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Danilo Lavieri

REPORTAGEM

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Ameaça de demissão de Tite aumenta pressão sobre Caboclo na CBF

Tite está na seleção brasileira desde junho de 2016, mas há chances de colocar o cargo à disposição - Lucas Figueiredo/CBF
Tite está na seleção brasileira desde junho de 2016, mas há chances de colocar o cargo à disposição Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
Danilo Lavieri

Danilo Lavieri começou a carreira em 2008 e trabalha com futebol desde 2010. Já cobriu Copa, Olimpíada, escreveu a biografia do goleiro Marcos (Nunca Fui Santo) e ganhou prêmio de furo do ano da Aceesp em 2019.

Colunista do UOL

04/06/2021 16h01Atualizada em 04/06/2021 19h12

Com Andrei Kampff, Bruno Andrade e Gabriel Carneiro

A coletiva concedida pelo técnico Tite na noite de ontem (3) colocou pressão sobre os dirigentes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), especialmente o presidente Rogério Caboclo. Ao adotar a postura que teve na entrevista, o comandante da seleção brasileira sabia exatamente os efeitos de cada palavra que soltava.

Se em outras ocasiões o treinador superou desavenças e questões pessoais dentro da CBF por sua paixão pela Copa do Mundo, dessa vez a crise pode até mesmo fazer com que ele coloque o cargo à disposição.

Pessoas próximas a Tite lembram que na maioria das vezes o técnico evita entrar em assuntos extracampo e usa respostas evasivas quando o tema não é "campo-bola". Mas ontem foi diferente. Na visão delas, o principal sinal de que a paciência do gaúcho se esgotou foi ele admitir que a vinda da Copa América para o Brasil atrapalhou a preparação dos jogadores para as duas partidas das Eliminatórias da Copa do Mundo.

"O campo é sagrado" é o mantra de Tite e seus companheiros de comissão, e eles viram as notícias de o Brasil sediar a competição atrapalharem essa máxima. Até por isso, nem houve tentativa por parte da comissão de controlar a revolta dos jogadores. Na verdade, houve consenso que o melhor era que o grupo colocasse à direção os motivos de sua irritação.

Caboclo não gostou da postura do técnico e nem mesmo do coordenador de seleções, Juninho Paulista, mas seu momento na CBF é extremamente ruim, o que o deixa fragilizado na disputa. Ele está pressionado por sua postura e recebe críticas internas, de funcionários da entidade, e externas, vindas de cartolas de clubes e dirigentes de federações.

Tite e seus auxiliares sempre deixam claro a paixão que têm pela disputa da Copa do Mundo. Em nome disso, o treinador já havia deixado de lado insatisfações pessoais com a conduta da entidade em diferentes episódios. Basta lembrar que, meses antes de assumir o cargo na seleção, o comandante havia participado de um abaixo-assinado contra Marco Polo Del Nero. Ele superou esse problema em nome do sonho do hexa.

Ele também iniciou conversas com os dirigentes sobre problemas de calendário que tanto o revoltavam quando estava no comando do Corinthians. Quando percebeu que a briga não teria sucesso, passou a ser mais genérico ao falar desses problemas para evitar que a crise aumentasse.

Desta vez, o técnico está disposto novamente a esquecer problemas políticos para focar na bola, mas se Caboclo insistir com uma postura pouco democrática, seu cargo está em jogo. Mais cedo, o colunista do UOL Andrei Kampff já tinha dado essa informação que também foi confirmada pelo colunista Bruno Andrade e pela reportagem do UOL Esporte: o técnico pode entregar o cargo caso o dirigente não dê mais atenção aos seus atletas ou responda satisfatoriamente às demandas.

Ele não deixou isso claro na coletiva, mas internamente sua posição está evidente. Ao mesmo tempo, Tite também sabe que Caboclo está fragilizado. Ele, seus auxiliares e boa parte do grupo que está concentrado agora para as Eliminatórias têm a percepção que o presidente não terá saída a não ser ceder em boa parte de suas posições.

Além disso, os jogadores da seleção se sentem apoiados por atletas e técnicos de outras seleções que já deixaram clara a insatisfação da manutenção da Copa América mesmo com a pandemia ainda matando mais de 2 mil pessoas por dia. Como mostrou o blog do Marcel Rizzo, as associações se preparam para um eventual boicote à competição.