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Andrés Sanchez: 'Não se comparam as situações de Cruzeiro e Corinthians!'

Andrés Sanchez, presidente do Corinthians - Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians
Andrés Sanchez, presidente do Corinthians Imagem: Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians
Marília Ruiz

Tenho 20 anos de jornalismo esportivo: 5 Copas do Mundo, 4 Olimpíadas, muitos Brasileiros, alguns Mundiais e várias Copinhas. Neste blog seguirei fazendo isso: escrevendo sobre futebol. Sem frescura. Sem mimimi. Para versões oficiais dos clubes e atletas, recomendo procurar as assessorias de imprensa.

19/05/2020 12h57

Não está sendo um ano fácil para o Corinthians.

A pandemia do coronavírus mudou apenas o tom das críticas: saíram os debates sobre o pífio "futebol total" do time professor Tiago Nunes, eliminado na Libertadores e virtualmente eliminado dos mata-matas do Campeonato Paulista, e entraram as análises das superlativas dívidas e déficits do clube, evidenciados pelo balanço publicado há 15 dias.

A sete meses do final do seu mandato, o presidente Andrés Sanchez, em entrevista ao BLOG, refutou adjetivos catastróficos sobre a gestão das finanças alvinegras, refutou comparações com o Cruzeiro (afundado em crise financeira e esportiva), mas admitiu que os gastos com jogadores foi exagerada em 2019. Fez ainda ressalvas em relação às dívidas com a União e com parceiros do estádio, que estariam "inflacionadas" nas manchetes: segundo o cartola corintiano, o clube está em processo final de acerto de quitação com a construtora Odebrecht, e mais de R$ 590 milhões de dívida com a União já foram suspensas pela Justiça.

Por decisão desta jornalista, foram propositalmente eliminados assuntos Tevez, Messi, Cristiano Ronaldo ou qualquer outro factoide do mesmo naipe durante a entrevista de 1 hora feita nesta terça-feira. O momento corintiano é de fazer contas (inclui-se aqui, ou deveria ser incluída, a torcida).

Boa leitura!

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Marília Ruiz: Como você avalia esse seu mandato?

Andrés Sanchez: Voltei depois de 6 anos (saíra em 2011) e encontrei o clube fervendo politicamente, com a nova realidade da Arena e campeão de tudo. Clube campeão tem que contratar muito, tem que se reforçar, tem que manter. O clube gastou demais com jogadores nos últimos anos.

MR: Como você avalia as finanças do clube?

AS: O clube tem problemas financeiros pendentes, renegocia suas dívidas com o Governo Federal e com parceiros. Todo mundo sabe. Mas não existe isso de o Corinthians ser o maior devedor da União (segundo números Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, o clube deve R$ 737,7 mi; o clube contesta de R$ 597 mi dessa dívida já suspensos por decisão do Tribunal Federal da 3ª. Região)... O problema do Corinthians foi ter gasto demais com jogador e não vender na mesma proporção. Esse ano, com pandemia e tudo, vamos ter superávit por causa da venda do Pedrinho (negociado com o Benfica por 20 milhões de euros).

MR: Mas no ano passado o déficit foi recorde: R$ 177 milhões. O problema foi só o erro na contratação?

AS: O problema foi contratar e não vender. O problema foi que presidentes anteriores haviam antecipado cotas e patrocínios. O problema do Corinthians é mesmo fluxo de caixa. O próximo presidente vai ter uma vida menos complicada porque não estou antecipando nenhuma cota neste ano.

MR: Com ou sem distanciamento social, haverá eleição em novembro? Está confirmada?

AS: Não sei, mas acho que sim! Mas com ou sem eleição eu saio no dia 2 de janeiro. Chega de ser presidente.

MR: Você acha que vai fazer seu sucessor?

AS: Não sei. Não sei nem se o nosso grupo (Renovação e Transparência, no poder desde 2008) vai lançar candidato. Se lançar, eu apoio.

MR: Mas e se o grupo lançar dois, já que o Mario Gobbi parece desenhar alianças com opositores neste momento...

AS: Não sei disso.

MR: Você não apoia a eleição do diretor de futebol Duílio Monteiro Alves?

AS: Se ele for o nome do grupo, apoio. Se não tiver nome, não apoio ninguém e vou ser oposição um pouco no ano que vem.

MR: O ano que vem do Corinthians está comprometido com tantas dívidas? Como equacionar isso? O que você acha das comparações das situações do Corinthians-20 com o Cruzeiro-19?

AS: Não são comparáveis. Aconteceram coisas absurdas no Cruzeiro, coisas que estão sendo investigadas. Aqui o problema é que gastou mais e arrecadou menos. Faltou dinheiro. Os títulos não dão um tempo de paz, ao contrário, aumentaram a pressão por jogador. E time brasileiro que não vende jogador fica no vermelho. No ano passado não vendemos ninguém.

MR: Perto dos seus rivais, o Corinthians vende mal?

AS: Não acho que venda mal. Em média, o clube vende R$ 120/130 milhões por ano. Mas no ano passado contratamos demais e não vendemos. Outros clubes têm condição de ter garotos de 14/15 anos porque têm CT de categoria de base. Nós estamos terminando o nosso. Daí vamos poder revelar e fazer mais dinheiro com jogadores mais novos.

MR: A Arena Corinthians representa quanto do problema financeiro do clube?

AS: Vou deixar a presidência com boa parte dessa dívida resolvida. Vai ficar para saldar a dívida com a Caixa.

MR: A dívida com a Odebrecht será quitada? Quanto o Corinthians pagará?

AS: O acordo está avançado. O Corinthians repassou CIDS (Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento da Prefeitura de SP), aceitou parte da obra não acabada... Em breve não haverá pendência alguma contratual de nenhuma das partes.

MR: E com a Caixa?

AS: A negociação de acordo judicial está parada como tudo. Pegamos R$ 400 milhões, já pagamos mais de R$ 160, não podemos dever mais de R$ 530 mi (R$ 536 mi). A renegociação está em curso.

MR: Você mencionou que mesmo com a pandemia, o Corinthians terá superávit em 2020. O Clube não está devendo salário para os jogadores?

AS: O clube está com as férias atrasadas e vai quitar isso assim que entrar o dinheiro da negociação do Pedrinho.

MR: Com a crise atual, o Corinthians pode falar em reforços para depois da pandemia. Existe a chance de repetir o que você fez com o Ronaldo: um clube sem dinheiro que trouxe um ídolo para fazer dinheiro?

AS: Nenhuma chance, porque sé existe um Ronaldo. Outros clubes tentaram e não conseguiram. Nós tentamos como a Adriano e não conseguimos. Agora nós estamos lutando para sobreviver. A TV, que é nossa principal arrecadação, cortou 70% dos pagamentos. Muitos clubes já estão em situação caótica, nós estamos em situação muito difícil, e em 30 dias tudo estará caótico.

MR: As chances de termos futebol em 30 dias são remotíssimas, irreais. Não passou da hora de os clubes pensaram em alternativas para os campeonatos?

AS: Nós queremos entregar tudo que colocamos nos contratos. Vamos fazer um esforço sobrenatural para jogar as rodadas como estavam estipuladas.

MR: Não lhe parece uma proposta cada vez mais irreal?

AS: Estou dizendo que queremos e vamos tentar entregar. Se vai dar, não depende de nós.

MR: O Corinthians do pós-pandemia será melhor do que aquele de antes? Como você avalia o trabalho do Tiago Nunes?

AS: Trabalho bom, e resultado péssimo.

MR: Por que, depois de tantos anos vitoriosos com uma forma parecida de jogar, você apostou em um técnico sem tanta experiência e com métodos tão diferentes dos usados na vitoriosa década corintiana?

AS: O Tiago Nunes está tendo a chance que o Tite, o Carille, o Parreira um dia tiveram de estar à frente de um grande. No final do ano passado eu achei que tinha que mudar, que estava na hora e que não dá para se ganhar sempre do mesmo jeito.

MR: Mas não está ganhando...

AS: Não estava. Mas podemos voltar diferentes. Não seremos nem o pior time nem o melhor time. Vamos disputar em pé de igualdade com os rivais.

MR: Futebol é resultado como você disse...

AS: Futebol é resultado.

*Nota dessa blogueira: Não há pandemia que mude isso...

Marília Ruiz