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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Variação cambial na pandemia traz impacto e prejuízo aos clubes brasileiros

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

08/04/2021 10h05

Por Gabriel Coccetrone

A pandemia da covid-19 provocou uma crise gigante na saúde pública e na economia. O esporte também sofre com consequências ainda incalculáveis. Um dos reflexos que já pesa nos cofres dos clubes é a variação cambial dos últimos meses. A desvalorização do real frente as principais moedas estrangeiras, como euro, dólar e libras, é mais um tombo gigante para a economia do futebol brasileiro.

Com a valorização muito repentina dessas moedas, as dívidas de clubes brasileiros com clubes de outros países aumentaram demais. Diversos clubes tentaram alegar junto à Fifa que essa variação seria um caso fortuito e que por isso teriam caminhos para postergar o pagamento de suas dívidas (em dólar/euro) ou renegociar parte dos valores.

A Fifa se posicionou dizendo que não haviam motivos para isso, alegando que esses valores eram pactuados na moeda internacional, havendo mecanismos de proteção aos clubes, ou seja, que as entidades esportivas possuem ativos e passivos na moeda estrangeira.

"É importante destacar que, apesar de as principais despesas dos clubes brasileiros serem em real, uma pequena parte delas se concentram na moeda estrangeira, principalmente na compra e venda de direitos econômicos de atletas profissionais, que representam ativos e passivos dessa moeda", aponta o professor Wilson Nakamura, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Administração de Empresas da Universidade Presbiteriana Mackenzie e um dos convidados do programa.

Para Vinicius Loureiro, advogado especialista em direito desportivo e colunista do Lei em Campo, as dívidas dos clubes se sobressaem em cima dessa desvalorização.

"Mais relevante que a desvalorização cambial, é efetivamente o endividamento dos clubes, que perdem o poder de barganha. Ou seja, eles sabem que o poder de mercado de alguns atletas é maior, mas se veem obrigados a aceitar propostas menores em razão da sua necessidade de liquidez. Se a parte que oferta tem um poder de barganha maior, ela consegue reduzir o preço", avalia o advogado.

"O maior problema está quando um clube brasileiro tem um passivo maior do que o ativo, ele fica exposto a variação dessas moedas estrangeiras. Quando elas se valorizam em relação ao real, como aconteceu ao longo dos últimos meses, essas equipes acabam amargando perdas significativas", avalia Nakamura.

Além de impactar nas transferências, é importante analisar os efeitos que essa variação da moeda internacional trouxe nos salários dos jogadores estrangeiros que atuam no futebol brasileiro. Um exemplo disso aconteceu no Palmeiras, em 2014, que contratou alguns jogadores argentinos a pedido do então técnico Ricardo Gareca.

O Alviverde não se protegeu de possíveis valorizações/desvalorizações cambiais e, com o aumento dólar em relação ao real na época, os salários desses jogadores argentinos sofreram grandes mudanças em poucos meses. Isso trouxe um impacto muito danoso para as finanças do clube.

"O que se recomenda para os clubes de futebol para evitarem perdas com essa valorização da moeda estrangeira seria fazer operações com derivativos, principalmente em NDFs, ou seja, contratar um banco que possa oferecer transações em 'hedge' através de contratos a termo", avalia Wilson Nakamura.

Apesar da disponibilidade de alguns mecanismos de proteção à desvalorização cambial, poucos clubes parecem se preocupar com isso.

"Na esmagadora maioria, os clubes deixam de fazer esses contratos de 'hedge' por conta de uma insuficiência administrativa. A gente vê que as gestões de muitos clubes são extremamente amadoras em termos financeiros, acredito que muitos nem conhecem esses mecanismos de proteção", analisa Vinicius Loureiro.

Nakamura explica que nem toda valorização da moeda estrangeira é ruim para os clubes brasileiros: "O fato dessas moedas terem subido acaba sendo de certa forma vantajoso para os clubes. Os jogadores brasileiros ficam mais baratos perante os clubes do exterior, em especial os da Europa, ou seja, fica mais atrativo para eles comprarem atletas brasileiros. Como muitas instituições precisam fazer 'caixa', esse fator 'incentivador' acaba sendo de certa forma algo positivo."

"Os clubes devem e podem melhorar muito em sua gestão financeira. Esse caso da variação cambial é só mais um que mostra como essas instituições estão colocando seu dinheiro em risco", finaliza Loureiro.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL