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Marcel Rizzo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Associações se preparam para um possível boicote de atletas à Copa América

Tite em entrevista evitou negar que atletas não querem a Copa América - Reprodução YouTube
Tite em entrevista evitou negar que atletas não querem a Copa América Imagem: Reprodução YouTube
Marcel Rizzo

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

Colunista do UOL

04/06/2021 10h37

O pedido das associações para que a Conmebol aumentasse o número de inscritos para a Copa América, principalmente da pré-lista de 50 para 60 atletas, já previa que profissionais pudessem se recusar a jogar a competição. Isso ocorreu antes ainda da sede mudar da Argentina para o Brasil.

Nos últimos dias, treinadores e jogadores de algumas seleções demonstraram preocupação em disputar a Copa América em meio à pandemia. A tensão maior neste momento é justamente no time anfitrião, o brasileiro, que como mostrou o UOL Esporte está insatisfeito com a realização do torneio no Brasil e principalmente por não haver diálogo sobre isso com a CBF.

Não há, neste momento, medo de que haja cancelamento caso ocorra boicote por parte de jogadores. As associações tentam minimizar os danos e prometem jogar mesmo desfalcadas. Como mostrou a coluna, as dez federações querem participar também porque receberão, no mínimo, US$ 4 milhões e precisam da verba por causa da crise econômica causada pela pandemia. A Conmebol já adiantou US$ 1 milhão para cada associação, ainda em 2020. A entidade cita a importância esportiva para se fazer a Copa América e o receio de que os times sul-americanos cheguem à Copa-2022, no Qatar, em nível técnico e tático inferiores aos europeus, que têm jogado mais.

Monitoramento de ao menos três federações, segundo apurou a coluna, já demonstrava há algumas semanas a insatisfação de atletas e possíveis recusas a participar da competição — isso ocorreu quando ainda estava indefinido onde se jogaria a Copa América depois da retirada da Colômbia e suspense sobre a Argentina. Além da brasileira, a delegação uruguaia é a que tem tido mais movimentações para o boicote.

As associações, então, pediram para a Conmebol aumentar o número de inscritos — também para se proteger, claro, em caso de contaminações e necessidade de cortes. A pré-lista, que serve como base para substituições por lesões ou se alguém se recusar a atuar, aumentou de 50 para 60 inscritos. Já a lista definitiva subiu dos tradicionais 23 para 28 jogadores, com um detalhe: somente 23 podem estar relacionados para os jogos.

Publicamente, os técnicos Lionel Scaloni, da Argentina, Ricardo Gareca, do Peru, e Martín Lasarte, do Chile demonstraram preocupação em viajar ao Brasil. Entre os jogadores, o uruguaio Luis Suárez, antes ainda da mudança da Argentina para o Brasil, e o argentino Sergio Aguero manifestaram descontentamento com o torneio acontecer em meio à pandemia.

Tensão
Não há impedimento legal para que jogadores se recusem a jogar a Copa América -- nem trabalhista, já que não há vínculo entre eles e as associações, a remuneração é feita pelo período que se serve a seleção, e nem esportivo. A Fifa manteve para 2021 protocolo criado em 2020 e que isenta de punição clubes que não cederem atletas às seleções por causa da covid-19 e isso se estende, claro, aos jogadores. Quem não quiser, não joga.

O alerta já havia sido ligado há alguns dias. Na quarta-feira (2), pouco antes de divulgar a nova tabela da Copa América, a Conmebol publicou em seu site e distribuiu à imprensa um texto em que elenca, na sua visão, os mitos e verdades sobre a realização da competição no Brasil.

Entre os tópicos, que abordam temas esportivos e financeiros, estava a situação epidemiológica atual no Brasil com relação à covid-19. Na comparação, com base em dados da Universidade Johns Hopkins, o Brasil aparece atualmente com menos casos diários por milhão de habitante do que a Argentina e a Colômbia, as sedes originais da Copa América.

No início da semana, a Fifpro, associação mundial que representa os jogadores, divulgou uma carta em que apoia aqueles que se recusarem a disputar a competição. Não pediu o cancelamento, mas criticou a realização no estágio atual da pandemia na América do Sul.

Em resposta, também por escrito, o presidente da Conmebol, Alejandro Dominguez, lembrou que a Conmebol foi a primeira entidade a parar suas competições em março de 2020, a única que conseguiu vacinas para imunizar os entes do futebol, por meio de doação do laboratório chinês Sinovac, e que os protocolos sanitários implementados nos torneios de clubes têm tido 99% de eficiência contra as contaminações.

A Copa América seria realizada em 2020 na Argentina e na Colômbia, mas foi adiada em um ano por causa da covid-19. No fim de maio, devido à instabilidade política, a Colômbia foi retirada da organização. Argentina e Conmebol negociaram, então, para que o país recebesse integralmente o torneio, mas por causa da pandemia o governo decidiu abrir mão.

O Brasil, então, abraçou a Copa América, após o aval do presidente Jair Bolsonaro. Após negativa de alguns governadores, as sedes ficaram definidas para Brasília, Goiânia, Cuiabá e Rio, que terá a final no Maracanã. A seleção de Tite fará o jogo de abertura no dia 13 de junho, contra a Venezuela, em Brasília.