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Richarlison, um herói brasileiro

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

24/11/2020 12h19

Andrei Kampff

Antes que venham com a clássica "atleta é pago para jogar, competir", já vou esclarecendo. Sim. Verdade. Mas quando ele entende a força que tem, ele vai além de um campo, de uma quadra, de uma pista. Ele ajuda a transformar vidas e realidades. E são poucos os que entenderam tão bem esse papel como Richarlison, para mim o maior nome do esporte brasileiro em 2020, um ano tão complicado.

O atacante do Everton e da seleção brasileira é mais um daqueles a mostrar que todos temos compromissos profissionais, jornalistas, advogados, operários, garçons, jornalistas e atletas, mas temos também responsabilidade como cidadãos na construção de um mundo melhor. E quando ídolos entendem isso, a força do exemplo se potencializa.

Pela força que tem, o esporte é um agente catalisador de transformações sociais importantes. Tanto que ele e seus personagens já pararam guerras e aproximaram povos; o esporte recuperou pessoas. Richarlison ajuda a combater o preconceito e na luta por justiça.

Aos casos

Na última semana o Brasil assistiu assustado, revoltado e profundamente triste a morte de mais um negro vítima de uma agressão absurda.

Joao Alberto Freitas, de 40 anos, foi espancado e morto por dois homens brancos em um supermercado Carrefour em Porto Alegre, na noite do dia 19 de novembro, véspera do Dia da Consciência Negra. O espancamento foi filmado.

Os agressores trabalham como seguranças de uma empresa terceirizada, a Vector Segurança, que prestava serviço para o supermercado.

O assassinato provocou uma grande comoção, e a sociedade se manifestou. Richarlisson também se posicionou no Twitter:

"Parece que a gente não tem saída? Nem no dia da Consciência Negra. Aliás, que consciência? Mataram um homem negro espancado na frente das câmeras. Bateram e filmaram. A violência e o ódio perderam de vez o pudor e a vergonha", escreveu o jogador.

O Amapá também vivem um drama. O estado sofreu um apagão de energia elétrica, depois de um incêndio em um transformador. Depois de fazer um dos gols do Brasil na vitória sobre o Uruguai por dois a zero pelas eliminatórias, ele fugiu do óbvio na entrevista. Mais do que dedicar o gol a população do estado, ele cobrou que as autoridades resolvessem o problema.

"É sempre bom marcar gols com a camisa da Seleção, ainda mais contra uma grande equipe, o Uruguai. Jogar aqui no Centenário é muito difícil. Falando em marcar gol, queria dedicar esse gol a todas as pessoas do Amapá, que estão sofrendo muito durante esses dias. Como cidadão brasileiro, eu peço que as autoridades se pronunciem, tomem uma decisão logo, o povo está sofrendo, e eles poderiam dar uma atenção a mais. Que eles possam olhar com carinho o povo de lá, são cidadãos de bem, estão querendo o melhor para eles, para os filhos dele. Imposto está caro, pagando a comida caro, e o povo sofrendo. Espero que possam tomar as providências logo", disse o jogador.

Mas esta postura não é de hoje. O jogador nascido em Nova Venância no Espírito Santo já usou suas contas nas redes sociais com mais de 3,3 milhões de seguidores para defender a importância da ciência no combate à pandemia do novo coronavírus, criticar as queimadas no Pantanal e pedir justiça por Mariana Ferrer (blogueira que acusa o empresário André Aranha de estupro) e Robson (ex-funcionário do volante Fernando que está preso na Rússia acusado de tráfico).

Richarlison já disse que se inspira em Marcus Rashford, atacante do Manchester United e da seleção inglesa. Com um trabalho social importante, Rashford conseguiu levar comida a crianças pobres na Inglaterra nesse período de pandemia.

Infelizmente, Rashford e Richarlison ainda são exceções.

É. preciso acabar com um silêncio constrangedor

Você provavelmente adora e repete por aí que "o futebol é muito mais do que um jogo". Mas vai além por quê? Porque mexe com a sua emoção. Afinal, o umbigo é nosso reino. Dito isso, agora posso eu repetir que o esporte é muito mais do que um jogo. Mas explico: além de agradar o meu umbigo, ele é também um catalisador de transformações sociais e um instrumento de paz entre nações.

E ele é importante em qualquer movimento social, seja no combate à pobreza e desigualdades, seja na luta permanente contra o preconceito.

O apoio à diversidade tem sido uma batalha de vários movimentos ao redor do planeta. Vários movimentos sociais, como também influenciadores, artistas e atletas já se manifestaram de diversas maneiras sobre a importância do respeito e da necessidade de inclusão.

Mas no Brasil, personagens importantes do esporte normalmente se calam. O que é uma pena.

Repito: o esporte sempre foi um catalisador de transformações sociais pelo mundo. Ele ajudou na luta contra o racismo, contra a discriminação aos mais pobres, até na abertura democrática brasileira durante os anos da ditadura. Devido à força que o esporte tem como instrumento de transformações, não podem existir fronteiras entre ele e causas importantes para a sociedade. A ONU também sabe da força que o esporte pode ter.

A ONU tem o esporte como aliado

A Carta Olímpica já traz como objetivo que o esporte ajude na construção de um mundo melhor; a própria ONU, com uma resolução de 2003, colocou o esporte como instrumento de desenvolvimento de saúde, educação e paz.

A Assembleia Geral da ONU criou em 2006, por meio da Resolução A/RES/67/296,o Dia Internacional do Esporte para o Desenvolvimento e pela Paz. E ele tem sido celebrado em vários lugares do mundo, como no Brasil. Ele faz parte de uma ideia global da Organização de inserção do esporte em políticas sociais.

Mas a ideia de ter o esporte como vetor de promoção e desenvolvimento da paz no mundo vem sendo pauta da ONU desde 2003, quando a Organização publicou a Resolução 58/5, intitulada "Esporte como um meio para promover educação, saúde, desenvolvimento e paz".

Inclusive na Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável, está escrito que o esporte é importante facilitador para a promoção do desenvolvimento e da paz, a partir da promoção da tolerância e do respeito e das contribuições que pode fazer para o empoderamento de indivíduos, como também para atingir objetivos como inclusão social, melhorar a educação e saúde no mundo.

Todos podem mais

O esporte vai além do jogo, claro que vai. E ídolos têm papel importante quando não estão em campo, em quadra, ou numa pista. Eles não só podem, mas devem ser agentes de transformação social.

No Brasil, em especial os jogadores de futebol.

Já se falou por aqui que o futebol é um problema social, no Brasil e no mundo. Neymar, Dudu, Gabigol e bruxaria representam a exceção. Apenas 3% dos jogadores brasileiros ganham mais de 50 mil reais por mês, e conseguiram com talento driblar um destino de dificuldades e injustiças.

Venceram a lógica, e por isso já estão quites com o mundo? Eu acho que não.

É obrigação? Claro que não.

Cada um faz aquilo que entende ser importante. Mas tenho certeza que usando esse poder de transformar realidade e vidas, se estará não só contribuindo para um mundo melhor, como também inspirando comportamentos.

Basta olhar os exemplos de atletas que entenderam que sua força vai muito além de uma pista ou quadra ou campo, e que eles podem ser agentes importantes na construção de uma sociedade melhor, menos excludente, e mais humana.

Olhem o exemplo de Richarlison. Olhemos todos.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL