PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Julio Gomes


Atalanta vira um sopro de alegria em meio à tragédia do coronavírus

Josip Ilicic faz quatro gols na vitória do Atalanta contra o Valencia - Alberto Lingria/Xinhua
Josip Ilicic faz quatro gols na vitória do Atalanta contra o Valencia Imagem: Alberto Lingria/Xinhua
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

10/03/2020 19h04

Resumo da notícia

  • Ilicic faz quatro gols na vitória por 4 a 3 da Atalanta pela Champions
  • Jogo foi disputado com portões fechados em Valência
  • Bérgamo, a província com mais casos de coronavírus na Europa, sorri pela Atalanta

A Itália é o país europeu mais afetado pela epidemia do coronavírus, com mais de 10 mil casos reportados até agora e mais de 630 mortos. Dentro da Bota, a província com mais casos (1472, segundo a última atualização) é a de Bérgamo, no coração da Lombardia.

Enquanto a tragédia se alastra, a Atalanta, filha querida de Bérgamo, também faz história. Mas história das boas. Com a vitória por 4 a 3 sobre o Valencia, na Espanha, a pequenina equipe italiana chega às quartas de final da Liga dos Campeões da Europa pela primeira vez na sua história.

Uma pequena alegria no meio de tanta tristeza. Uma alegria tão contida que não se sabe nem mesmo qual o futuro dela. Será que a Atalanta jogará as quartas de final? Será que o torneio irá adiante? Se jogar, jogará onde? Quem poderá assistir?

Na cidade, ninguém pode ir às ruas para celebrar. Os jogadores comemoraram ao fim do jogo entrelaçando cotovelos uns com os outros. Pelo menos eles devem saber que arrancarão sorrisos de rostos machucados, cansados, tristes, a 1300 km de distância dali.

Os quatro gols de Ilicic foram marcados em um estádio Mestalla fechado, sem público, com aquele triste eco de arquibancada vazia. Em Valência, o coronavírus não passa ainda nem perto de causar o estrago que está causando em Bérgamo. Mas o governo espanhol anuncia medidas emergenciais e proíbe aglomerações - na semana que vem, o Barcelona receberá o Napoli em um Camp Nou também fechado.

A Atalanta já havia vencido a partida de ida por 4 a 1, então dificilmente a torcida do Valencia evitaria a eliminação. O primeiro jogo foi disputado em Milão (por uma questão de regulamento, o estádio da Atalanta não pode receber os jogos europeus), e vai saber quantas pessoas passaram o vírus umas para as outras naquela noite de alegria no San Siro, semanas atrás.

Em Bérgamo, enquanto a Atalanta fazia gols, os termômetros marcavam 7 graus.

De lá, veio o relato dramático de um médico chamado Daniele Macchini, que se espalhou mundo afora. "Entendo a necessidade de não criar pânico, mas me sinto responsável por contar sobre o perigo do que está acontecendo. É como se estivéssemos em uma guerra. Parem de falar que é apenas uma gripe", conta, detalhando como os serviços médicos estão completamente saturados, com agentes de saúde virando noites tentando dar conta das internações.

As pessoas rezam para que algo aconteça: venha uma onda de calor fora de hora ou seja descoberta uma vacina. Elas não podem sair de casa, os hospitais estão superlotados, faltam quartos, macas, equipamentos e energia. É o epicentro da crise.

Pelo menos por alguns minutos, a Atalanta dá algum motivo para sorrir. O futebol é a esperança de que dias melhores virão para a população de Bérgamo.

Julio Gomes