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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Casos em Pernambuco mostram atraso do futebol no combate à concussão

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

29/03/2021 04h00

Por Gabriel Coccetrone

Neste final de semana, o futebol brasileiro assistiu assustado mais dois casos graves de concussão entre jogadores. Ambos aconteceram no Campeonato Pernambucano, nas partidas entre Vitória-PE x Náutico e Sport x Central.

No sábado (27), dois jogadores do Vitória-PE, Giovani e Palominha, se chocaram fortemente logo nos primeiros segundos da partida contra o Náutico. A dupla chegou a ficar desacordada e inconsciente por alguns minutos, mas ao se 'recuperarem', retornaram ao campo, desrespeitando o protocolo da Fifa que proíbe a volta em casos que houver concussão.

Para Hermano Pinheiro, fisioterapeuta esportivo e um estudioso da concussão no esporte, o retorno dos jogadores foi algo "inaceitável".

"É inaceitável que algo assim ainda aconteça em 2021 com tanta informação disponível e educação em saúde sobre concussão cerebral no esporte. Todos os profissionais de saúde que atuam no esporte deveriam conhecer o Consenso Internacional sobre Concussão no Esporte que é atualizado a cada 4 anos e publicado no British Journal of Sports Medicine. Nenhum atleta com suspeita de concussão deve retornar ao jogo no mesmo dia", ressalta o especialista.

"Esse é um risco que as entidades que administram o futebol correm ao permitir o uso da cabeça no jogo. Infelizmente as pesquisas no futebol ainda são escassas, mas partindo do princípio da precaução e considerando os robustos indícios de danos irreparáveis, ao manter as regras como estão as entidades que regulam o futebol trazem para si toda a responsabilidade por todo dano decorrente de choques de cabeça", afirma Vinicius Loureiro, advogado especialista em direito desportivo e colunista do Lei em Campo.

Os dois jogadores não conseguiram continuar na partida. Palominha foi substituído após voltar a cair no gramado, poucos minutos depois do choque, enquanto Geovani chegou a vomitar à beira do campo na saída para o intervalo. Mesmo estando conscientes, ambos foram encaminhados ao Hospital da Restauração, no Recife. Após a realização de exames, foi constatada uma fratura na face de Palominha.

"A perda de consciência ocorre em apenas 10% dos casos de concussão, mas quando ela está presente a identificação da concussão se torna fácil. Quando o atleta fica inconsciente após impacto na cabeça estamos diante de um sinal de alerta e a recomendação é que ele seja encaminhado imediatamente para um hospital para realizar uma Tomografia. Isso é importantíssimo pois além da concussão é possível que tenha ocorrido uma ruptura vascular, por exemplo", destaca Hermano Pinheiro.

O caso não foi o único. No mesmo Campeonato Pernambucano, um choque de cabeça assustou quem assistia a partida entre Sport e Central, no domingo (28). Aos 49 minutos, o goleiro Carlos Eduardo, do Leão, tentou cortar um cruzamento e acabou trombando com o zagueiro Lucão, da equipe adversária.

Por conta das fortes dores e seguindo o protocolo de concussão no futebol, Carlos Eduardo acabou sendo transferido para um hospital onde passou por exames. De acordo com o médico do Sport, Leonardo Silveira, o goleiro sofreu um trauma na face e uma fratura na parte inferior ao olho.

"Esses são casos onde se percebe de forma evidente o risco e o dano, mas as cabeçadas na bola, em jogos ou treinos, também provocam danos neurológicos, que muitas vezes são negligenciados. Precisamos de casos graves como esse para colocar o assunto em discussão", completa Loureiro.

"O futebol brasileiro precisa de um protocolo de concussão fortemente embasado do ponto de vista científico e ele precisa ser posto em prática. Na NFL, por exemplo, as equipes são penalizadas quando não cumprem o protocolo de concussão", atenta Hermano.

A Inglaterra está tentando tratar a concussão com maior seriedade. Na última sexta-feira (26), a Premier League anunciou uma importante medida para precaver o desenvolvimento de doenças mentais a longo prazo em jogadores. A liga decidiu estabelecer diretrizes para cabeceios em treinamentos a partir da próxima temporada.

O estudo contará com jogadores do Liverpool (sub-23, sub-18 e equipes femininas) e do Manchester City (sub-18 e equipes femininas). Os atletas estarão com protetores dentais com sensores para buscar informações e dados sobre os impactos da bola na cabeça.

Os clubes, jogadores, treinadores e médicos da Inglaterra já foram consultados sobre o teste e aprovaram a iniciativa, que agora serão encaminhadas para diferentes organizações para aprovação.

A discussão sobre doenças mentais no futebol inglês ganhou força no ano passado, depois que familiares de campeões mundiais de 1966 revelaram que alguns ex-atletas foram diagnosticados com problemas cerebrais em decorrência de impactos na região durante a carreira.

A Premier League foi a primeira liga do futebol mundial a adotar o protocolo experimental de concussão da Fifa, anunciada em dezembro, que permite uma substituição adicional para casos de concussão real ou suspeita no futebol.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL