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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Atleta decapitada é outdoor da violação de direitos humanos no Afeganistão

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

22/10/2021 08h56

Andrei Kampff

O Taleban voltou sendo Taleban e a proteção de direitos humanos - em especial contra as mulheres - tem sido a maior vítima do regime. Nesta quinta (21), o mundo se viu chocado com a informação de que a jogadora de vôlei Mahjabin Hakimi foi decapitada porque teria se negado a seguir as regras do grupo extremista islâmico, conforme informou o jornal "Times of Índia".

Segundo a informação, a denúncia foi feita por um dos treinadores da jogadora ao jornal Persian Independent. Com o pseudônimo de Suraya Afzali, o denunciante, que teme represálias, afirma que a jogadora foi assassinada no início de outubro. As condições da morte da atleta eram de conhecimento apenas da família, que também teme retaliações.

"Todas as jogadoras do time de vôlei e o resto das atletas femininas estão em uma situação ruim. Estão desesperadas e com medo. Elas foram forçadas a fugir e viver em lugares desconhecidos", afirmou o treinador ao jornal, sob o pseudônimo de Suraya Afzali.

Taleban de volta ao poder

A volta do Taleban ao poder no Afeganistão representa muito mais do que uma derrota das forças norte-americanas que estavam no país há quase 20 anos. É uma derrota das minorias, dos direitos humanos, das mulheres e de todos que buscam um mundo mais igual e livre. Claro que o esporte também sofre uma perda gigante.

Mulheres já deixaram escolas e universidades, empregos e o esporte já não é mais uma possibilidade de escolha. Várias atletas têm fugido do país, com a ajuda de coletivos globais de direitos humanos e também das entidades esportivas como o COI e a FIFA.

Inclusive a FIFA informou que "coordenou com o governo do Catar desde o mês de agosto a retirada do grupo e continuará trabalhando de maneira estreita para a saída em total segurança de outros membros da família esportiva no futuro". Quase 100 integrantes da "família do futebol", incluindo jogadoras, foram transportadas do Afeganistão, governado desde agosto pelo regime do Taleban, para Doha, no Catar, em um voo da Qatar Airways, "com o apoio" do país que receberá a Copa do Mundo de 2022.

Ao esporte só resta um caminho, proteger as pessoas e combater a violação de direitos humanos.

O que é o Taleban?

A palavra Taleban significa "estudantes" em pashto (uma das línguas faladas no Afeganistão). Esse grupo de orientação sunita foi formado por ex-guerrilheiros conhecidos como mulahidins no início dos anos 90. Eles tinham participado do confronto contra forças soviéticas no país, com o apoio militar e financeiros dos Estados Unidos.

Desde a criação, o objetivo do Taliban era impor uma lei islâmica, que os integrantes interpretavam de sua maneira, no país.

Rapidamente, em 1996, o Taleban ganhou controle do país e o Afeganistão foi proclamado um emirado islâmico.

Nos anos seguintes, até a guerra que derrubou o regime em 2001, o grupo controlou o Afeganistão com uma interpretação dura da sharia, a lei islâmica.

Política de violação a direitos humanos

A soberania do país e a liberdade religiosa devem ser sempre respeitados, entendidos e protegidos. Agora, eles jamais podem ser usados como forma de agressão e repressão a direitos inegociáveis.

O Taleban, numa leitura restritiva do Islamismo, historicamente ataca direitos protegidos universalmente. De acordo com grupo, as mulheres têm uma posição diferente dos homens, tendo privada a liberdade, a possibilidade de praticar esporte e até o acesso das meninas às escolas.

Ou seja, se ataca o presente e o futuro das mulheres.

A ONU já tem recebido relatos de que mulheres e meninas já não podem deixar suas casas e circular pelas ruas e locais públicos sem um Mahram, um acompanhante masculino. A entidade acredita que essas restrições têm um sério impacto nos direitos das mulheres, incluindo o direito à saúde e educação.

Impedir a mulher de sair de casa sem um acompanhante masculino também leva a uma série de outras violações dos direitos econômicos e sociais da mulher e de sua família. O esporte está no meio dessas privações.

A realidade de hoje, e daquela que se viveu sob às ordens do grupo, mostra que existe uma lacuna gigante entre declarações universais de direitos humanos e a realidade de sistema político imposto.

Papel do esporte

É fundamental que a ciência, a ONU, coletivos globais e o próprio movimento esportivo exerçam mecanismos de pressão internacional dando atenção especial a vigência, eficiência e vinculação dos direitos da pessoa humana não somente na proteção de Direitos Humanos, como também Direitos Fundamentais.

COI e FIFA devem tomar com o Afeganistão a decisão que já tomaram contra países como a Africa do Sul na época do Apartheid, o da exclusão do movimento esportivo.

Pelo que se vê, lê, se ouve e já se sabe, o caminho é distante e difícil para que o Estado islâmico no Afeganistão possa ser moldado na silhueta e na culturalidade da pessoa humana. Mas é fundamental ajudar mulheres e minorias para que o regime respeite liberdade e o simples direito de escolha. Inclusive o de praticar e viver de esporte.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL