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Julio Gomes


Punição ao Manchester City é recheada de hipocrisia

Manchester City é punido pela Uefa por maquiar seu balanço financeiro - REUTERS/Darren Staples
Manchester City é punido pela Uefa por maquiar seu balanço financeiro Imagem: REUTERS/Darren Staples
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

14/02/2020 17h05

Resumo da notícia

  • Uefa puniu o Manchester City pelo fair play financeiro
  • Clube inglês está banido das duas próximas Champions League e irá recorrer
  • Medidas de controle no futebol deveriam ser muito mais rígidas e profundas do que isso

O Manchester City está fora das duas próximas Champions League, foi o que a Uefa comunicou hoje. Ele ainda está vivo na atual, enfrenta o Real Madrid nas oitavas de final, mas não poderá jogar na Europa nas temporadas 20/21 e 21/22. O City acusa a Uefa de perseguição e irá recorrer ao TAS, na Suíça - uma corte "imparcial", segundo o clube.

Por que veio a punição? Pelo tal fair play financeiro. Basicamente (e obviamente), o City teve aportes financeiros chamados de "patrocínio" que vieram dos próprios donos do clube. São injeções de dinheiro, muito dinheiro, "disfarçadas" de patrocínios que não combinam com os valores praticados pelo mercado. Além disso, o clube não teria contribuído com as investigações.

Justo? Injusto? Exagero?

Antes de falar o que acho do caso, vamos trazer um pouco de contexto.

O futebol tornou-se um enorme negócio, não tem, neste século, nada a ver do que acontecia no passado. Clubes são marcas globais, atingem mercados nos quatro cantos do mundo, movimentam quantias de dinheiro astronômicas. O futebol deixou, faz tempo, de ser apenas uma modalidade esportiva. Hoje, o futebol é um setor. Assim como a indústria farmacêutica ou de construção civil, por exemplo.

Como em todos os setores, como em qualquer lugar onde as quantidades de dinheiro são gigantes, as interrogações são muitas e o poder público de diversos países deveria ficar muito atento. Tem muita picaretagem, muito dinheiro ilícito sendo lavado, muito imposto sendo sonegado.

Junho de 2003. Foi quando um tal Roman Abramovich, russo de Saratov, então com 36 anos de idade, comprou o Chelsea. Um clube tradicional de Londres, mas sem grandes conquistas no passado, sem bala para competir no alto nível inglês.

Ali, começaram as movimentações estranhas e vultosas de mercado, que fizeram todos os grandes clubes tradicionais se mexerem de outra forma. Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, Manchester United, Juventus... ninguém gostou daquilo. Mas estava acontecendo e eles se adequaram.

Assim como no Chelsea, aquilo aconteceu de forma igualmente drástica em outros dois clubes. O Manchester City, comprado com dinheiro dos Emirados Árabes Unidos, e o Paris Saint-Germain, com dinheiro do Catar. São basicamente projetos de países, de monarquias. Dois clubes que passaram a ser players europeus de forma artificial, com um dinheiro que eles não tinham como arrecadar através de bilheterias, patrocínios ou contratos de TV.

Então vamos lá.

É o óbvio ululante que Chelsea, City e PSG receberam dinheiro não compatível com o que eles eram e que haviam feito no passado. Quem considera a tradição tão fundamental no futebol, não gostou. Não gosta. Não gosta de ver a Champions com City, sem United. Não gosta de ver Neymar no PSG, não no Barcelona.

Os clubes gigantes europeus, logicamente, não gostam. Não gostam nem um pouquinho. E aí surgiu o tal fair play financeiro, em 2009, para evitar que clubes gastem mais do que arrecadam e para evitar a injeção "artificial" de dinheiro no esporte.

Oras. Se o futebol é um grande mercado, como qualquer outro... por que não permitir que algum louco nos Emirados Árabes compre e coloque todo seu dinheiro em um clube?

Será que Barcelona e Real Madrid querem fair play financeiro na divisão de receitas com os outros clubes espanhóis? E o Bayern na Alemanha? E a Juventus na Itália?

Estou aqui fazendo uma provocação, OK? Eu considero, sim, que é importante encontrar mecanismos para que o esporte não perca sua essência.

Mas o fair play financeiro da Uefa e a punição ao City são uma tremenda hipocrisia. São clubes e entidades querendo manter o status quo. Fica grande quem é grande, nada disso de "outsiders" mexendo em "nosso" mercado.

Você aí, que está contente com a notícia. Tente pensar. Está contente por qual motivo? Porque realmente se preocupa com o uso do dinheiro no futebol? E se o teu time for o mais rico do Brasil, você está muito preocupado em relação à origem do dinheiro? Seja honesto.

No meu ponto de vista, o fair play financeiro deveria ser muito, muito mais amplo.

Deveria estabelecer tetos para negociações e para Ligas inteiras. Deveria rastrear todo o dinheiro movimentado. Deveria exigir total transparência. Deveria regular comissões de intermediários. Deveria impedir não só a entrada de "outsiders", mas impedir também o massacre que existe hoje no futebol europeu, que cada vez mais emula uma sociedade injusta e desigual, onde poucos têm tanto, muitos não têm nada.

É hipócrita banir o Manchester City e não dar muita bola para a relação entre Florentino Pérez, um bem sucedido empreiteiro, e o Real Madrid, clube que preside.

Nem mesmo nas ligas profissionais americanas, como a NFL e a NBA, a desigualdade entre participantes é tão bizarra como no futebol. E olha que estamos falando do centro do capitalismo mundial. Até lá há regras melhores de solidariedade e distribuição de forças e receitas.

Não acho, muito longe disso, que o Manchester City seja santo. Também não gosto de como o dinheiro vindo de sacos sem fundo interfere em competições desse jeito. Não sou contra o fair play financeiro.

Mas ou libera geral o capitalismo selvagem no futebol ou controla melhor, muito melhor, que é o desejável. Ficar nesse meio caminho, a serviço das marcas já consolidadas, a serviço de um grupinho, é apenas hipocrisia.

Julio Gomes