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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caso de Maurício Souza mostra necessário combate ao preconceito no esporte

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

27/10/2021 07h43

Por Gabriel Coccetrone

A terça-feira (26) foi bastante movimentada nos bastidores do vôlei brasileiro. Tudo começou a esquentar no começo da tarde, quando os principais patrocinadores da equipe masculina do Minas Tênis Clube se manifestaram sobre as recentes declarações feitas pelo jogador Maurício Souza nas redes sociais sobre a sexualidade do Super-Homem e cobrarem "medidas cabíveis" do clube.

Diante da forte pressão popular e de parceiros comerciais, o Minas anunciou o afastamento por tempo indeterminado de Maurício Souza, bem como a aplicação de uma multa e um pedido de retratação sobre as declarações. Segundo o 'Ge', diante da falta de clima, o clube chegou a pensar em rescindir o contrato com o jogador, mas voltou atrás. Essa não é a primeira vez que casos de preconceito envolvendo atletas nas redes sociais acontecem.

Domingos Zainaghi, advogado trabalhista, ressalta que o clube pode despedir qualquer empregado, caso não concorde com um posicionamento contrário às suas diretrizes, mas que isso não é motivo para justa causa.

"Nesse caso envolvendo Maurício Souza e o Minas, uma dispensa neste momento, ainda que sem justa causa, poderá dar ensejo a uma indenização na justiça trabalhista por dispensa abusiva", acrescenta Zainaghi.

Mônica Sapucaia, advogada especialista em Direitos Humanos, lamenta mais um episódio de preconceito no esporte.

"Essa ideia de que ser homofóbico, racista, sexista, antissemita é uma opção, um ponto de vista, tem sido desastrosa para a consolidação dos Direitos Humanos. Todos os seres humanos têm o direito de viver em uma sociedade em que sua orientação sexual, raça, etnia, religião não sejam questionadas e oprimidas. Observamos que os patrocinadores entenderam que só faz sentido patrocinar um time que encante a pluralidade e não que reafirme privilégios e estereótipos", avalia.

As discussões começaram há cerca de duas semanas, após a DC Comics anunciar que o novo Super-Homem, filho de Clark Kent, se descobrirá sexual nas próximas edições da história em quadrinhos. Diante disso, Maurício Souza foi ao Instagram para criticar à decisão da editora.

"Ah é só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar", escreveu o jogador, que recebeu comentários de apoio de outros atletas do vôlei, como Wallace e Sidão.

O Minas se manifestou sobre o caso na segunda-feira (25). Em comunicado oficial, o clube disse que respeitava a opinião de cada atleta, mas que não aceitaria declarações homofóbicas.

"O Minas Tênis Clube está ciente do posicionamento público do atleta Maurício Souza, do Fiat/Gerdau/Minas. Todos os atletas federados à agremiação têm liberdade para se expressar livremente em suas redes sociais. O clube é apartidário, apolítico e preocupa-se com a inclusão, diversidade e demais causas sociais. Não aceitamos manifestações homofóbicas, racistas ou qualquer manifestação que fira a lei. A agremiação salienta que as opiniões do jogador não representam as crenças da instituição sócio desportiva. O Minas Tênis Clube pondera que já conversou com o atleta e tem orientado internamente sobre o assunto", disse o Minas.

A publicação de Maurício causou grande repercussão nas redes sociais, com internautas considerando a postagem preconceituosa e como uma indireta entre os companheiros de seleção brasileira, uma vez que o ponteiro Douglas Souza faz parte da comunidade LBTQIA+.

"Ainda é necessário lembrar que ninguém pode escolher entre ser a favor ou contra direitos humanos. DH se respeita e se protege. Ser homofóbico, racista, misógino, etc, não é uma opção, mas um crime. E o esporte não se afasta da proteção de direitos humanos, inclusive reforçada em seus regulamentos internos", lembra o advogado especializado em direito desportivo, jornalista e autor dessa coluna, Andrei Kampff.

Mônica Sapucaia destaca a importância e o poder de influência que atletas e personalidades têm em relação as outras pessoas.

"O esportista de sucesso é um formador de opinião importante e por isso sua posição pesa na compreensão dos outros, logo quando um expressa seu desrespeito pelos Direitos Humanos, é necessário que as instituições envolvidas rechacem essa postura e tomem providências para que não ocorra novamente", encerra a advogada.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL