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Magazine Luiza tem muito a ensinar ao esporte no combate ao racismo

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

22/09/2020 10h00

A seleção para o programa de trainee da Magazine Luiza, que só aceitará negros, provocou polêmica nas redes sociais e reavivou uma discussão fundamental no combate ao racismo, a falta de representatividade negra em posições estratégicas nas empresas. O mesmo acontece no esporte, que poderia aproveitar esse exemplo e deixar o movimento esportivo mais plural. Algumas iniciativas existem, mas elas não têm sido eficientes.

O esporte tem na sua natureza o combate ao preconceito. Mesmo assim, existem poucos negros em cargos de comando.

A Liga Inglesa de Futebol (EFL) decidiu enfrentar o problema. Ela tem uma política - chamada de "Regra de Rooney" - em que os clubes devem ter no processo de seleção pelo menos um candidato negro, ou asiático, ou de etnia minoritária para uma vaga administrativa, o grupo chamado BAME. Mas existem brechas para o clube não cumprir essa regra. Por exemplo, ela não precisa ser cumprida se não houver um processo de seleção e for ouvido apenas um candidato. Além disso, não existe punição para clube que não cumprir a regra.

Depois de um projeto piloto de 18 meses, a EFL introduziu a política em 2019 - depois que os clubes votaram a favor -, se tornando a única liga na Europa a ter um regulamento nesse sentido.

No futebol inglês, segundo a BBC, existem apenas seis gerentes da BAME (Black, Asian and minority ethnic - negros, asiáticos e minorias étnicas) entre os 91 principais clubes do país.

A falta de representatividade dos negros em postos de comando é um problema global no esporte.

Fatma Samoura tinha uma longa história como funcionária da ONU, trabalhando em diversas funções, até ser anunciada, em 2016, como secretária-geral da Fifa. Sua chegada à entidade foi comemorada como uma mudança de paradigma, já que ela é uma das poucas pessoas negras a ocupar um cargo de tamanha relevância em escala global.

No Brasil, são raros os técnicos negros entre os principais clubes. Ainda mais raro é ver dirigente negro no comando do esporte.

Para especialistas, a falta de mais negros em posições de chefia na administração do futebol faz com que as ações para combater o problema sejam menos eficazes e as punições para crimes de racismo no esporte sejam mais brandas.

"Sem dúvida, a falta de negros em cargos de comando - técnico, gestor, dirigente - influencia nessa questão. Desde sempre são brancos legislando e julgando casos de racismo vivido por negros. Se vivessem na pele, seria diferente", opina Marcel Tonini, doutor em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

"A estrutura do esporte, do futebol, é muito racista. Temos jogadores negros, mas é chão da fábrica. Não temos dirigentes, treinadores ou comentaristas negros. Se a grande maioria dos atletas são negros, como não temos a representatividade nas bancadas?", questiona o fundador do Observatório do Racismo, Marcelo carvalho.

O futebol até endureceu a política de combate ao preconceito.

Em julho do ano passado, a Fifa anunciou um Novo Código Disciplinar, cujo texto dá ênfase ao combate ao racismo.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, já falou sobre sua insatisfação com o racismo que se apresenta no futebol. "Precisamos identificar os autores e expulsá-los dos estádios. Não devemos ter medo de condenar os racistas, devemos combatê-los até o fim", disse Infantino.

Mas o futebol não tem dado o exemplo de um combate efetivo ao problema do racismo no futebol.

A história mostra que penas financeiras não têm ajudado a diminuir os crimes de injúria racial. É preciso ser mais rigoroso, e punir o clube também esportivamente.

O Grêmio ainda é o único clube que sofreu uma punição mais dura da Justiça Desportiva brasileira no caso do goleiro Aranha. O time foi eliminado da Copa do Brasil de 2014 por conta de manifestações racistas dos torcedores.

Poderia ser uma nova régua para o esporte brasileiro; não foi.

E essa impunidade passa também pela falta de representatividade.

Criar regras que incluam as minorias poderia ser um caminho para se atenuar o problema. Mas elas precisariam ser mais eficazes do que a criada pelo futebol inglês.

A iniciativa da Magazine Luiza veio depois de uma análise que provocou uma reflexão interna. Apenas 16 % dos representantes de lideranças da empresa são negros.

No comunicado, a rede diz que "para uma empresa que prega o valor das pessoas e da diversidade e que celebra todos os dias o Brasil, um país multirracial. Seria uma hipocrisia fechar os olhos e assumir que não há alguma coisa errada. É claro que há. Partindo do princípio de que não somos uma empresa racista e que acreditamos no poder da diversidade, onde está o problema?"

Isso é racismo estrutural.

Esse racismo é aquele silencioso, que perpetua uma cultura de abandono e preconceito contra os negros, mantendo o privilégio branco escondido no discurso da "meritocracia".

Os que criticaram a ação falam em "preconceito contra brancos", algo que todo mundo que quiser realmente refletir sobre essa questão sabe que não existe. No Brasil, definitivamente não.

O que a rede varejista fez foi tomar uma "ação afirmativa" no combate à desigualdade, como várias empresas globais têm feito e inclusive órgãos públicos na Europa e Estados Unidos já fazem há vários anos.

Incluir, não segregar. Abraçar, não afastar. O esporte nasce também dessa ideia de pertencimento a todos. E ele sempre foi um exemplo para a sociedade. Mas seria interessante se ele também dessa uma olhadinha para o lado, e adotando bons exemplos evoluísse de fato no combate ao preconceito racial.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL