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Diego Garcia

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Que Robinho seja preso e nunca mais pise em um campo de futebol

Robinho foi condenado por estupro - Bruno Cantini
Robinho foi condenado por estupro Imagem: Bruno Cantini
Diego Garcia

Repórter desde 2010, passou por Folha de S. Paulo, ESPN, Terra e Placar. Ganhou dois prêmios Aceesp (2014 e 2016) e foi indicado aos prêmios Comunique-se (2019), República (2017, 2018 e 2021), Folha (2018 e 2019) e Fenacor (2020). Cobriu Copa do Mundo, Olimpíadas, Mundial de Clubes e outros grandes eventos. Contato: garciadiegosilva@gmail.com

Colunista do UOL

19/01/2022 15h22

Quase 20 anos depois das pedaladas que o apresentaram para o mundo, Robinho foi condenado nesta quarta-feira a nove anos de prisão na Itália por estupro. Estivesse na Europa, já estaria algemado. Mas mora no Brasil, o lugar perfeito para um condenado rico, a terra da impunidade, e a chance de que cumpra sua pena remota. Ou seja: em vez ir para a cadeia, vamos ter que aturar Robinho livre jogando futevôlei nas praias da Baixada Santista?

A Constituição veta a extradição de brasileiros, única possibilidade de o ex-jogador - digo "ex" porque espero que um condenado por estupro jamais volte a chutar uma bola de forma profissional - cumprir a pena imediatamente. A Itália pode pedir que Robinho pague pelo crime cometido no Brasil, mas, convenhamos, conhecendo as coisas como são por aqui, qual é a chance de isso acontecer?

Dados apurados pelo UOL mostram que, nos últimos três anos, a Secretaria de Cooperação Internacional da PGR recebeu somente um pedido de transferência de execução da pena. O pedido ainda está tramitando no STJ e não tem data para ser avaliado. Os números defendem a ideia de que teremos um estuprador condenado andando livremente pelas ruas.

Enquanto isso, dados oficiais mostram que uma mulher é estuprada a cada oito minutos no Brasil. E só 1% dos acusados de violência sexual são punidos - isso quer dizer que os outros 99% ficam livres. Dentro de um universo onde apenas 10% das mulheres têm coragem de denunciar.

Não para por aí. De acordo com o Mapa da Violência de 2015, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, o Brasil é o quinto país no mundo que mais mata mulheres. Com uma média de 13 feminicídios por dia, um aumento de 21% na década. O índice é ainda pior para mulheres negras, com um crescimento de 54,2% no mesmo período.

Diante de todo esse universo, Robinho foi condenado em última instância por estupro. O crime mais hediondo que existe. E ninguém vai fazer nada a respeito?

Vamos ter que ver Robinho pagar por ter estuprado uma mulher encontrando amigos no futevôlei, dirigindo seus carrões, curtindo o verão no Guarujá, vivendo de renda? Como se a jovem albanesa nunca tivesse encontrado o brasileiro e seus amigos, que, segundo a Justiça italiana cometeram violência sexual contra ela em uma boate em Milão, em 2013?

Robinho forçou a saída do Santos em 2005 com a promessa de que seria o melhor jogador do mundo. Ele explodiu no Santos de forma meteórica três anos antes, ainda aos 18, venceu dois Brasileiros, foi vice da Libertadores e em pouco tempo o tornou a maior promessa do futebol brasileiro. Mas a carreira promissora tinha um obstáculo: o próprio Robinho.

Agora, oficialmente, um condenado por violência sexual. Um fim melancólico para alguém que já se definiu como o "futuro nº 1 do mundo": acabou como estuprador. Que Robinho nunca mais pise em um campo de futebol. E, por obséquio, que algo aconteça para que pague pelo crime como deveria: atrás das grades.