento, luta, morte. Em vez disso celebramos o que não é constante - segurança, dinheiro, poder".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL