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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gomes: Se a Copa fosse hoje, Argentina seria mais candidata que o Brasil

Lionel Messi comemora gol na vitória da Argentina sobre o Uruguai nas Eliminatórias da Copa - REUTERS/Agustin Marcarian
Lionel Messi comemora gol na vitória da Argentina sobre o Uruguai nas Eliminatórias da Copa Imagem: REUTERS/Agustin Marcarian
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

11/10/2021 13h19

Desde quando não olhamos para Argentina e Brasil e falamos: os argentinos, se a Copa do Mundo começasse hoje, teriam mais chances de título do que a seleção?

Eu creio que o ano era 2002. A Argentina vinha de uma eliminatória brilhante, com 13 vitórias em 18 jogos, um time que voava com Verón, Batistuta, Gallardo, Ortega, Crespo, tudo isso sob comando de Marcelo Bielsa. Já o Brasil havia trocado duas vezes de técnico no ciclo de uma Copa para a outra, sofreu para se classificar e tinha seus principais jogadores, Ronaldo e Rivaldo, baleados.

Dá para dizer que, em 2002, a Argentina era uma das favoritas para ganhar a Copa. O Brasil não chegava com esse status. Acabou encontrando seu melhor momento justo no Mundial e levando o pentacampeonato.

Depois disso, nunca mais houve este cenário. O Brasil dominou o futebol continental e foi mais forte que a Argentina por duas décadas, mesmo havendo um Messi do outro lado. A Argentina foi mais longe que o Brasil na Copa de 2014, quase conquistou o título. Mas não era mais cotada naquele ano do que a seleção brasileira - que jogava o Mundial em casa e vinha de um título na Copa das Confederações em cima da badalada Espanha.

Estou falando de perspectivas, das expectativas que um time gera, e não dos resultados. Agora, responda rápido: se a Copa do Mundo começasse hoje, quem parece mais pronta? A seleção argentina ou a brasileira?

Creio que, pela primeira vez em quase duas décadas, a resposta é a Argentina. A idade chega para Messi, mas ele continua sendo um gênio. E o técnico Scaloni, por quem ninguém dava um tostão, encontrou uma maneira de construir um time sólido e criativo em torno dele. O goleiro, Martínez, mostra-se o primeiro arqueiro argentino seguro em anos. A dupla de zaga ainda é pouco confiável, é verdade. Mas o time encontrou química no meio de campo com Paredes, De Paul, Lo Celso e, na frente, Lautaro e os Correas estão em franca ascensão.

E obviamente houve um doping de confiança na Argentina depois da conquista da Copa América, quebrando um jejum de 28 anos sem título da seleção principal. Agora que conseguiram tirar esse peso das costas, parece um time solto em campo. Messi não tem mais nada o que provar para o público local e para si mesmo, está sorrindo e se divertindo em campo. É um cara mais leve.

Em 2010, 2014 e 2018, Messi e a Argentina mostravam-se mais pesados em campo. Sim, mesmo em 14, com Sabella, era assim. A final contra a Alemanha foi muito bem jogada, mas a campanha também teve trancos e solavancos.

A Argentina é melhor do que o Brasil? Não estou dizendo isso. Apenas que, hoje, a Argentina encontrou confiança e soluções. O Brasil acumula dúvidas e, mesmo com bons resultados nas eliminatórias, está perdendo confiança.

Tite está fazendo testes em relação a nomes - isso é válido -, mas, como não há grandes diferenças entre os bons jogadores brasileiros espalhados nas ligas europeias (muitos bons, nenhum fora-de-série), parece que os testes trazem mais dúvidas do que certezas. Os jogos contra a Venezuela e Colômbia foram francamente ruins, e agora já se fala em Raphinha, do Leeds, como a solução para todos os problemas. É óbvio que não é.

As seleções campeãs do mundo costumam ser times prontos e que eventualmente encontram alguma solução em cima da hora, aquele toque que faz a diferença entre ganhar e perder um campeonato.

A França era um time pronto, que arrumou um certo Mbappé a um ano da Copa. A Espanha de 2010, por exemplo, já era campeã da Europa, mas encontrou em Busquets uma peça super importante para a consistência defensiva no meio de campo. Enfim, há muitos casos assim.

O Brasil de 94 era um time pronto, mas que deu o salto com Romário. Já o Brasil de 2002 não era um time pronto, mas também encontrou em Ronaldinho um jogador que deu o salto de qualidade na hora certa. A Argentina, em 2021, encontrou uma solução chamada "confiança".

Há muitas seleções europeias fortes que entrarão na Copa de 2022 como candidatas. A França, sem dúvida, é a principal delas. Mas tem Itália, Portugal, Inglaterra, Bélgica, Alemanha e esta jovem e talentosa seleção espanhola. Brasil, Argentina e até mesmo Uruguai e Colômbia podem ganhar de qualquer uma delas.

Mas hoje, hoje, e ressalto de novo o "hoje", apesar de a classificação das eliminatórias mostrar outra coisa, a Argentina parece ser a seleção sul-americana melhor posicionada para ganhar a Copa. Se fosse hoje. Mas é ano que vem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL